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Lauro Bacca: Parque Nacional de São Joaquim pode ser mais rentável que o carvão

Em artigo publicado no Santa, naturalista e ambientalista Lauro Bacca fala sobre a rentabilidade de parques nacionais em relação à ultrapassada obsessão pelo carvão

07/08/2021 - 12h33

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Redação
Por Redação Santa
Parque Nacional de São Joaquim, em SC.
Parque Nacional de São Joaquim, em SC.
(Foto: )

Por Lauro Bacca, naturalista e ambientalista

Faz alguns anos, um abaixo-assinado em Lauro Müller com mais de mil assinaturas, pedia que o município ficasse de fora do perímetro do Parque Nacional de São Joaquim.

Alegava-se, entre outras coisas, que o município preservaria as magníficas encostas dos Aparados da Serra por conta própria, digamos assim, através de um ecomuseu, categoria inexistente na lei do Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza.

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As razões por trás dessa iniciativa, conforme alguns, era de que um parque nacional inviabilizaria novas frentes de exploração de carvão mineral no território municipal, além, claro, da má fama que têm os parques nacionais brasileiros.

Temos aqui dois fenômenos de inércia psicossocial, uma espécie de demora natural de adaptação em direções distintas. Por um lado, se a economia de grande parte da região Sul de SC foi por muitas décadas impulsionada pela exploração do carvão mineral, a tendência natural seria a da continuidade a esse processo econômico enquanto houver filões disponíveis desse combustível.

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Por outro lado, a referida má fama dos parques nacionais brasileiros, principalmente por falta de indenização das propriedades, faz com que muitos não queiram saber deles por perto de seu quintal.

Pois bem, o mundo gira e as coisas mudam. Há quase um consenso internacional de abandono, o mais rápido possível, do uso da energia fóssil, incluindo, claro, a mais poluidora de todas, a energia advinda do carvão mineral. Por outro lado, a percepção da importância das áreas naturais protegidas também está mudando rapidamente.

Se para algumas pessoas, lideranças políticas inclusive, a ecologia não seja coisa tão importante, pelo menos, de uns tempos para cá, ela passou a se constituir também num enorme potencial econômico. E quando se toca no bolso e se ouve o “plim-plim!” da caixa registradora, fica mais fácil mudar de ideia.

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Não fosse a pandemia, a projeção para os parques nacionais brasileiros no ano passado seria da ordem de 15 milhões de visitantes, uma demanda que cresce de forma impressionante no Brasil.

Fica fácil, então, imaginar o quanto isso move a economia. Afinal, são 15 milhões em viagens, hotéis, pousadas, ingressos, guias credenciados, refeições, lanches, lembranças, compras no comércio local e muito mais, resultando em dezenas de bilhões de reais, favorecendo principalmente as cidades do entorno dessas unidades de conservação.

E isso é só o começo.

15 milhões ainda são poucos quando comparados com 300 milhões de visitantes que os parques nacionais dos EUA recebem por ano, por exemplo.

Será, portanto, um rentabilíssimo negócio para todos, tanto do ponto de vista econômico quanto ambiental, trocar carvão por preservação, ainda mais considerando o potencial de aporte de dólares, euros, libras, ienes e renminbis que poderão chover no país estando nossos maravilhosos parques nacionais bem preservados.

Eles possibilitam muito mais emprego e renda do que a grande maioria das outras alternativas econômicas nos mesmos locais. Além do mais, o nome Parque Nacional tem poder, vale ouro. Por mais que belezas naturais atraiam visitantes, se um europeu, por exemplo, sabe que aquela beleza está protegida por um parque nacional, seus olhos brilham e a vontade de vir conhecê-lo aflora imediatamente.

O que estamos esperando, então, para implantar definitivamente o Parque Nacional de São Joaquim (sem diminuir seu tamanho!) e os demais parques nacionais brasileiros? Que sejam implantados no Brasil, o quanto antes.

Para o bem geral da economia da nação e da qualidade do nosso meio ambiente.

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