Santa Catarina registra um dos cenários mais desiguais do país na presença de mulheres em festivais de música instrumental. É o que aponta a pesquisa inédita “O Palco que Nos Deve: Mulheres e a conquista do espaço na Música Instrumental”, desenvolvida pelas pesquisadoras Valentina Bravo e Caroline Cantelli, com apoio de outras especialistas.

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O estudo analisou 28 festivais brasileiros de música instrumental, jazz, blues e choro entre 2024 e 2025, somando 522 shows e 2.369 artistas mapeados. Em Santa Catarina — que concentrou oito dos festivais da amostra — mulheres protagonizaram apenas 8,4% dos shows. A média nacional é de 10%.

Quando o recorte é racial, o cenário se torna ainda mais crítico: mulheres negras instrumentistas representam menos de 1% das artistas identificadas nos palcos catarinenses e não aparecem como protagonistas nos shows analisados no período.

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“O problema não é falta de talento”

Para a pesquisadora Valentina Bravo, os dados reforçam uma desigualdade estrutural, e não uma ausência de produção feminina.

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— A pesquisa deixa evidente que existe uma produção extremamente potente feita por mulheres, inclusive em Santa Catarina. O problema não é falta de talento, mas as barreiras históricas de acesso aos espaços de circulação, reconhecimento e liderança dentro da música instrumental — afirmou ao NSC Total.

Segundo ela, o levantamento também confirma uma percepção inicial do grupo: a baixa participação feminina não é exclusividade catarinense, mas um padrão nacional.

— Os números do Brasil já são baixos, cerca de 10%, e Santa Catarina acompanha essa média. A diferença mais grave aparece no recorte das mulheres negras instrumentistas, onde o cenário é ainda mais excludente — disse.

Mas o que significa “protagonismo” no palco?

A pesquisa também buscou definir o que é considerado protagonismo em um show instrumental. Foram três critérios principais: mulheres como líderes de banda e autoras de projetos, participações como artistas convidadas em shows de terceiros e a presença de grupos exclusivamente femininos.

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O estudo identificou que, embora festivais tenham ampliado a presença de mulheres nos últimos anos, a inclusão ainda ocorre de forma pontual. Em muitos casos, há apenas uma artista mulher em toda a programação — padrão classificado pelas pesquisadoras como “inclusão simbólica”.

— Isso mostra um fenômeno que chamamos de tokenismo. A mulher aparece como exceção, sem mudança estrutural na curadoria ou na lógica de programação — explica Valentina.

Em 2024, metade dos festivais analisados tinha ao menos uma mulher protagonista. Em 2025, o índice subiu para 75%, mas com pouca variação real na diversidade de participação.

Da esquerda para a direita: Natália Livramento, Ana Claudia De Oliveira Segura, Caroline Cantelli, Valentina Bravo, Angela Coltri, Mayara Araujo e Giovana Dutra (Foto: Arquivo Pessoal)

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Redes femininas e estratégias de permanência

Para além dos números, a pesquisa aponta que a ampliação da presença feminina também está ligada à formação de redes de apoio entre artistas.

Entre os coletivos citados no estudo, estão iniciativas como Roda de Choro Mulherio, Frida Jazz, Tânia Maria, Filhas de Eva, Cadaria, além de movimentos como Cores de Aidé, Baque Mulher e Samba Yalodé, que atuam em diferentes regiões do país fortalecendo a presença de mulheres na música.

Essas articulações, segundo as pesquisadoras, têm sido fundamentais para ampliar circulação, formação e oportunidades de trabalho.

— Tem muitas mulheres se organizando em coletivos, criando espaços próprios e fortalecendo o protagonismo feminino na música instrumental. Isso aparece com força em Santa Catarina e em outras regiões do Brasil — afirma Caroline Cantelli.

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Barreiras estruturais e racismo no campo musical

A pesquisa também ouviu instrumentistas de diferentes regiões do país que relataram trajetórias marcadas por isolamento, exigência constante de validação técnica e dificuldade de inserção em espaços de socialização musical.

Segundo Valentina Bravo, as barreiras vão desde a formação inicial até o mercado profissional.

— Há uma estrutura histórica que associa liderança, improvisação e composição ao masculino. Isso atravessa desde a escolha do instrumento na infância até a ausência de mulheres nas posições de curadoria e decisão — explica.

O recorte racial agrava esse cenário. Apesar de o canto concentrar maior presença de mulheres negras nos festivais, no campo da música instrumental a participação segue extremamente reduzida.

— A mulher negra aparece com mais frequência como cantora do que como instrumentista. Isso mostra como o próprio campo ainda hierarquiza quais papéis são mais legitimados — diz Valentina.

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Um projeto nascido da prática musical

“O Palco que Nos Deve” surgiu a partir da atuação das pesquisadoras em coletivos musicais e da experiência prática no circuito instrumental.

O projeto integra pesquisa quantitativa, entrevistas qualitativas e uma plataforma digital com perfis de instrumentistas brasileiras. A iniciativa também recebeu o Prêmio Elisabete Anderle de Estímulo à Cultura.

Segundo Valentina, a motivação veio da vivência direta com a cena musical.

— A gente já vivia esse incômodo como musicistas. Quando você olha os festivais e não se vê representada, isso não é falta de existência, é falta de visibilidade — afirma.

“Contar a história completa”

Para as pesquisadoras, o objetivo do estudo não é apenas mapear desigualdades, mas provocar mudanças na forma como a música instrumental brasileira é registrada e divulgada.

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— Convidamos músicos, produtores e curadores a olhar para esses dados e para os trabalhos das mulheres musicistas. A ideia é contar a história completa da música instrumental brasileira, e não uma versão parcial — diz.

A pesquisa reforça que, apesar de avanços recentes, a presença feminina ainda depende de mudanças estruturais no setor — da formação às curadorias, passando pela circulação e reconhecimento artístico.

— Não se trata de inclusão simbólica, mas de transformação real dos espaços — conclui a pesquisadora.

Antonietas

Antonietas é um projeto da NSC que tem como objetivo dar visibilidade a força da mulher catarinense, independente da área de atuação, por meio de conteúdos multiplataforma, em todos os veículos do grupo. Saiba mais acessando o link.

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