No coração de Florianópolis, entre as ruas do Centro por onde milhares de pessoas passam diariamente, existe uma história que ficou escondida durante três décadas e que agora chegará às mãos de milhares de estudantes. Escolhido como uma das leituras obrigatórias do Vestibular UFSC 2027, a obra Primeiro de Abril: Narrativas da Cadeia, de Salim Miguel, nasceu de uma experiência traumática vivida pelo autor durante os primeiros dias da ditadura militar — e foi escrita dentro de uma cela.
Continua depois da publicidade
Em abril de 1964, um dia após o golpe militar que derrubou o presidente João Goulart, o jornalista e escritor Salim Miguel foi preso para “averiguações“. Intelectual conhecido em Santa Catarina, chefe da Agência Nacional no Estado e uma das lideranças do movimento cultural que transformou a vida artística catarinense nos anos 1940 e 1950, ele passou 48 dias detido no quartel da Polícia Militar, no Centro de Florianópolis.
O que os militares não sabiam era que, durante o período de cárcere, ele registrava secretamente tudo o que via. Em pedaços de papel escondidos, com uma escrita deliberadamente deformada para dificultar a identificação caso fosse descoberto, ele anotou conversas, medos, personagens e situações que testemunhava atrás das grades. Os registros sobreviveram ao período mais duro da ditadura e permaneceram guardados por 30 anos.
Continua depois da publicidade
Somente em 1994, quando completou 70 anos e o golpe militar completava três décadas, o escritor decidiu abrir aqueles cadernos ao público. Nascia então Primeiro de Abril: Narrativas da Cadeia, obra que acaba de entrar para a lista de leituras obrigatórias do Vestibular UFSC 2027.
Conheça Salim Miguel
Continua depois da publicidade
A prisão que começou no dia seguinte ao golpe
Salim Miguel não era um revolucionário armado nem um líder clandestino. Era um homem de letras. Nascido no Líbano em 1924, chegou ao Brasil ainda criança. Depois de uma passagem pelo Rio de Janeiro, sua família se estabeleceu em Biguaçu, na Grande Florianópolis. Foi ali que começou sua relação quase obsessiva com os livros.
Sem dinheiro para comprar exemplares e vivendo numa cidade sem biblioteca pública, o jovem Salim encontrou uma solução inusitada: passou a frequentar diariamente uma livraria local. O proprietário, que era cego, propôs uma troca: emprestaria os livros se o menino lesse para ele.
Continua depois da publicidade
Durante anos, Salim passou horas mergulhado na literatura brasileira e estrangeira. Aquele garoto que lia para um livreiro cego se transformaria em um dos maiores escritores catarinenses do século XX. Décadas depois, porém, seus livros seriam vistos como ameaça.
Logo após o golpe de 1964, agentes militares prenderam intelectuais, sindicalistas, jornalistas e militantes em diversas regiões do país. Em Florianópolis, Salim foi levado para o quartel da Polícia Militar.
Continua depois da publicidade
Ali encontrou uma galeria improvável de personagens: professores, funcionários públicos, trabalhadores, ativistas e cidadãos comuns que tinham em comum apenas a suspeita de serem opositores do novo regime. O livro registra o medo, a incerteza e a convivência forçada entre homens que não sabiam quando seriam libertados nem quais acusações enfrentariam.
A Florianópolis da fogueira de livros
Entre os episódios mais impactantes narrados por Salim está a destruição de livros e documentos durante os primeiros dias do regime militar. No prefácio da obra, o jornalista Moacir Werneck de Castro destaca que o autor relata, inclusive, “a queima absurda de livros em pleno centro da capital catarinense” e a destruição da livraria que mantinha na cidade.
Continua depois da publicidade
Neste momento, para quem lê a obra, a repressão deixa de ser uma história de Brasília, Rio de Janeiro ou São Paulo e ganha endereço local. As ruas, os prédios públicos e os quartéis mencionados por Salim pertencem à geografia cotidiana da Capital.
Eglê Malheiros, esposa de Salim, também foi presa na ditadura
A história de Salim não pode ser contada sem Eglê Malheiros, sua esposa. Poeta, professora, tradutora, roteirista e militante política, Eglê foi uma das mulheres mais importantes da história cultural catarinense. Os dois se conheceram no ambiente efervescente do Grupo Sul, movimento responsável por introduzir e consolidar ideias modernistas em Santa Catarina.
Continua depois da publicidade
Juntos, ajudaram a transformar a vida cultural de Florianópolis. Participaram da criação da revista Sul, fundaram um cineclube, incentivaram as artes plásticas, promoveram intercâmbio intelectual com outros estados e escreveram o roteiro de O Preço da Ilusão (1958), considerado o primeiro longa-metragem produzido em Santa Catarina.
Enquanto Salim se destacava na literatura e no jornalismo, Eglê acumulava pioneirismos. Foi a primeira mulher a se formar em Direito em Santa Catarina, professora do Instituto Estadual de Educação (IEE) e uma das poucas vozes femininas de destaque na cena intelectual catarinense do período.
Continua depois da publicidade
Quando a ditadura começou, ela também foi presa. Permaneceu uma semana detida no Hospital da Polícia Militar e depois passou cerca de 50 dias em prisão domiciliar. A perseguição política a afastou das salas de aula até a anistia, concessão de perdão para que a ficha criminal seja zerada.
Leituras obrigatórias da UFSC reúnem clássicos, autores contemporâneos e até música
A obra de Salim Miguel é uma das sete leituras indicadas para o Vestibular UFSC 2027. A lista também reúne Vésperas, de Adriana Lunardi; O irmão alemão, de Chico Buarque; Eu sou Macuxi e outras histórias, de Julie Dorrico; Clara dos Anjos, de Lima Barreto; A paixão segundo G. H., de Clarice Lispector; e o álbum Secos e Molhados.
Continua depois da publicidade
A primeira vez que a lista de obras obrigatórias incluiu um álbum musical foi no vestibular de 2025. Era o disco Tropicalia ou Panis et Circencis, lançado em 1968, que reúne 12 músicas cantadas e compostas por diversos artistas, como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa, Chico Buarque, Nara Leão, Tom Zé e Os Mutantes.
Na ocasião, a Comissão Permanente do Vestibular (Coperve), que organiza o vestibular da UFSC, explicou a escolha dizendo que “o disco é visto como um manifesto, considerado fundamental e representativo de uma revolução na música popular e nas demais artes brasileiras.”
Continua depois da publicidade
As provas do Vestibular UFSC 2027 serão realizadas nos dias 5 e 6 de dezembro de 2026.






