A professora, pesquisadora e cirurgiã coloproctologista Angelita Habr-Gama, considerada uma das maiores referências da medicina brasileira e pioneira da coloproctologia no país, morreu neste sábado (30). A informação foi divulgada pelo Hospital Alemão Oswaldo Cruz em nota publicada neste domingo (31). A médica estava internada na instituição desde o dia 6 de maio.
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Angelita integrava o Centro Especializado em Aparelho Digestivo do Hospital Alemão Oswaldo Cruz e construiu uma carreira marcada pelo pioneirismo, pela excelência acadêmica e por contribuições que transformaram o tratamento do câncer de reto. Segundo o hospital, ela era reconhecida como “uma das mais brilhantes cirurgiãs do Brasil”.
Membro do corpo clínico da instituição desde 1980, Angelita deixou uma trajetória que, conforme destacou o hospital, sempre foi motivo de orgulho para equipes médicas e colaboradores.
Câncer colorretal é o mesmo de Preta Gil, que morreu em julho do ano passado
Quem foi Angelita Habr-Gama?
Angelita Habr-Gama entrou para a história ao se tornar a primeira mulher a ocupar o cargo de professora titular em uma especialidade cirúrgica da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), na área de coloproctologia. Mais tarde, também foi a primeira mulher a ser admitida como membro honorário da American Surgical Association, tradicional sociedade cirúrgica dos Estados Unidos.
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Ao longo da carreira, foi responsável pela criação da disciplina de Coloproctologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. Também atuou no Instituto Angelita & Joaquim Gama de Coloproctologia e Cirurgia Digestiva, onde exerceu papel fundamental na formação de novos especialistas.
Sua atuação foi além da assistência médica e da docência. Angelita fundou e presidiu a Associação de Prevenção do Câncer de Intestino e teve seu nome incluído na lista dos 2% de cientistas mais influentes do mundo, classificação atribuída pela Universidade Stanford.
Entre os reconhecimentos recebidos estão o Mérito Santos-Dumont e a Medalha do Pacificador, concedida em 1998 pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso, o FHC. A médica também figurou entre as mulheres mais influentes do Brasil em lista publicada pela revista Forbes.
Legado no tratamento do câncer de reto
Uma das contribuições mais relevantes de Angelita Habr-Gama para a medicina foi o desenvolvimento e a disseminação do protocolo “Watch and Wait”. A estratégia permite preservar o reto em pacientes selecionados com câncer e beneficiou milhares de pessoas ao redor do mundo, tornando-se referência em diretrizes internacionais da especialidade.
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Na nota de pesar, o Hospital Alemão Oswaldo Cruz descreveu a médica como uma líder acadêmica e responsável pela formação de gerações de cirurgiões. A instituição destacou ainda que sua trajetória a transformou em um símbolo da coloproctologia e em um exemplo de dedicação à ciência, ao ensino e à vida humana.
Em manifestação conjunta, o conselho de administração, a direção, o corpo clínico, a equipe assistencial e os colaboradores lamentaram a morte da profissional e afirmaram estar “profundamente consternados com esta perda irreparável para a medicina brasileira”.
“Perdemos uma grande profissional e uma colega de quem sempre iremos nos lembrar com respeito, gratidão, carinho e admiração”, diz o comunicado.
A instituição também prestou solidariedade aos familiares. “Nos solidarizamos com a família neste momento de grande dor”, acrescenta a nota.
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Recuperação da Covid-19 e retorno ao trabalho aos 88 anos
A trajetória de Angelita Habr-Gama também incluiu uma intensa batalha contra a Covid-19. Em 2020, aos 88 anos, ela permaneceu internada por 50 dias no Hospital Alemão Oswaldo Cruz após desenvolver um quadro grave da doença.
Hospitalizada em 18 de março daquele ano, a médica apresentou comprometimento pulmonar, precisou ser intubada e ficou sedada na Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Depois de se recuperar, relembrou a experiência em entrevista à BBC News Brasil.
— Não achei que resistiria. Era um quadro muito grave — afirmou na ocasião.
Angelita havia retornado ao Brasil poucos dias antes da internação, após participar de um congresso internacional em Jerusalém durante uma viagem à Europa. Embora acreditasse ter contraído o vírus durante esse período, também considerava a possibilidade de ter sido infectada em um evento de lançamento de sua biografia, realizado em São Paulo.
A alta hospitalar ocorreu em 10 de maio de 2020. A partir daí, iniciou um processo de recuperação que incluiu fisioterapia respiratória, fortalecimento muscular e retorno gradual às atividades profissionais. Sem apresentar sequelas, voltou a atender pacientes em 1º de junho e retomou as atividades no centro cirúrgico apenas três dias depois.
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— Foi uma delícia voltar a trabalhar — disse.
Naquele momento, Angelita estimava já ter realizado mais de 50 mil cirurgias ao longo da carreira e afirmava não pensar em aposentadoria.
— Não foi fácil vencer a Covid-19, mas depois que venci essa barreira, as coisas se tornaram ainda mais agradáveis. Eu quero continuar exercendo a minha profissão. Estou bem de saúde e intelectualmente. Assim, vou levando a vida — declarou.






