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Mulher que ficou à beira da morte com Covid-19 em Joinville celebra vida nova: "foi um milagre"

Michely Spricigo, 34 anos, precisou ser intubada pouco mais de uma semana após os primeiros sintomas. Ela teve uma parada cardiorrespiratória e seu marido chegou a ouvir do médico que ela havia falecido

05/04/2021 - 13h35 - Atualizada em: 05/04/2021 - 13h38

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Patrícia
Por Patrícia Della Justina
Michely Spricigo, 34 anos, durante internação por Covid-19
Michely Spricigo, 34 anos, durante internação por Covid-19
(Foto: )

A dor de cabeça e o cansaço estavam fortes demais para uma quarta-feira normal de trabalho. Tudo o que a joinvilense Michely Spricigo, de 34 anos, menos esperava, era que em 16 dias, os sintomas leves se resumiriam a uma ligação com a seguinte frase dita pelo médico ao seu marido: sua esposa acabou de falecer. A administradora sobreviveu à Covid-19, o vírus mais temido do último ano pela população mundial, depois de 22 dias internada no Hospital Bethesda, de Joinville.

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Depois de contrair coronavírus, Michely passou da bancada de trabalho onde atendia seus clientes em sua loja de variedades, para um leito de UTI, conectada a cabos, sem poder conversar, mal respirar. Sem saber quando - ou se - veria seu pequeno menino, de apenas três anos, novamente; se teria a oportunidade de dar o beijo cheio de saudade em seu esposo pelo menos mais uma vez na vida. Aquele abraço apertado nos amigos e familiares parecia estar muito distante.  

Os dias que seguiram depois do início dos sintomas, em 29 de julho de 2020, foram ficando cada vez mais difíceis. Dor no corpo, febre, cansaço, falta de ar. Estranho para uma pessoa tão ativa, jovem e sem comorbidades. 

Com a falta de exames que o município enfrentava naquele período, o médico decidiu por medicá-la previamente. E assim ela passou a semana em casa tomando as medicações. Só que depois de oito dias, quando o tratamento acabou, Michely piorou completamente. 

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Foi levada às pressas ao Pronto Atendimento Leste e o exame de radiografia apontou para o comprometimento do pulmão. Foi só nesse dia que ela descobriu que estava com coronavírus, a partir do exame PCR, e precisou ser internada. A cidade já não tinha mais leitos e só dois dias depois ela conseguiu uma vaga no Hospital Bethesda, de Joinville.  

Os dias eram longos para Michely. Com 80% dos pulmões comprometidos, a respiração era quase inexistente sem a ajuda de oxigênio. A inspiração não preenchia o peito. Na mente, ainda tinha a preocupação com os familiares.  

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 - Eu tinha medo de morrer. Só pensava no meu filho. Eu nunca tinha ficado longe dele. Foi o que mais senti medo: de deixá-lo. Além disso, dois dias antes de ser internada, eu tinha perdido a minha avó por coronavírus. A família já estava sentindo a dor da perda – completa.  

A última mensagem

Michely buscava se comunicar com os familiares, principalmente com o esposo, por meio de mensagens de celular. À noite, fazia ligações de vídeo para amenizar a saudade do filho, mesmo com muita dificuldade para falar. Só que no dia 14 de agosto, Michely não mandou nenhuma mensagem a mais. A família entrou em desespero. Pouco tempo depois, o médico ligou: 

 - Sua esposa acabou de falecer. Conseguimos restabelecer, mas agora é com ela. Não temos mais o que fazer – disse o médico ao telefone para o marido.  

A joinvilense teve uma parada cardiorrespiratória e, depois de muito trabalho, a equipe médica consegui fazê-la voltar. Ela ficou mais oito dias em coma induzido e intubada.  

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 - Apaguei. Só lembro do rosto do médico dizendo que queria me ajudar, que era para eu ficar calma – lembra.  

Segunda chance para o recomeço

Depois dos oito dias, Michely acordou sem fazer a menor ideia de que estava todo esse tempo inconsciente. Quando soube, somada à confusão mental comum em pacientes que acordam do coma, ela entrou novamente em desespero e precisou ser sedada. Em algumas horas, Michely foi acordando aos poucos, amparada pela equipe do hospital.   

 - Eu acredito que foi milagre. Nem os médicos acreditavam que eu voltaria lúcida, conversando. Perguntavam se eu lembrava de alguma coisa, mas não lembrava de nada – acrescenta.  

A alta hospitalar veio depois de 19 dias de internação, em 27 de agosto - quase um mês da primeira dor de cabeça. Antes de deixar a unidade, Michely precisou reaprender a comer, falar, andar e fazer coisas básicas do cotidiano.  

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Durante mais um dia de rotina no hospital, os enfermeiros preparam Michely para a sessão de fisioterapia. Só que dessa vez, uma linda surpresa organizada pela equipe a esperava do lado de fora: Michely pôde ter o reencontro tão esperado com a família que a aguardava. O beijo cheio de saudade em seu esposo pôde acontecer, o abraço nos amigos e familiares também e o colo do filho finalmente voltou para casa.   

- Hoje sou grata a Deus pelo simples fato de respirar. Comecei a dar valor para coisas muito pequenas que antes eu não dava, a ser mais tolerante, entender mais as pessoas. Independente da crença religiosa, a fé dá um novo ânimo para quem busca essa cura e nova meta de vida – completou.

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