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    "Meu filho está tonto de fome": queda nas doações de comida impacta nas comunidades pobres de SC

    Organizações que atuam com quem perdeu o emprego e depende da solidariedade sentem recuo na ajuda às famílias; saiba como ajudar

    06/04/2021 - 09h09

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    Por Ângela Bastos
    Entidades que auxiliam pessoas em situação de vulnerabilidade social relatam queda nas doações de alimentos.
    Entidades que auxiliam pessoas em situação de vulnerabilidade social relatam queda nas doações de alimentos.
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    Nem dá mais para dizer que a fome é um fantasma a rondar. Para muitas pessoas trata-se de uma realidade. Alavancada pelas crises sanitária e econômica desencadeadas pela pandemia do novo coronavírus, o fenômeno que atinge milhões mostra a vulnerabilidade de muitas famílias que vivem em Santa Catarina.

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    O foco são principalmente pessoas que perderam o emprego e dependentes da economia informal. A demora no pagamento do auxílio emergencial pelo governo federal — efetivado a partir desta terça-feira, 6 de abril — e o aumento dos preços fizeram com que entrasse em cena uma lógica perversa: as doações diminuíram.

    — Muitas pessoas que no começo da pandemia fizeram doações espontâneas, passaram a se preocupar com a própria realidade — observa Mônica Medeiros, da organização Formiguinhas da Luz, de São José.

    “Não dá para dar comida aos cachorros e deixar os donos famintos”

    Para quem está no front, o jeito é mudar as estratégias de ação. Foi o que fez a organização Formiguinhas com 14 anos e cerca de 40 voluntários que recolhe animais vítimas de abandono e maus-tratos para deixá-los prontos para a adoção: trocaram os sacos de ração por sacolas com alimentos para humanos:

    — Não dá para dar comida aos cachorros e deixar os donos famintos — diz a assistente social.

    A voluntária observa que o engajamento forte da sociedade do ano passado caiu consideravelmente.

    — Hoje há uma realidade desproporcional: temos cada vez mais pessoas precisando, mas menos gente doando. Isso nos faz ter que adaptar as situações.

    Um exemplo é o que aconteceu com o imigrante haitiano Besnard Lazarre. Sem ter onde morar e desempregado, a ONG achou uma solução para ajudar o rapaz:

    — Tínhamos uma casa onde ficavam os cachorros que aguardavam por adoção. Oferecemos o lugar a ele e um trabalho remunerado, que é cuidar dos animais — explica Mônica.

    Conversa mostra desespero de mãe e falta de alimentos na geladeira. Situações como essa aumentaram em SC.
    Conversa mostra desespero de mãe e falta de alimentos na geladeira. Situações como essa aumentaram em SC.
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    “Meu pequeno está tonto de fome”

    Apesar dos anos de atuação social, Joice Flores ainda sente o coração apertar quando alguém passa fome. Ela, que participa da ONG Além dos Olhares e que já construiu cinco casas para famílias sem-teto, também precisou alterar a rotina:

    — Fui visitar uma família que pedia ajuda e ouvi da mãe que o filho menor, de sete anos, estava tonto de fome. Não havia gás e a geladeira só tinha água. Eu me coloquei no lugar dela, pois tenho dois filhos e sei que a fome é algo triste e que precisa de uma resposta imediata — conta a professora de dança.

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    Neste final de semana, Joice e voluntárias da ONG ajudaram a adoçar a Páscoa de crianças nas periferias da Grande Florianópolis. O foco foi a distribuição de chocolates, mas mais uma vez o contato com uma realidade difícil com muitas mulheres chefes de família, desempregadas e com filhos pequenos.

    — Desde o começo da pandemia já distribuímos mais mil cestas básicas, além de milhares 220 refeições ao dia para pessoas que vivem nas ruas de Florianópolis. Porém, a situação se agravou e cada vez mais cresce o número de pedidos – observa.

    “O número de voluntários também diminuiu”

    Com medo de se infectar muita deixou de ser voluntário. Isso ocorre principalmente entre os mais idosos.

    — O número de voluntários também diminuiu, já que muitas pessoas são do grupo de risco e estão mais em casa — conta Claudemir Ataíde de Medeiros, que há três anos participa da Pastoral da Caridade, ligada à Ação Social Arquidiocesana.

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    Medeiros conta que com a ajuda da Igreja Católica e as parcerias com empresas e famílias, agasalhos e alimentos não têm faltado. O problema seria a redução de participantes no grupo, de 25 para em torno de 10 pessoas.

    O grupo atua no viaduto da Josué de Bernardi, próximo da comunidade Chico Mendes. Mas antes da ação se encontram para preparar os alimentos e montar o material a ser distribuído.

    — Sentimos falta nas ações de distribuição de lanches nas noites de domingo, e mesmo na entrega de kits com material escola e de higiene e roupas.

    Em SC, cerca de 6% da população recebe o Bolsa Família de R$ 89

    Em 2020, foram pagos cinco meses de R$ 600 e quatro meses de R$ 300 de auxílio emergencial. Com isso, a renda média obtida por famílias de SC com a ajuda ficou em R$ 681. Apesar da redução no número de beneficiados, o novo auxílio emergencial deverá impactar mais do que o Bolsa Família.

    Em SC, cerca de 6% da população recebe o benefício, que é de R$ 89. Os dados são da pesquisa Pnad Covid do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Conforme o mesmo IBGE, em 2019, Santa Catarina tinha 536,4 mil catarinenses abaixo da linha da pobreza, cerca de 7,5% da população. 

    Seguindo o Banco Mundial, as pessoas abaixo da linha pobreza são aquelas que ganhavam menos de R$ 436 por mês. A tendência que, assim como acontecer no país, estes números tenham aumentado pelos impactos da pandemia.

    O levantamento mostrou que eram 107,3 mil catarinenses nessa situação, o que equivale a 1,5% da população, e com menos de R$ 151 mensais. Apesar da grande quantidade de pessoas de baixa renda, Santa Catarina é o estado com o menor percentual de pessoas pobres no país.

    Como ajudar

    https://www.cufa.org.br/ 

    http://somarfloripa.com/home/ 

    https://www.facebook.com/FormiguinhasDeLuzAmigosDosAnimais/ 

    Projeto social Além dos Olhos, Instagram 

    Pastoral da Caridade SJ, Instagram 

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