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    "Ninguém sabia como lidar com aquilo", recorda filha de primeiro joinvilense a morrer por coronavírus

    Mário Borba faleceu em 30 de março de 2020; um ano depois, cidade está prestes a completar mil mortes por coronavírus

    31/03/2021 - 04h00

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    Cláudia
    Por Cláudia Morriesen
    foto mostra família de mario borba
    Mário era um dos fundadores da Krona, empresa que produz tubos e conexões em Joinville
    (Foto: )

    Há exatamente um ano, em 30 de março de 2020, os joinvilenses recebiam a notícia de que a primeira morte por Covid-19 havia sido registrada na cidade: o empresário Mário Borba, de 68 anos, era a primeira vítima do novo vírus em Joinville

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    Fazia menos de 20 dias que a Organização Mundial da Saúde (OMS) havia declarado que a situação era de pandemia, menos de duas semanas desde o decreto para fechamento de todos os serviços não-essenciais e cinco dias desde que a primeira morte pela doença fora anunciada em Santa Catarina. Joinville tinha apenas 14 casos confirmados de pessoas com coronavírus. Atualmente, 77.935 pessoas já tiveram testes positivos na cidade, segundo dados do Governo do Estado. 

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    Quando março começou, Mário Borba via a Covid-19 como a maioria dos brasileiros: uma doença que estava nos noticiários da Ásia e da Europa, no outro lado do oceano. Por isso, não houve nenhum medo em fazer uma viagem de férias com a esposa, os filhos e os netos para os Estados Unidos.

    — A gente sentiu muita segurança para viajar. Poucas pessoas usavam máscaras, mesmo nos aeroportos. Fizemos um cruzeiro e ninguém usava máscara no navio, mas as regras de limpeza eram muito rígidas. Começamos a acompanhar as notícias sobre o coronavírus, mas sobre a doença na Europa. Tanto é que depois da viagem a Orlando e do cruzeiro, meu pai ainda foi passar três dias em Miami. Foi ali que começaram a fechar tudo — recorda a filha de Mário, Flávia Regina Borba.

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    Sem despedida nem velório

    O empresário voltou ao Brasil com a esposa em um dia simbólico: 18 de março, dia em que entrava em vigor o primeiro decreto estadual de Santa Catarina para conter a contaminação. Ele sentia-se cansado, e a família pensava que poderia ser apenas pela intensidade de passar 15 dias em viagem. Logo vieram sintomas como gripe, mas a Covid-19 não era uma possibilidade considerada nem pelos parentes nem pelos médicos. Mário foi para o pronto-atendimento, voltou para casa, mas teve febre e precisou voltar para o hospital.

    — Foi minha mãe quem o levou até o hospital. Ela tem essa imagem até hoje, de vê-lo entrando sem imaginar que ele pudesse não voltar. No começo, ainda falávamos com ele por vídeo chamada. Mas fico pensando no dia em que os médicos informaram que ele seria intubado. Hoje, as pessoas se despedem de seus familiares, mas ele não teve essa chance — diz Flávia.

    Depois de Mário Borba, 984 joinvilenses já perderam a vida após contraírem Covid-19. Destas, 100 mortes ocorreram nos últimos dez dias. É sempre difícil mas, em 12 meses, a morte à distância, sem despedidas e sem velório, passou a chocar menos. Quando Flávia perdeu o pai, não havia planejamento emocional nem conhecimento científico para preparar a família para aquele momento.

    — Estávamos atônitas. Nem sabíamos se nós também estávamos com coronavírus. Tivemos assistência, mas estava todo mundo aterrorizado. Ninguém sabia como lidar com aquilo. Queriam muito que a gente providenciasse logo a retirada do corpo [do hospital], para ir direto para a cremação — recorda ela.

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    Do pai, ficaram as lembranças do empreendedor, um homem batalhador que perdeu o pai na juventude e precisou trabalhar cedo para ajudar em casa. Mas também do piadista que vivia sorrindo, não gostava de ficar parado e colocava apelidos em todos os conhecidos. 

    — A nossa vida não é mais a mesma, nunca vai ser. A gente procura se agarrar no que ele nos deixou, nas boas lembranças, no legado dele — afirma. 

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