Lula e Bolsonaro travam duelo sobre Covid, corrupção e fake news em debate

Primeiro debate no segundo turno aconteceu neste domingo (16) em tv aberta

Compartilhe:

Lula e Bolsonaro disputam o segundo turno das eleições 2022 (Foto: Evaristo Sa, AFP / Tiago Ghizoni, NSC Total)

Os dois candidatos à presidência da República no segundo turno das eleições 2022, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Jair Bolsonaro (PL) lançaram mão do arsenal de acusações mútuas e chamaram um ao outro de mentiroso no primeiro debate do pós primeiro turno, neste domingo (16), promovido pela Folha, UOL, TV Bandeirantes e TV Cultura. 

Continua após a publicidade

Receba notícias de Santa Catarina pelo WhatsApp

Lula reforçou atacou a má gestão do atual presidente durante a pandemia de Covid-19 e na economia do país, enquanto Bolsonaro insistiu na estratégia de vincular o petista à corrupção. O ex-presidente repetiu críticas à Operação Lava Jato, que o levou à prisão, apesar de suas condenações serem anuladas depois. 

Continua após a publicidade

Apesar das falas duras, o clima foi no geral moderado, com ambos mantendo o tom de voz baixo, esboçando sorrisos irônicos, evitando agressividade e se movimentando em direção às câmeras para conversar com os eleitores.

Ao longo do debate, Lula pediu quatro direitos de resposta por falas de Bolsonaro que considerou ataques à honra, e um foi concedido. O atual presidente solicitou dois pedidos, que não foram atendidos pela comissão responsável no programa.

Ao falar sobre corrupção, Bolsonaro recebeu ajuda nos intervalos do ex-juiz Sergio Moro, que acompanhava a equipe. O senador eleito pelo Paraná e ex-ministro da Justiça de Bolsonaro, com quem estava rompido, municiou o candidato com dados. O vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ) também orientou o pai, principalmente com dicas para andar pelo cenário e olhar para as câmeras.

A estratégia detonada pelo PT horas antes do debate, de vincular Bolsonaro a pedofilia após a fala de que “pintou um clima” com “menininhas de 14 e 15 anos”, foi diluída no debate, depois que o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) impediu a candidatura de continuar fazendo a associação.

Continua após a publicidade

Bolsonaro afirmou que Lula e aliados são “especialistas em pegar vídeos” e cortar trechos para atacá-lo, em referência indireta ao caso da fala usada no fim de semana contra o presidente. O petista riu e rebateu, dizendo que é o lado do presidente que adota essa linha e distribui fake news.

Policiais da segurança de Lula pedem investigação sobre ameaça de tiro em SC

Continua após a publicidade

Lula também aludiu ao episódio ao lembrar que o rival fez uma live na madrugada deste domingo para se explicar sobre a fala. Foi Bolsonaro quem levou o assunto explicitamente ao palco, para acusar a campanha petista de mentir. Ele chegou a ler trechos da decisão do presidente do TSE, Alexandre de Moraes, com quem antagoniza.

A decisão fala em “conteúdo sabidamente inverídico”. O presidente afirmou que Lula tenta atingi-lo “no que eu tenho mais de sagrado, defesa das famílias e das crianças”. O petista usou no terno um broche da campanha Faça Bonito, de combate à violência sexual contra crianças e adolescentes.

Continua após a publicidade

No debate sobre desinformação, Lula relembrou disputas eleitorais passadas. “O nível era outro, era um nível civilizado. A verdade sempre prevalecia. A gente debatia o futuro do país”, afirmou.

Os dois postulantes evitaram se comprometer efetivamente com o combate a notícias falsas, após pergunta sobre o baixo nível da campanha no segundo turno. As duas campanhas tiveram conteúdos removidos por ordem da Justiça Eleitoral.

Continua após a publicidade

Em desvantagem no Nordeste, o candidato à reeleição tentou desgastar Lula com o eleitorado da região com críticas ao petista por não ter finalizado a transposição do rio São Francisco. 

“O senhor promete o tempo todo. O senhor prometeu levar água para o Nordeste e agora está prometendo picanha e cerveja. O senhor não fica vermelho com essas propostas mirabolantemente mentirosas?”, questionou o presidente.

Continua após a publicidade

Lula e Bolsonaro dizem ser contra aumento do número de ministros no STF

Lula ironizou “a cara de pau desse cara” ao rebater a fala de Bolsonaro de que ele não entregou a transposição. O petista disse que a maior parte das obras (88%) foi feita nas gestões do PT, que iniciaram o projeto. 

