Cerca de quatorze formandos da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc) foram selecionados para apresentar um look autoral adaptado para pessoas com deficiência no Future for Fashion, evento Da programação oficial da London Fashion Week, em Londres.
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O evento acontece em setembro e é um dos quatro principais eventos de moda globais, ao lado de Nova York, Milão e Paris, realizado duas vezes por ano em Londres.
A escolha dos recém-formados foi realizada por Samantha Bullock, CEO da Bullock Inclusion, organização responsável pelo Future for Fashion, uma iniciativa que celebra e promove a moda inclusiva no cenário global.
Como foi a escolha
A seleção ocorreu durante o Observatório de Tendências e Culturas Contemporâneas (Octa Fashion), evento promovido pela UDESC, que apresenta os Trabalhos de Conclusão de Curso dos estudantes de Moda.
Na época, Samantha estava trabalhando em um projeto com Monique Vandresen, chefe do Departamento de Moda da UDESC, relacionado ao desfile Future of Fashion e prestigiou o evento realizados pelos alunos.
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De acordo com a recém-formada Kaory Kitada, de 24 anos, Samantha divulgou nas redes sociais algumas peças que mais chamaram a atenção no momento do desfile, incluindo a da estudante.
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— Naquele momento eu já achei incrível, porque aquilo por si só já significava uma visibilidade
Internacional muito grande. Mas foi a Bela Sfair, uma das estudantes, que continuou a história: ela tomou a iniciativa de conversar com a Monique e, como a Samanta tinha realmente ficado encantada com o OCTA, a ideia de convidar alguns dos looks para o evento surgiu — relembra Kaory.
Durante a avaliação das coleções, foram escolhidos projetos com potencial para o desenvolvimento de um look adaptado, pensado especialmente para pessoas com deficiência. As peças passarão por um processo de aprimoramento autoral antes de serem apresentadas ao público internacional em Londres.
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O projeto tem como eixo central a moda inclusiva e adaptativa. O conceito, a pesquisa e o compromisso dos criadores com uma moda mais diversa, representativa e socialmente responsável também foram levados em conta na curadoria.

A participação no Future for Fashion marca um momento decisivo na trajetória dos novos profissionais, que passam a integrar o cenário internacional com a criatividade brasileira.
Expectativas altas
A expectativa para o evento e a possibilidade de novas oportunidades estão motivando os formandos que foram chamados para apresentar as peças na capital inglesa.
Em conversa com o NSC Total, Lara Neidert, de 21 anos, natural de Rio Negrinho, no interior de Santa Catarina, contou que demorou para acreditar na notícia de que foi selecionada.
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— No início, foi uma surpresa enorme. É muito especial ver alguém valorizando o seu trabalho e querendo dar visibilidade a designers recém-formadas, além de levar a moda brasileira para o exterior. Sair de uma universidade pública e ter um look apresentado em um evento que integra o calendário oficial da London Fashion Week é algo que eu jamais imaginei viver tão cedo — disse.
Bella Sfair, de 28 anos, contou que a oportunidade é a realização de um sonho e que ainda está tentando acreditar na notícia.
— Quando recebi a notícia, demorei um pouco para acreditar e ainda sinto que estou assimilando tudo o que está acontecendo. Sempre tive muita admiração por Londres e pelo cenário criativo da cidade, então saber que terei um look apresentado no projeto Future of Fashion dentro da London Fashion Week é algo muito especial — relembra.
Natural de Porto Alegre, mas criada em Florianópolis, a jovem pretende ir até a capital inglesa para acompanhar o evento.
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— Pretendo estar em Londres para assistir ao desfile de perto e viver essa experiência de forma completa. Poder ver minhas criações sendo apresentadas dentro da London Fashion Week será algo muito especial — disse Bella.
Para Isabela Caprario, também recém-formada, o evento pode ser uma porta de entrada para novas possibilidades.
— Participar de um evento internacional como a London Fashion Week abre portas e amplia muito a visibilidade do trabalho. Minha expectativa é continuar desenvolvendo projetos autorais dentro da moda e também atuar profissionalmente nas áreas de criação, design e estamparia. Muito mais do que um ponto de chegada, vejo essa oportunidade como o início de novas possibilidades dentro da indústria— afirmou.
Para Giulia Amarante, de 24 anos, a oportunidade é uma forma de devolver todo o aprendizado durante os estudos.
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— Sempre acreditei muito na universidade pública e pra mim é muito importante devolver de alguma maneira tudo o que recebi dela e com ela. Conseguir levá-la a uma dimensão tão grandiosa mundialmente, me deixa muito feliz. Minha coleção se chama “Recoluta”, é sobre a força e a importância da mulher latino-americana, principalmente revisitando minhas origens do povo “gaúcho”. Então poder levar um pouco da minha cultura para um dos maiores palcos da moda na Europa, também é motivo de orgulho— disse Giulia.
Peças serão adaptadas
As peças criadas pelas selecionadas devem passar por um processo de aprimoramento autoral antes de serem apresentadas ao público internacional em Londres. Os looks devem ser adaptados, pensados especialmente para pessoas com deficiências.
Para Bella Sfair, que trabalha na Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE) a acessibilidade é essencial na moda e ainda precisa ser mais discutida.
— No caso de pessoas com Transtorno do Espectro Autista, por exemplo, a hipersensibilidade a determinadas texturas pode tornar algo simples como vestir uma roupa uma experiência desconfortável. Já para pessoas cegas, algo como etiquetas em braile poderia garantir um direito básico: saber a composição da própria roupa — afirma.
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— Muitas vezes são adaptações relativamente simples, como pensar em fechos mais ergonômicos ou em soluções que tornem as peças mais confortáveis e acessíveis. Por isso, acredito que falta um olhar mais atento da indústria da moda para essas questões. Além disso, a moda também é uma forma de expressão, e pessoas com deficiência têm o mesmo direito de se expressar através das roupas — disse Bella.
Para Sophia Liz, de 22 anos, apesar de essencial, a acessibilidade na moda ainda é incomum.
— Para mim, a acessibilidade na moda não deveria ser um diferencial, mas sim a base. Somos todos seres humanos e todos merecemos ter acesso a esse universo. Hoje ainda são poucas as marcas que realmente se preocupam com isso, mas a acessibilidade abrange muitas pessoas e abre a possibilidade de que mais gente possa viver a moda, se reconhecer nela e sentir que também pertence a esse espaço.
















