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Pandemia

Morte de servidor idoso por Covid-19 gera impasse entre sindicato e prefeitura de Brusque

Servidores do grupo de risco precisam assinar um termo de responsabilidade para voltar ao trabalho presencial

09/07/2020 - 16h16 - Atualizada em: 10/07/2020 - 06h29

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Bianca
Por Bianca Bertoli
Leopoldo morava em Brusque há cerca de 15 anos
Leopoldo morava em Brusque há cerca de 15 anos
(Foto: )

A morte de um funcionário da prefeitura de Brusque por Covid-19 gerou revolta e um impasse entre o sindicato dos servidores (Sinseb) e o município. Leopoldo Rodrigues, 75, que pertencia ao grupo de risco da doença devido à idade, assinou um termo de responsabilidade fornecido pela prefeitura e voltou a trabalhar dias antes de apresentar os primeiros sintomas do novo coronavírus. Outros colaboradores na mesma situação também retornaram ao serviço após o recebimento do documento.

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Leopoldo era auxiliar de serviços gerais em uma escola do Cedro Alto, mesmo bairro onde vivia com a esposa, uma filha e dois netos. Com a pandemia, assim como outros servidores do grupo de risco, estava em casa usufruindo de férias antecipadas.

Conforme informações do Sinseb, quando os direitos trabalhistas se esgotaram, como o descanso remunerado e licenças, a alternativa encontrada pela gestão municipal foi a de oferecer um termo de responsabilidade aos colaboradores do grupo de risco. O objetivo era que eles voltassem às atividades presenciais, já que há funções, como a de Leopoldo, que não podem ser feitas remotamente.

Termo de responsabilidade

“Declaro que mesmo tendo idade superior ao estabelecido em lei (60 anos) estou ciente dos meus direitos, mas mesmo assim aceito retornar ao trabalho”, diz o documento impresso com nome e CPF do funcionário e que teria começado a ser distribuído na segunda semana de junho, segundo informado ao Sinseb. Leopoldo o assinou por medo de perder o emprego, conta o neto Lucas Carvalho, 22.

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O avô trabalhava para o município há cerca de 15 anos, época em que deixou o estado de São Paulo em busca de uma nova aposentadoria para poder comprar a casa própria. Como ACT, passou por lugares como o pavilhão da Fenarreco e rodoviária.

— Eu estava evitando sair de casa, nós todos estávamos nos cuidando e ele não gostou de ter assinado o termo. Ele só assinou mesmo por medo de perder o emprego dele. Ele foi trabalhar com medo — lembra Lucas.

Para o presidente do Sinseb, Orlando Soares Filho, as assinaturas ocorreram por medo de represálias ou por desconhecimento. Nesta quarta-feira (8), a instituição enviou um ofício à prefeitura para exigir a anulação dos termos, pedindo que os servidores voltem ao isolamento domiciliar com licenças remuneradas.

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— Se eles não acatarem, nesta sexta-feira (10) vamos avaliar medidas judiciais. Para nós o termo é ilegal, extremamente grave. A orientação ao servidor é que não assine esse documento — diz Orlando.

Revolta

Na escola desde 2018, Leopoldo fez amizade com a servidora responsável pela biblioteca, Patrícia Silva. Com a perda do colega, Patrícia desabafou nas redes sociais e culpou a prefeitura pela falta de cuidado com os idosos. O vídeo teve quase 400 compartilhamentos e mais de 480 reações.

— Se eles não estão nem aí para os próprios funcionários, vocês acham que eles estão preocupados com a população? Uma escola sem aluno, fechada, por que eles tinham que ir todo dia lá? — indignou-se Patrícia.

O termo foi oferecido ao idoso em meados de junho após ele questionar se deveria voltar mesmo pertencendo ao grupo de risco. Ele e outros quatro servidores trabalhavam juntos na instituição quando uma teria apresentado os primeiros sinais da contaminação.

Não demorou muito para Leopoldo ficar doente. Ele continuou indo à unidade de ensino porque o teste que fez na central de atendimento montada no pavilhão da Fenarreco deu negativo. Os sintomas pioraram e o afastamento ocorreu.

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Com a evolução do quadro, no último dia 29 ele foi internado para dois dias depois o diagnóstico ser confirmado. Leopoldo morreu no hospital na sexta-feira (3), sem conseguir se despedir da família. Os outros quatro colegas de trabalho também se infectaram, mas passam bem.

Contraponto

O diretor da Secretaria de Saúde, Rodrigo Cesari, explicou que a decisão pelo termo de responsabilidade foi tomada exclusivamente pelo setor de Recursos Humanos (RH) da prefeitura. A reportagem tentou contato com a direção do RH, mas a responsável está afastada por Covid-19.

As perguntas foram enviadas via assessoria de imprensa, que não respondeu até o fechamento deste texto. O Santa também tentou contato com a Secretaria de Educação para falar sobre o caso de Leopoldo, mas as chamadas feitas entre 14h52min e 16h11min não foram atendidas ou retornadas.

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