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Entrevista

'Não estaríamos neste cenário se não fosse a variante', diz secretário após 1 mil mortes por Covid-19 em Joinville

Em entrevista exclusiva ao AN, Jean Rodrigues da Silva falou sobre as perspectivas para as próximas semanas e analisou o combate à pandemia no último ano

31/03/2021 - 19h27

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Hassan
Por Hassan Farias
Saavedra
Por Saavedra
Jean Rodrigues da Silva, secretário da saúde de Joinville
Jean Rodrigues da Silva, secretário da saúde de Joinville
(Foto: )

Joinville chegou à marca de 1 mil mortes pela Covid-19 nesta quarta-feira (31) após um ano de pandemia. E para avaliar a situação, entender como a maior cidade de Santa Catarina perdeu tantas pessoas para a doença, o AN conversou com o secretário da Saúde, Jean Rodrigues da Silva.

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O secretário cita dois problemas enfrentados pelo município no combate à pandemia: a dificuldade no cumprimento das regras sanitárias pela população e a presença da nova variante brasileira do coronavírus, com transmissão comunitária em Joinville.

- Se não fosse a variante não estaríamos neste cenário, não chegaríamos em 1 mil mortes agora em março, com certeza não. As 1 mil mortes ocorreriam, mas talvez lá em julho, agosto ou setembro - avalia.

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Neste momento, o município atua com o sistema de saúde no limite, com ocupação máxima dos leitos de UTI e fila de espera de pacientes aguardando por vagas. Dos pacientes intubados no tratamento intensivo ou semi-intensivo, 46% morrem por complicações da doença, de acordo com dados da secretaria municipal da saúde.

Diante do cenário, Jean também falou sobre estudos em desenvolvimento para a reestruturação da rede de saúde, incluindo espaço para o atendimento de outras doenças. Ainda citou a capacidade de expansão da rede para Covid-19 e avaliou o funcionamento da fiscalização e a atuação da prefeitura no combate à pandemia.

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Leia a entrevista com o secretário da saúde:

Fatores que constribuíram para 1 mil mortes

"É chover no molhado dizer que nós somos a maior cidade, nós temos a maior concentração, temos o maior volume de leitos. Desde o início da pandemia, nós tivemos uma linha de trabalho de tentar fazer o equilíbrio entre a saúde e economia, não trabalhando de maneira tão restritiva assim como outros países do mundo fazem. Essa questão das 1 mil mortes neste momento dizem muito respeito aos agravamentos, ao número de casos ativos subindo, a ocupação dos leitos. Isso é consternador porque são famílias, são vidas. Mas o mais desafiador desse processo todo é a situação que a gente viu e ainda tem de contestação das medidas restritivas. As pessoas sempre pedem medidas mais restritivas, mas as que estão postas é dificultoso de serem cumpridas. Então, o desafio é grandioso. E nosso maior desafio, na verdade, além da Covid e das mortes, são os outros atendimentos de saúde porque as diretrizes que vêm a nível de Estado são no sentido de suspender. Isso vai acumulando e precisará ser atendido ali na frente."

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Pior momento da pandemia: o que aconteceu?

"A primeira situação que tem que ser levada em consideração é a questão das variantes. Elas trouxeram um perfil de comportamento da pandemia diferente do que nós tínhamos estudado. A gente já tinha um perfil. 

Se não fosse a variante, não estaríamos neste cenário. Nós conseguiríamos prever e não chegaríamos em 1 mil mortes agora em março, com certeza não. As 1 mil mortes ocorreriam, mas talvez lá em julho, agosto ou setembro.

Agora, a variante criou uma instabilidade no planejamento ou mesmo no perfil. E outra situação muito importante, e aí cabe uma reflexão à nível estadual e nacional, não só para Joinville: o que não pode se cometer de erro, que se cometeu lá no início, é subestimar a pandemia. Dizer que daqui a um ano, mesmo com a vacinação, a pandemia vai estar resolvida. A gente não sabe qual vai ser o comportamento ao longo dessa vacinação, se a vacina vai conseguir dar conta das variantes que possam aparecer. Isso nos leva a um planejamento de sociedade com a pandemia".

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Reestruturação da rede de atendimento

"Eu não tenho mais na minha linha de horizonte no planejamento de saúde um momento em que não teremos mais a pandemia entre a gente. Eu estou replanejamento meu sistema de saúde justamente para abrir os atendimentos mesmo com a pandemia. Aí vamos ter que rever todo o planejamento de estoques, insumos, medicamentes específicos.

A gente precisa atender as pessoas com outras doenças, é necessário. E para isso a gente vai ter que se organizar.

