Nem dá mais para dizer que a fome é um fantasma a rondar. Para muitas pessoas trata-se de uma realidade. Alavancada pelas crises sanitária e econômica desencadeadas pela pandemia do novo coronavírus, o fenômeno que atinge milhões mostra a vulnerabilidade de muitas famílias que vivem em Santa Catarina.

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O foco são principalmente pessoas que perderam o emprego e dependentes da economia informal. A demora no pagamento do auxílio emergencial pelo governo federal — efetivado a partir desta terça-feira, 6 de abril — e o aumento dos preços fizeram com que entrasse em cena uma lógica perversa: as doações diminuíram.

— Muitas pessoas que no começo da pandemia fizeram doações espontâneas, passaram a se preocupar com a própria realidade — observa Mônica Medeiros, da organização Formiguinhas da Luz, de São José.

“Não dá para dar comida aos cachorros e deixar os donos famintos”

Para quem está no front, o jeito é mudar as estratégias de ação. Foi o que fez a organização Formiguinhas com 14 anos e cerca de 40 voluntários que recolhe animais vítimas de abandono e maus-tratos para deixá-los prontos para a adoção: trocaram os sacos de ração por sacolas com alimentos para humanos:

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— Não dá para dar comida aos cachorros e deixar os donos famintos — diz a assistente social.

A voluntária observa que o engajamento forte da sociedade do ano passado caiu consideravelmente.

— Hoje há uma realidade desproporcional: temos cada vez mais pessoas precisando, mas menos gente doando. Isso nos faz ter que adaptar as situações.

Um exemplo é o que aconteceu com o imigrante haitiano Besnard Lazarre. Sem ter onde morar e desempregado, a ONG achou uma solução para ajudar o rapaz:

— Tínhamos uma casa onde ficavam os cachorros que aguardavam por adoção. Oferecemos o lugar a ele e um trabalho remunerado, que é cuidar dos animais — explica Mônica.

Conversa mostra desespero de mãe e falta de alimentos na geladeira. Situações como essa aumentaram em SC.
Conversa mostra desespero de mãe e falta de alimentos na geladeira. Situações como essa aumentaram em SC. (Foto: Especial, Diário Catarinense)

“Meu pequeno está tonto de fome”

Apesar dos anos de atuação social, Joice Flores ainda sente o coração apertar quando alguém passa fome. Ela, que participa da ONG Além dos Olhares e que já construiu cinco casas para famílias sem-teto, também precisou alterar a rotina:

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— Fui visitar uma família que pedia ajuda e ouvi da mãe que o filho menor, de sete anos, estava tonto de fome. Não havia gás e a geladeira só tinha água. Eu me coloquei no lugar dela, pois tenho dois filhos e sei que a fome é algo triste e que precisa de uma resposta imediata — conta a professora de dança.

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Neste final de semana, Joice e voluntárias da ONG ajudaram a adoçar a Páscoa de crianças nas periferias da Grande Florianópolis. O foco foi a distribuição de chocolates, mas mais uma vez o contato com uma realidade difícil com muitas mulheres chefes de família, desempregadas e com filhos pequenos.

— Desde o começo da pandemia já distribuímos mais mil cestas básicas, além de milhares 220 refeições ao dia para pessoas que vivem nas ruas de Florianópolis. Porém, a situação se agravou e cada vez mais cresce o número de pedidos – observa.

“O número de voluntários também diminuiu”

Com medo de se infectar muita deixou de ser voluntário. Isso ocorre principalmente entre os mais idosos.

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— O número de voluntários também diminuiu, já que muitas pessoas são do grupo de risco e estão mais em casa — conta Claudemir Ataíde de Medeiros, que há três anos participa da Pastoral da Caridade, ligada à Ação Social Arquidiocesana.

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Medeiros conta que com a ajuda da Igreja Católica e as parcerias com empresas e famílias, agasalhos e alimentos não têm faltado. O problema seria a redução de participantes no grupo, de 25 para em torno de 10 pessoas.

O grupo atua no viaduto da Josué de Bernardi, próximo da comunidade Chico Mendes. Mas antes da ação se encontram para preparar os alimentos e montar o material a ser distribuído.

— Sentimos falta nas ações de distribuição de lanches nas noites de domingo, e mesmo na entrega de kits com material escola e de higiene e roupas.

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Em SC, cerca de 6% da população recebe o Bolsa Família de R$ 89

Em 2020, foram pagos cinco meses de R$ 600 e quatro meses de R$ 300 de auxílio emergencial. Com isso, a renda média obtida por famílias de SC com a ajuda ficou em R$ 681. Apesar da redução no número de beneficiados, o novo auxílio emergencial deverá impactar mais do que o Bolsa Família.

Em SC, cerca de 6% da população recebe o benefício, que é de R$ 89. Os dados são da pesquisa Pnad Covid do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Conforme o mesmo IBGE, em 2019, Santa Catarina tinha 536,4 mil catarinenses abaixo da linha da pobreza, cerca de 7,5% da população. 

Seguindo o Banco Mundial, as pessoas abaixo da linha pobreza são aquelas que ganhavam menos de R$ 436 por mês. A tendência que, assim como acontecer no país, estes números tenham aumentado pelos impactos da pandemia.

O levantamento mostrou que eram 107,3 mil catarinenses nessa situação, o que equivale a 1,5% da população, e com menos de R$ 151 mensais. Apesar da grande quantidade de pessoas de baixa renda, Santa Catarina é o estado com o menor percentual de pessoas pobres no país.

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Como ajudar

https://www.cufa.org.br/ 

http://somarfloripa.com/home/ 

https://www.facebook.com/FormiguinhasDeLuzAmigosDosAnimais/ 

Projeto social Além dos Olhos, Instagram 

Pastoral da Caridade SJ, Instagram 

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