Após completar três anos à frente do Ministério da Fazenda, Fernando Haddad (PT) encerrou sua passagem pela pasta consolidado como o pilar central da gestão Lula. Se o horizonte de 2023 era nublado pelo descrédito de setores da Faria Lima, o agora ex-titular da Fazenda respondeu com entregas de alto calibre e uma destreza política que calou até os caciques mais céticos do Legislativo. O ponto de inflexão dessa jornada foi, sem contestação, a reforma tributária um gargalo histórico de décadas que, sob sua batuta, finalmente transpôs o papel.
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A marca de pouco mais de 1 mil dias à frente da economia brasileira demonstrou uma resiliência que desautorizou as projeções mais conservadoras do mercado. O produto interno bruto (PIB) superou sucessivamente as expectativas, mantendo uma trajetória de expansão que atropelou o pessimismo inicial e consolidou um crescimento robusto em bases anuais.
Esse desempenho foi acompanhado por uma condução rigorosa da política monetária. A inflação, mantida sob “rédea curta”, encerrou os períodos dentro do intervalo de metas estabelecido pelo conselho monetário nacional (CMN), garantindo a preservação do poder de compra das famílias. Foi esse cenário de estabilidade de preços que chancelou o início do ciclo de flexibilização da taxa Selic pelo banco central um processo marcado pela cautela técnica da autoridade monetária, em contraste com a celeridade demandada pelo Palácio do Planalto.
O Equilíbrio de Haddad sob tensão
O ministro converteu-se no para-raios da ala ortodoxa do PT e de movimentos de base, que o rotulam como o “ajustador” de plantão. Para esse núcleo, as novas diretrizes fiscais não passam de um “Teto de Gastos repaginado”, capaz de asfixiar aportes cruciais em infraestrutura e desenvolvimento.
A obstinação de Haddad pela meta de déficit zero fez dele a vidraça predileta do partido, disparando faíscas públicas com a cúpula da legenda, liderada por Gleisi Hoffmann. Para os entusiastas da expansão do gasto público, as travas de contenção do arcabouço como o represamento de concursos e subsídios configuram um “garrote” no serviço público e um entrave ao crescimento orgânico do país.
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O ônus político: de “Taxad” à Taxa das blusinhas
Se nos corredores do Congresso Fernando Haddad é celebrado como um articulador habilidoso, nas ruas e nas redes sociais o ministro enfrenta o ônus de uma busca incessante por novas receitas. A estratégia de estancar “sangrias” fiscais acabou atingindo o bolso do cidadão comum, tendo como ícone negativo a “Taxa das Blusinhas“ a cobrança de 20% sobre as compras em plataformas internacionais de até 50 dólares. O episódio rendeu a Haddad a pecha irônica de “Taxad” no ecossistema digital, sintetizando a irritação do consumidor.
No pacote de desgastes entram ainda o imbróglio da regulamentação das apostas esportivas (Bets) e a queda de braço para sepultar a desoneração da folha de 17 setores. O tema detonou um curto-circuito com sindicatos e entidades de classe, sendo pacificado somente após uma exaustiva negociação para uma transição escalonada da carga tributária.
O “Soldado” de Lula e o tabuleiro de 2026
A trajetória de Fernando Haddad é um exercício de sobrevivência e lealdade. Embora carregue cicatrizes de derrotas amargas em São Paulo (2016 e 2022), sua resiliência como o rosto do PT no pleito presidencial de 2018 quando herdou 47 milhões de votos de um Lula impedido chancelou sua ascensão à Fazenda. Paradoxalmente, o revés estadual de 2022 foi o que o alçou ao posto de fiador da economia, demonstrando uma fidelidade incondicional ao projeto lulista.
Agora, o horizonte aponta para um novo lance estratégico: a provável troca do gabinete ministerial pela disputa ao governo de São Paulo em 2026. A lógica do Planalto é pragmática: Lula precisa de um ativo com projeção nacional e trânsito fluído pelo PIB para retomar o maior colégio eleitoral do país. Amparado pelo êxito da reforma tributária e pelo respaldo das agências de rating, Haddad consolida-se não apenas como um técnico, mas como o projeto político mais ambicioso e o sucessor natural da era Lula, seja nas diretrizes da legenda ou no comando do estado mais rico da federação.
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