Nós vamos entregar um planejamento ao prefeito, no máximo até o final deste mês (abril), de uma nova formatação da rede de saúde de Joinville, levando em consideração a Covid, no contexto das outras patologias. Estamos neste momento fazendo os estudos para ver o que que é possível ser feito na nossa rede para ter, por exemplo, uma estrutura permanente de Covid. Vamos ter que ter leito de enfermaria e UTI, com gatilhos prontos para caso tenha alguma aceleração de casos em algum momento, mas não dá para ficar com a rede inteira mobilizada para Covid em detrimento de outros atendimentos."

Nova estrutura dentro de seis meses

"O planejamento é entregar uma rede diferente seis meses após ter batido o martelo sobre esse desenho que estamos desenvolvendo. Nós vamos ter que criar estruturas novas permanentes, não estruturas de mutirão, tipo hospital de campanha. Nós vamos ter que ir para as parcerias público-privadas, instituições filantrópicas, OS's, para outro modelo. Agora, precisa expandir porque não dá para competir agora com Covid e atendimento normal. A gente vai entregar o planejamento e começar a execução no novo formato de rede que consiga equilibrar esses atendimentos."

Letalidade das variantes

"O que nós notamos nos estudos que eu tenho é o aumento do perfil de contaminação e da internação hospitalar, além da velocidade da disseminação do vírus. A gravidade, que diz muito a questão da letalidade, não se confirmou ainda. Por exemplo, hoje ainda não tenho dados da variante britânica, ela não circulou com aquela velocidade que a gente tinha certeza quando vimos o perfil da P1.

A P1 circulou mesmo, ela está comunitária em Joinville com força. Nós temos amostras aleatórias, geneticamente testadas, que nos imputam a disseminação em massa da P1 em Joinville. A britânica ainda não.

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Expansão da rede para atendimento dos casos de Covid

"Na verdade, nós temos ampliações sendo trabalhadas nesse momento. Estamos finalizando o credenciamento de uma clínica que se habilitou como hospital de internação, que é o Erasto Gaertner. Ali nós vamos ter uma prestação de serviço de 20 leitos de não-Covid, com possibilidade de ampliação. Isso vai nos trazer a possibilidade de converter mais uma ala do Hospital São José em enfermaria de Covid. Tem ainda a efetivação dos 10 leitos do Hospital Regional, de entrarem realmente em funcionamento. E ainda tem algumas situações dentro dos chamamentos que foram publicados e estão sendo estudadas. Então, eu ainda tenho uma possibilidade de ampliação, contudo os números que temos agora indicam uma estagnação dos casos ativos.

Não existe tranquilidade, mas também não existe neste momento perspectiva de aceleração maior do que tivemos agora.

Pelos números, podemos considerar que vai ser o pico da internação, a menos que eu colocasse mais 30 ou 40 leitos, que eles seriam ocupados imediatamente porque tem gente aguardando, é uma coisa natural. Então, estamos trabalhando agora no limite do teto dos leitos abertos."

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Prefeitura errou nas medidas?

"Poderia ter feito algo diferente? Poderia, agora “o quê” não é nenhuma das medidas que foram postas por aí porque em nenhum lugar deram certo. Então, na verdade, eu, enquanto secretário, me consterno porque gostaria de ter acertado mais. Tem uma coisa que não consigo lidar, que é a cultura do cumprimento das medidas. Talvez a gente pudesse ter trabalhado mais nas escolas, a educação, só que elas estavam fechadas também. Sei lá, alguma medida punitiva diferente. Mas trabalhar contra a cultura é uma coisa que a gente não combate. A única coisa que a pandemia trouxe foi o medo e a única coisa com a qual nunca quis trabalhar foi com a cultura do medo. Não quis incentivar esse tipo de regra do medo, da repressão.

Talvez tenha sido esse o erro: confiar demais na capacidade humana de resiliência, de realmente obedecer às regras. Mas continuo com minha postura. Como ser humano, eu acredito na sociedade, no ser humano, na democracia.

Continuo acreditando que através da conscientização e consciência das pessoas é que a gente vai mudar. Infelizmente, quando bate na família, no conhecido e no parente, que chega a perder a vida, a gente vê que faz um reflexo maior, mas é momentâneo. A pessoa se consterna um pouquinho e depois vida que segue..."

Avaliação sobre o funcionamento da fiscalização

"A nossa fiscalização hoje é inferior ao que necessita por causa do número de descumprimentos. Se os 600 mil joinvilenses resolverem descumprir as medidas, alguma das medidas, não tem fiscal que vai ser suficiente para fazer esse controle. Então, como a fiscalização tem o número X de profissionais, a gente concentra nos segmentos que tem mais desafios e são maiores propagadores. A linha de raciocínio do governo é a liberdade com responsabilidade, mas a gente tem esse grande desafio que as pessoas imputam a responsabilidade ao governo e não à cada um. Mas a fiscalização está em um ritmo bom, não parou de trabalhar, está intensa e está concentrada nos principais pontos disseminadores."

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