Tremores de baixa intensidade registrados recentemente no Tocantins e no litoral do Rio de Janeiro voltaram a chamar atenção para a ocorrência de abalos sísmicos no Brasil. Embora o país esteja distante das principais zonas de terremotos do planeta, seu histórico inclui episódios de grande magnitude, como o mais forte terremoto já registrado em território brasileiro, ocorrido em 1955, em Mato Grosso, com magnitude estimada em 6,2. Com informações do g1.

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O abalo aconteceu na madrugada de 31 de janeiro daquele ano, na Serra do Tombador, região que atualmente integra o município de Juara (MT). Segundo a Rede Sismográfica Brasileira (RSBR), o tremor ocorreu em uma área isolada e sem população, distante dos locais tradicionalmente associados a grandes terremotos. Na época, Juara ainda não havia sido emancipada e a região permanecia desabitada, o que fez com que o episódio quase passasse despercebido.

O terremoto alcançou intensidade VII na Escala Mercalli Modificada, considerada forte o suficiente para causar danos importantes, especialmente em edificações mais vulneráveis.

A Escala Mercalli varia de I a XII e mede a intensidade dos terremotos com base nos efeitos observados pelas pessoas e nos danos causados às construções. Nos níveis mais baixos, os tremores mal são percebidos; nos mais elevados, podem provocar destruição significativa.

De acordo com o pesquisador Lucas Barros, do Instituto de Geociências da Universidade de Brasília (UnB), que estudou a região, o tremor também foi sentido em Cuiabá, localizada a cerca de 380 quilômetros do epicentro. Na capital mato-grossense, a intensidade foi estimada entre IV e V, nível em que os abalos são percebidos pelas pessoas e podem movimentar objetos, mas geralmente sem provocar danos expressivos, conforme classificação do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS).

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Em entrevista ao g1, Barros destacou que um terremoto semelhante teria impactos mais perceptíveis atualmente em razão do crescimento urbano da região.

— Não é possível afirmar com certeza que um novo terremoto vá acontecer. No entanto, como já houve registros anteriores, existe a possibilidade de que novos abalos aconteçam sim — afirmou.

Terremotos com magnitude de 6,2 podem gerar fortes tremores em áreas urbanizadas. Em abril de 2025, um evento dessa intensidade atingiu Istambul, na Turquia. O episódio provocou o balanço de edifícios e deixou 151 pessoas feridas após se lançarem de locais elevados em meio ao pânico, segundo informações do governo turco. Não houve mortes.

O que provocou o terremoto no MS?

O professor e coordenador científico da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Caiubi Kuhn, explica que o terremoto registrado em Mato Grosso não teve origem no encontro de placas tectônicas, mecanismo comum em países como Chile e Japão.

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Fotos mostram destruição causada por tsunami em 2025

Segundo o pesquisador, o fenômeno foi resultado de movimentações internas da própria placa sul-americana, processo conhecido como terremoto intraplaca. Embora menos frequentes, esses eventos podem atingir magnitudes elevadas, especialmente quando ocorrem próximos à superfície.

— O terremoto ocorreu a pouco mais de 10 quilômetros de profundidade. Isso faz dele um terremoto considerado raso — explicou.

Por essa razão, seus efeitos tendem a ser mais intensos na superfície.

Por que ele é considerado o mais forte do Brasil?

Em 2019, um terremoto de magnitude 6,8 foi registrado em Tarauacá, no Acre. Quatro anos depois, outro tremor de magnitude 6,6 ocorreu na mesma região. Apesar dos valores mais elevados, esses eventos não costumam ser classificados como os maiores terremotos brasileiros.

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O sismólogo Bruno Collaço, da RSBR, explica que especialistas fazem uma distinção entre os tremores registrados em território nacional e aqueles relacionados aos processos tectônicos da Cordilheira dos Andes.

— Os terremotos registrados na região do Acre frequentemente aparecem entre os maiores já detectados em território brasileiro. No entanto, do ponto de vista da sismologia, essa interpretação exige uma contextualização importante. Embora ocorram sob o Brasil, os sismólogos, geralmente, não os classificam como “sismos brasileiros” no sentido geológico do termo — afirmou.

Segundo ele, os tremores acreanos estão associados à dinâmica tectônica andina e têm origem fora da estrutura geológica interna do Brasil. Já o terremoto da Serra do Tombador foi provocado por falhas localizadas dentro do próprio território brasileiro.

Pode acontecer novamente?

Passadas mais de sete décadas, especialistas afirmam que um novo evento semelhante pode voltar a ocorrer, embora não seja possível prever quando.

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Conforme Bruno Collaço, os impactos dependeriam principalmente da profundidade do tremor e da distância entre o epicentro e as áreas urbanas.

Caso um terremoto semelhante acontecesse hoje na mesma região, os efeitos mais intensos seriam sentidos em um raio de 20 a 30 quilômetros do epicentro.

— Nessa área, seriam esperadas intensidades que poderiam chegar a VII na Escala Mercalli Modificada, com danos consideráveis em construções mais vulneráveis, como casas de adobe, madeira e muros velhos — explicou.

