Milhares de peixes apareceram mortos no manguezal do Itacorubi, bairro nobre de Florianópolis, em um cenário que chamou a atenção de moradores, pescadores e autoridades ambientais na quarta-feira (22). Até o momento, análises preliminares indicam que o fenômeno pode ter causas naturais, embora o caso ainda esteja sob investigação.

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Uma avaliação inicial da Polícia Militar Ambiental (PMA) descartou, até o momento, a hipótese de contaminação por produtos químicos tóxicos. Segundo a corporação, a mortandade atingiu apenas uma espécie: a manjubinha (Cetengraulis edentulus), o que enfraquece a possibilidade de poluição aguda, que normalmente afetaria diferentes organismos da fauna local.

A mesma espécie também morreu aos milhares em Palhoça e Biguaçu, neste ano. (relembre os casos abaixo)

O que diz a principal linha de investigação?

De acordo com a PMA, a principal linha de investigação aponta para uma combinação de fatores ambientais e biológicos. Entre eles estão a baixa concentração de oxigênio na água (hipóxia), alterações de temperatura e salinidade, além do comportamento migratório da espécie durante o período reprodutivo.

A manjubinha, considerada mais sensível a essas variações, pode não resistir a essas condições extremas.

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Outro dado que reforça essa hipótese é que, em ocorrências semelhantes registradas neste ano na Grande Florianópolis, em cidades como Palhoça e Biguaçu, também foi identificada a morte exclusiva da mesma espécie. Em alguns desses casos, laudos técnicos já apontaram água com pH mais ácido e níveis reduzidos de oxigênio.

O relatório conclusivo da PMA sobre o caso do Itacorubi deve ser finalizado em até 20 dias.

Veja imagens dos peixes mortos no manguezal do Itacorubi

Microalgas e falta de oxigênio: a hipótese do IMA

O Instituto do Meio Ambiente de Santa Catarina (IMA) também investiga o episódio. Técnicos do órgão foram acionados pela Fundação Municipal do Meio Ambiente (Floram) e realizaram vistoria no local, além da coleta de amostras de água para análises físico-químicas e biológicas, que ainda estão em andamento.

Em nota técnica preliminar, o IMA aponta que o fenômeno observado apresenta semelhanças com um evento ocorrido em março de 2024, quando houve uma grande floração de microalgas nas baías Norte e Sul da Capital.

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Segundo o oceanógrafo Carlos Eduardo Junqueira de Azevedo Tibiriçá, do IMA, a principal hipótese é que essas microalgas, especialmente da família Karenaceae, estejam sendo levadas pelas correntes para áreas de menor circulação de água, como canais do manguezal. Nesses locais, elas se acumulam e criam um ambiente crítico para a fauna.

Algas consomem oxigênio da alga (Foto: ACN, Divulgação)

O problema ocorre porque tanto as algas vivas quanto sua decomposição consomem oxigênio da água. Em medições feitas no local, foram identificados pontos com níveis de oxigênio dissolvido próximos de zero. Esse processo, conhecido como hipóxia, pode levar rapidamente à morte de espécies mais sensíveis, como a manjubinha.

— Durante a noite, a grande quantidade de algas consome o oxigênio para respirar e, ao morrerem, sua decomposição no fundo do manguezal consome ainda mais oxigênio — explica o especialista na nota técnica.

Imagens de satélite e análises realizadas em parceria com o Instituto Federal de Santa Catarina (IFSC) indicam similaridade entre o evento atual e o registrado em 2024, reforçando essa linha de investigação. Ainda assim, o IMA destaca que florações de microalgas são fenômenos complexos e dinâmicos, que exigem monitoramento contínuo.

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Um relatório técnico mais completo, com dados ambientais detalhados e imagens, deve ser concluído também no prazo de até 20 dias.

Limpeza e alerta à população

Enquanto as causas seguem em apuração, equipes da prefeitura de Florianópolis trabalham na retirada dos peixes mortos do manguezal, medida considerada essencial para evitar o agravamento do problema, já que a decomposição pode reduzir ainda mais o oxigênio da água.

A orientação das autoridades é que pescadores evitem a atividade na região até que haja uma conclusão sobre o caso. O IMA também recomenda que a população não consuma peixes encontrados mortos ou debilitados e evite áreas com manchas incomuns na água.

O episódio reacende o alerta para eventos recorrentes na região. Apenas nos primeiros quatro meses de 2026, a Polícia Militar Ambiental atendeu ao menos três ocorrências confirmadas de mortandade de peixes na Grande Florianópolis, todas com características semelhantes.

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