Continua após a publicidade

“Você acha que o nordestino que está vendo a gente na televisão acredita que você levou a água?”, disse, dirigindo-se ao rival.

“A grande verdade: o senhor não fez nada pelo Brasil, a não ser transpor dinheiro público para o seu bolso e o dos seus amigos”, rebateu o presidente.

Continua após a publicidade

O petista explorou o descaso de Bolsonaro com a pandemia. O ex-presidente indagou se o rival “não carrega nas costas um pouco do sofrimento dos brasileiros” por ter atrasado a compra de vacinas contra a Covid. “Não quis comprar porque não acreditava”, disse.

Bolsonaro argumentou que não havia vacinas disponíveis inicialmente e citou que seu governo comprou mais de 500 milhões de doses. Lula afirmou que Bolsonaro negligenciou a pandemia e acelerou o número de mortes.

Continua após a publicidade

“O senhor não cuidou, debochou, riu”, atacou, lembrando momentos em que o presidente “brincou com a pandemia e com a morte”, ao, por exemplo, imitar pessoas sem ar e incentivar o uso da cloroquina. “Você não quis entender o sofrimento do povo.”

O candidato à reeleição retrucou, lembrando afirmação de Lula de que “ainda bem que a natureza criou o coronavírus”.

Continua após a publicidade

Bolsonaro usou o tema para introduzir a discussão sobre corrupção, relacionando o PT a supostos desvios durante a pandemia. Ele falou ainda em “roubalheira” do Consórcio Nordeste, formado por governadores de oposição ao governo e alinhados a Lula.

O presidente introduziu um debate sobre segurança pública e a transferência de líderes da facção criminosa PCC, como Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola. Bolsonaro buscou vincular o adversário ao PCC, perguntando se governos petistas não transferiram presos do grupo por “simpatia”.

Continua após a publicidade

“Tem relação com miliciano, ele sabe que não sou eu”, respondeu Lula, citando ter entregue cinco presídios de segurança máxima. “Eu acho que a mentira aqui não é minha”, disse o petista.

Bolsonaro insinuou que o ex-presidente tenha “amizade com bandido”, reforçando narrativa que dominou redes bolsonaristas nos últimos dias insinuando que o petista teria feito campanha no Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, após acordo com líderes criminosos locais.

Continua após a publicidade

“Eu sou o único candidato a presidente da República que tem coragem de entrar numa favela sem colete de segurança”, disse o petista, dizendo que “o Bolsonaro é amigo dos milicianos”. O ex-presidente negou relação com criminosos do Alemão e disse que ali moram trabalhadores e pais e mães de família.

Em pergunta sobre as emendas de relator no Congresso, Bolsonaro afirmou ter vetado a medida e listou 13 deputados do PT que receberam a verba. “Eu não tenho nada a ver com o orçamento secreto. […] Eu faria melhor uso”, disse.

Continua após a publicidade

“Eu vou tentar confrontar o orçamento secreto e criar um orçamento participativo”, rebateu Lula. “Para ver se a gente consegue diminuir o poder de sequestro do centrão”, completou.

Questionado sobre a insinuação de que trabalharia, caso reeleito, pelo aumento do número de ministros do STF (Supremo Tribunal Federal), Bolsonaro negou concordar com a proposta e ouviu Lula criticar a ideia e relacioná-la ao regime de exceção da ditadura militar (1964-1985).

Continua após a publicidade

“Já tivemos experiência na ditadura de mudar a Suprema Corte. […] Não é democrático um presidente da República querer ter ministros da Suprema Corte como amigos”, disse o ex-presidente, acrescentando que os indicados ao STF têm que ter história e biografia. Para ele, mudar a composição seria “um retrocesso que a República brasileira já conhece”.

“Da minha parte está feito o compromisso. Não terá nenhuma proposta, nunca estudei isso com profundidade”, disse Bolsonaro enquanto negava a intenção de sugerir proposta sobre o tema. Uma eventual alteração teria que ser discutida e aprovada no Congresso, mas a questão esbarra em cláusula pétrea da Carta Magna.

Continua após a publicidade

O presidente, no entanto, afirmou que a proposta de ampliar a corte é endossada pelo PT e foi tentada por Dilma Rousseff (PT). Bolsonaro ainda afirmou que o adversário só está concorrendo graças à decisão do ministro Edson Fachin, do STF, de anular suas condenações e sugeriu que, em um segundo mandato seu, indicará ministros conservadores, o que levaria a um equilíbrio na corte.

