Quem pensa em comprar um carro elétrico usado quase sempre começa pela mesma pergunta: “e se a bateria der problema?”. O medo faz sentido, já que ela é o componente mais caro do veículo. Mas o risco pode estar em lugares menos óbvios: seguro, peças, reparação e revenda.

Continua depois da publicidade

A preocupação com a bateria ganhou fama porque trocar o conjunto completo pode custar caro. Só que os dados mais recentes mostram que esse não é, necessariamente, o primeiro problema de quem compra um elétrico seminovo. Um estudo da Geotab, feito com dados de mais de 22,7 mil veículos elétricos, apontou degradação média anual de 2,3% nas baterias, número que varia conforme uso, recargas rápidas e perfil do carro.

O ponto é que um elétrico usado pode continuar com boa autonomia e, mesmo assim, trazer outras dores de cabeça. A conta muda quando entram no jogo a disponibilidade de peças, a rede de oficinas preparadas, o custo do seguro e a dificuldade de revender o carro por um preço próximo ao esperado.

O mercado cresceu, e os usados vêm atrás

O crescimento dos eletrificados no Brasil ajuda a explicar por que essa discussão começa a ficar mais importante. Em maio de 2026, os veículos eletrificados responderam por 17% das vendas de automóveis e comerciais leves no país, com 44.981 unidades emplacadas, segundo dados da Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE). Foi uma alta de 170,3% em relação ao mesmo mês do ano anterior.

Quanto mais carros elétricos novos chegam às ruas, mais unidades começam a aparecer no mercado de usados. Isso aumenta a oferta, mas também cria uma dúvida nova: o comprador de segunda mão está preparado para avaliar um carro que depende menos de óleo e correia, mas muito mais de software, sensores, garantia e rede técnica?

Continua depois da publicidade

Seguro do carro elétrico pode virar surpresa

No seguro, a resposta não é simples. Um carro elétrico não é automaticamente mais caro de segurar em todos os casos. O valor depende de perfil do motorista, cidade, índice de roubo, preço das peças, custo de reparo e política de cada seguradora.

O detalhe importante está nas coberturas. A Allianz, por exemplo, informa que seu seguro para carro elétrico ou híbrido pode incluir cobertura para bateria e cabo de carregamento, além de assistência com reboque para ponto de recarga ou residência. Mas a própria seguradora ressalta que a cobertura da bateria e do cabo vale quando o dano resulta de um sinistro coberto pela apólice.

Antes de fechar negócio em um elétrico usado, não basta perguntar se “tem seguro”. O ideal é simular a apólice com o chassi ou modelo exato, checar franquia, cobertura para bateria, cabo de carregamento, pane por falta de carga, rede credenciada e regras para perda total.

Continua depois da publicidade

Uma batida simples pode não ser tão simples

É aqui que mora uma das maiores diferenças entre um elétrico e um carro a combustão. A manutenção de rotina costuma ser mais simples: não há troca de óleo do motor, velas, escapamento ou embreagem em modelos 100% elétricos. Mas colisões, sensores e sistemas eletrônicos podem complicar a reparação.

Um relatório da Mitchell, empresa que acompanha sinistros e reparos na América do Norte, mostrou que veículos elétricos a bateria exigem mais diagnósticos e calibrações depois de colisões. Em 2025, os elétricos tiveram média de 1,70 calibração por orçamento, contra 1,54 nos carros a combustão.

O dado não é do Brasil, mas ajuda a entender a tendência: carros mais tecnológicos exigem oficinas mais preparadas. Para o comprador brasileiro, isso significa olhar além do preço de compra. É preciso saber se há concessionária próxima, se existe oficina homologada na região e quanto tempo uma peça importada pode demorar para chegar.

Continua depois da publicidade

Revenda ainda é um ponto sensível

Outro medo real está na desvalorização. Segundo o Índice Webmotors, os elétricos usados foram o segmento com maior variação negativa em 2025, com queda de 11,95% no ano. No mesmo levantamento, os carros usados a combustão desvalorizaram 3,94%, enquanto os híbridos usados caíram 9,02%.

Em 2026, a queda mensal dos elétricos usados apareceu menor em alguns meses. Em abril, por exemplo, o Índice Webmotors apontou desvalorização de 0,140% para elétricos usados, contra 0,322% para usados a combustão. Mesmo assim, os híbridos usados tiveram queda maior, de 0,655%, mostrando que o mercado de eletrificados ainda pode oscilar bastante.

Essa variação tem explicação. O avanço rápido de modelos novos, descontos agressivos, chegada de marcas chinesas e aumento da oferta podem pressionar o preço dos seminovos. Para quem compra usado, isso pode ser uma oportunidade. Para quem pretende revender logo, pode ser um risco.