Na última semana, a temperatura na região central do Pacífico Equatorial atingiu pela primeira vez neste ano 0,5ºC acima da média, um sinal claro de que o El Niño deve se formar em 2026. Os modelos usados para fazer as projeções ainda não são capazes de dar certeza sobre a força dele, mas há 25% de chances de ser um super El Niño. Historicamente, isso só aconteceu cinco vezes, em intervalos que têm diminuído, o que chama a atenção da ciência.

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Com o trecho monitorado do oceano mais aquecido, a evaporação ocorre mais rápido. Esse ar quente leva umidade para a atmosfera e forma uma grande quantidade de nuvens carregadas. Com isso, no meio do Pacífico chove mais, dando início a um efeito dominó que alcança o Sul do Brasil e recebe o nome de El Niño.

A agência norte-americana Noaa é o principal órgão internacional que monitora o comportamento do Pacífico. Essas observações resultam, mensalmente, em relatórios que indicam a probabilidade do fenômeno se formar a médio prazo. No mais recente deles, a Noaa afirmou que as chances do El Niño começar a se estabelecer durante o inverno é de 61%, persistindo pelo menos até o verão.

As condições neutras, que é quando não há nem La Niña nem El Niño em atuação, já estão saindo de cena. Isso não significa que o El Niño esteja configurado neste momento, pois cientificamente são necessários cerca de seis meses consecutivos com as anomalias a partir de 0,5ºC para que haja oficialmente o fenômeno. Porém, com o passar das semanas, o aquecimento já é capaz de interferir na circulação atmosférica global.

Os modelos usados para fazer essas projeções ainda não são capazes de dar certeza sobre a força do El Niño. O que se sabe é que os ventos no Pacífico estão fracos e persistentes. Se essa característica continuar, o próximo El Niño será de intensidade muito forte — a possibilidade para isso atualmente é de 25%, descreve a agência.

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O que impressiona muitos cientistas é que o aquecimento tem sido mais rápido do que o previsto. No começo do ano, a condição era de La Niña, com temperaturas abaixo do normal, mas o cenário já é outro, com a elevação bem estabelecida, analisa o meteorologista da Defesa Civil do Estado, Caio Guerra:

— Hoje há uma confiança relativamente alta na formação do El Niño. No entanto, a intensidade do fenômeno é incerta porque ainda estamos a alguns meses do seu pleno desenvolvimento. Esse tempo de antecipação aumenta a incerteza — detalha.

O El Niño em 10 passos

Super El Niño

Oficialmente não existe a classificação de “super El Niño”, mas o termo é usado popularmente quando o aumento da temperatura do oceano ultrapassa os 2°C acima da média, patamar considerado elevado e pouco comum, explica Guerra. Para se ter uma ideia, desde 1950, dos 25 episódios de El Niño, cinco tiveram registros acima dos 2ºC, mostram dados da Noaa.

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O que o levantamento também indica é uma diminuição no intervalo de El Niños de forte intensidade. Entre a metade do século passado e meados do atual, foram mais de 10 anos entre um “super El Niño” e outro. Na história recente, esse tempo caiu para oito anos (veja na linha do tempo). E agora, se de fato o próximo aquecimento ficar acima dos 2ºC, a “pausa” será de menos de cinco anos.

Aquecimento no céu e na água

Desde 1950, os cinco episódios de El Niños fortes foram em 1972/1973, 1982/1983, 1997/1998, 2015/2016 e em 2023/2024, conforme a Noaa. No último ocorreram as chuvas que devastaram o Rio Grande do Sul, com impactos também para os catarinenses, com enchentes especialmente no Vale do Itajaí. De acordo com o Atlas de Desastres do Brasil, do governo federal, 2023 foi o segundo ano com o maior número de eventos hidrológicos de Santa Catarina das últimas três décadas.

Pela classificação, os eventos hidrológicos são enxurradas, alagamentos, enchentes, deslizamentos e chuvas intensas. Esses extremos já estão mais frequentes por conta do aquecimento global e, com a temperatura do Oceano Pacífico mais elevada, eles tendem a se intensificar, alertam meteorologistas de todo o mundo.

A preocupação resultou em um relatório publicado pela Organização Meteorológica Mundial, ligada à ONU, no mês passado. O documento destacou que com o El Niño as temperaturas globais poderão atingir novos recordes em 2026, agravando ainda mais a emergência climática.

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As categorias do El Niño

Fraco: 0,5°C a 1,0°C acima da média
Moderado: 1,0°C a 1,5°C acima da média
Forte: 1,5°C a 2,0°C acima da média
Muito forte: acima de 2,0°C acima da média

Combo destrutivo

A previsão da chegada de um novo El Niño exige monitoramento e medidas preventivas, mas de forma alguma pânico, tranquilizam os meteorologistas catarinenses. Até porque, como explica Guerra, não há uma relação direta entre El Niño intenso e impactos mais severos. O ano em que Santa Catarina teve o maior número de eventos hidrológicos das últimas três décadas, por exemplo, foi em 2022, um período marcado pela atuação da La Niña.

Isso ocorre porque no tempo e clima um fato sozinho não dita as regras. O El Niño não é o único responsável pelo registro de desastres em Santa Catarina. Alice Grimm, cientista reconhecida internacionalmente por pesquisas sobre o tema, destaca em um artigo que, apesar do El Niño deixar o Sul do país ainda mais vulnerável para chuvas extremas, oscilações oceânicas e atmosféricas que mudam semanalmente, anualmente e até em décadas precisam estar alinhadas para que o pior aconteça.

Foi o que ocorreu durante a catástrofe do Rio Grande do Sul em 2024, quando houve um combo de El Niño, oscilações favoráveis e impacto das mudanças climáticas.

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O efeito do El Niño em SC

No caso de Santa Catarina e da região Sul como um todo, Caio Guerra destaca que quando há a formação de um El Niño, a primeira consequência observada é na temperatura, que costuma ficar acima da média. No inverno, isso não significa ausência de dias gelados, mas episódios mais curtos, com frentes que não mantêm as massas de ar frio por muito tempo.

— A partir de agosto aumenta o potencial para tempestades severas, com ocorrência de ventos fortes, granizo e outros eventos extremos. Na primavera, especialmente entre setembro e novembro, são comuns chuvas mais frequentes e volumosas. Esse cenário eleva o risco de alagamentos, enchentes e inundações — detalha o profissional.

Quanto maior o aquecimento das águas, maior a probabilidade desses episódios ocorrerem. Além disso, com o solo encharcado, também há o aumento no risco de deslizamentos. Em outras regiões do país, o comportamento é o oposto. O Norte e Nordeste, por exemplo, podem enfrentar estiagens mais severas.

El Niño e La Niña