Terceiro bloco

O terceiro bloco foi dominado pelo tema da corrupção e do escândalo da Lava Jato. Lula tentou desviar do tema, citando melhorias e crescimento da Petrobras em seu governo. Ele também recorreu a medidas de transparência de sua gestão e contra-atacou expondo os sigilos impostos por Bolsonaro.

Continua após a publicidade

“Não tenho nenhum problema de explicar o petrolão e o petrolinho. […] Se houve corrupção na Petrobras, não precisava ter quebrado as empresas. Prendesse quem roubou e deixasse as empresas trabalhando”, disse Lula.

Moraes manda campanha de Lula remover conteúdo que associa Bolsonaro a pedofilia

Continua após a publicidade

O tema da corrupção consumiu boa parte do tempo, mas o petista conseguiu abordar a economia e o desmatamento da Amazônia, pontos fracos de Bolsonaro. Lula afirmou que o adversário está “brincando de desmatar” e que ele “não teve o menor respeito pela Amazônia”. “O homem de negócio sério não invade. […] Quem invade é bandido. E isso vai acabar”, completou.

O ex-presidente, no entanto, não respondeu a duas perguntas diretas de Bolsonaro: quem será o ministro da Economia em seu governo e se ele pretende adotar medidas de controle da mídia.

Continua após a publicidade

Durante o bloco, Bolsonaro consultava suas anotações e ficou em silêncio em diversos momentos em vez de engatar uma fala logo após Lula. O petista, ao contrário, falou muito mais e terminou seus 15 minutos quando o adversário ainda tinha 5 minutos de fala.

Com isso, Lula não teve como rebater acusações de Bolsonaro ligando o petista a Daniel Ortega, da Nicarágua, com o fechamento de igrejas, e Nicolás Maduro, da Venezuela, com o autoritarismo e a miséria.

Continua após a publicidade

Lula usou tempo de direito de resposta para trazer à tona as denúncias de rachadinha contra a família Bolsonaro e a compra de imóveis em dinheiro vivo por parentes do presidente.

Nas considerações finais, ele lembrou que reafirmou a liberdade religiosa quando foi presidente. “O meu adversário é efetivamente o cara que tem a maior cara de pau para contar inverdades aqui”, disse Lula, chamando o rival de “pequeno ditadorzinho” por querer aparelhar o STF.

Continua após a publicidade

Segundo pesquisa Datafolha divulgada na sexta-feira (14), Lula se mantém à frente na disputa, com 49% dos votos totais, ante 44% do atual ocupante do Planalto.

O primeiro debate em que Lula e Bolsonaro ficaram frente a frente foi em 28 de agosto, também promovido por Folha, UOL, Bandeirantes e Cultura. Na ocasião, ainda no primeiro turno, o petista foi questionado pelo presidente sobre corrupção e desviou da questão.

Continua após a publicidade

O saldo final, no entanto, foi negativo para Bolsonaro, que atacou a jornalista Vera Magalhães e foi rebatido por outros candidatos. O tema do respeito às mulheres acabou dominando o programa.

Vera também fez pergunta neste domingo. Ao responder a ela, Lula ironizou o episódio ao dizer que que não iria agredi-la. “Vou me aproximar da câmera, mas não vou te agredir, Vera.” Bolsonaro apenas afirmou à jornalista: “Satisfação revê-la”.

Continua após a publicidade

O programa de 28 de agosto também foi marcado por brigas entre aliados de ambos nos bastidores do estúdio. Desta vez, o clima foi mais calmo. A emissora dividiu o espaço destinado aos convidados com grades, separando cada lado.

Em 24 de setembro, o debate presidencial promovido por SBT, CNN Brasil, O Estado de S. Paulo, Terra, Veja e as rádios Eldorado e Nova Brasil foi marcado pela ausência de Lula, criticada pelos demais postulantes. Bolsonaro acabou como o alvo principal dos adversários.

Continua após a publicidade

Na TV Globo, a três dias do primeiro turno, os dois protagonizaram intensas trocas de ataques e acusações. Além disso, pediram sucessivos direitos de resposta e desperdiçaram oportunidades de se questionarem. Bolsonaro foi auxiliado por Padre Kelmon (PTB), que travou embate com Lula -o programa chegou a ser paralisado por causa da briga.

*Por Caroline Linhares, Catia Seabra, Felipe Batchold, Victoria Azevedo, Joelmir Tavares e Paula Soprana

Continua após a publicidade

Leia também

Chuva intensa deixa SC em alerta com barragens, alagamentos e deslizamentos

Voto de Amoêdo em Lula no 2º turno causa críticas do Novo: “pega o boné e vai embora”

Continua após a publicidade

Eleição de 2022 será a sétima decidida em 2º turno no Brasil