Em uma faixa de até 50 quilômetros, ainda poderiam ocorrer rachaduras em paredes, queda de objetos e interrupções pontuais de serviços. Regiões próximas ao centro-norte de Mato Grosso estariam entre as mais afetadas.

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O professor Sergio Fachin, da Faculdade de Geociências da UFMT, lembra que o Brasil não possuía uma rede própria de monitoramento sísmico nos anos 1950. Por isso, o terremoto foi identificado com o auxílio de equipamentos instalados em outros países, principalmente no Chile.

Desde então, nenhum novo sismo foi registrado exatamente na mesma área. No entanto, cerca de 110 quilômetros ao norte da Serra do Tombador, no município de Porto dos Gaúchos, uma atividade sísmica recorrente vem sendo monitorada.

Os registros incluem:

  • 1959 — magnitude 4,5;
  • 1981 — magnitude 3,8;
  • 1986 — magnitude 3,6;
  • 1987 — magnitude 3,9;
  • 1988 — magnitudes 3,2, 3,7 e 3,9;
  • 1989 — magnitudes 2,5 e 3,6;
  • 1993 — magnitude 3,8;
  • 1996 — magnitude 4,4;
  • 1997 — magnitude 3,3;
  • 1998 — magnitude 5,1;
  • 2005 — magnitude 4,7.

A frequência dos eventos levou pesquisadores a classificar a área como Zona Sísmica de Porto dos Gaúchos. Segundo os especialistas, os tremores estão relacionados à movimentação geológica em uma grande falha existente na região.

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Relatos e memória do terremoto

Não existem registros detalhados sobre rachaduras, desabamentos ou outros danos provocados pelo terremoto de 1955. Isso se deve ao fato de a região não possuir ocupação humana na época.

Além disso, a área ainda não integrava o município de Juara, criado apenas anos depois. O acesso difícil e a ausência de moradores limitaram os relatos e os levantamentos sobre possíveis consequências do abalo.

Já o terremoto ocorrido em fevereiro de 1959, em Porto dos Gaúchos, foi mencionado em um relatório da Colonizadora Noroeste Matogrossense, empresa responsável pela fundação da cidade.

Segundo o documento, uma “onda sísmica” sacudiu todas as residências da localidade.

— Na cantina, as vigas rangiam, caíram objetos. O movimento foi precedido de um ‘trovão’, digo, de um ruído contínuo, semelhante a trovão — registra o relatório.

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Os moradores apresentaram diferentes interpretações para o fenômeno. Alguns acreditaram que se tratava do fim do mundo; outros imaginaram a queda de um meteoro.

Como os terremotos são medidos e o que a intensidade revela

A magnitude de um terremoto corresponde à quantidade de energia liberada em seu foco no interior da Terra. Essa medição é feita por meio de sismógrafos, equipamentos capazes de registrar vibrações que se propagam por grandes distâncias.

Por isso, mesmo tremores ocorridos no Brasil podem ser detectados por estações localizadas em outros países.

Os especialistas destacam que a escala de magnitude é logarítmica, o que significa que seus valores não aumentam de forma linear. Na prática:

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  • um terremoto de magnitude 6 é dez vezes mais forte do que um de magnitude 5;
  • um terremoto de magnitude 7 libera cerca de cem vezes mais energia do que um de magnitude 5;
  • eventos acima de magnitude 6,5 apresentam elevado potencial destrutivo, especialmente quando ocorrem próximos à superfície.

A cada ponto acrescentado na escala, a intensidade do terremoto aumenta dez vezes.

Segundo Caiubi Kuhn, justamente por ser uma escala logarítmica, pequenas diferenças numéricas representam aumentos expressivos na energia liberada.

A formação de Juara

A história do município mato-grossense está ligada ao processo de ocupação do norte de Mato Grosso, impulsionado pelas políticas federais de integração da Amazônia entre as décadas de 1960 e 1970.

O desenvolvimento da cidade ocorreu gradualmente, desde a chegada dos primeiros colonizadores até sua emancipação política.

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  • Origem: a ocupação da região teve início no começo da década de 1970, dentro dos projetos de colonização promovidos pelo Governo Federal. Em 1971, a empresa SIBAL adquiriu terras na área, abriu estradas, dividiu lotes e implantou a Gleba Taquaral, primeiro nome da localidade. As primeiras famílias chegaram em 1973, vindas principalmente da Região Sul do país.
  • Distrito: o crescimento populacional e econômico resultou na criação do distrito de Juara em 4 de julho de 1976, quando ainda pertencia ao município de Porto dos Gaúchos.
  • Emancipação: a autonomia política foi conquistada em 23 de setembro de 1981, por meio da Lei Estadual nº 4.349, que desmembrou Juara de Porto dos Gaúchos e a transformou oficialmente em município.

De acordo com os dados mais recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Juara possui população estimada em 36.089 habitantes e densidade demográfica de 1,54 habitante por quilômetro quadrado.