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O Oscar do streaming: como o conteúdo original das plataformas salvou a premiação deste ano

Em função da pandemia de coronavírus, pela primeira vez a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas permitiu que filmes lançados exclusivamente nos serviços de streaming concorressem à premiação mais prestigiosa de Hollywood

22/04/2021 - 07h16

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Marina
Por Marina Martini Lopes
Oscar 2021
O Oscar 2021 será apresentado neste domingo (25)
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O ano era 2017 e, com a proximidade da data-limite para as estreias de filmes que poderiam concorrer ao Oscar 2018, cerca de 300 membros da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, responsável pelo evento, se reuniram para debater uma questão que começava a incomodar os estúdios de cinema tradicionais: afinal, filmes produzidos por plataformas de streaming podem concorrer à maior e mais tradicional premiação do cinema?

Tecnicamente, produções cinematográficas sempre precisaram cumprir uma série de exigências para ser elegíveis: honrar a data-limite de estreia; ter mais de 40 minutos de duração; ser exibido primeiramente e comercialmente em algum cinema de Los Angeles (com pelo menos três sessões por dia); em 35 ou 70 milímetros ou em varredura progressiva de 24 ou 48 quadros por segundo; com imagem em 2048x1080 pixels para o formato digital.

Havia, porém, um medo de que a inclusão de filmes da Netflix - até então praticamente a única grande potência no universo do streaming - deixasse o Oscar, por assim dizer, "com cara de barato", mesmo que todos os pré-requisitos técnicos fossem cumpridos: a cerimônia foi criada para elogiar a indústria cinematográfica norte-americana, com toda sua pompa, e a Netflix e suas irmãs do streaming desafiam todas as regras até então estabelecidas de produção e distribuição. Outro temor era que a inclusão estimulasse ainda mais o hábito de assistir filmes em casa, deixando de lado toda a experiência envolvida no ato de assistir a um longa em uma sala de cinema.

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A polêmica se acirrou em 2019, quando o filme Roma, da Netflix, dirigido pelo mexicano Alfonso Cuarón, teve nada menos que dez indicações - foi o maior número de nomeações daquele ano, empatado com o longa A Favorita. O lendário diretor Steven Spielberg, provavelmente o nome mais conhecido pelo grande público no que diz respeito a cineastas, afirmou publicamente que achava que produções assinadas por serviços de streaming não deveriam concorrer ao Oscar.

"Uma vez que você se compromete com o formato televisivo, você é um filme de TV", argumentou Spielberg, em entrevista à rede britânica ITV. "Certamente, se é um bom programa, merece um Emmy, mas não um Oscar. Eu não acredito que filmes que foram apresentados em apenas alguns cinemas por menos de uma semana deveriam ser qualificados para uma indicação da Academia." O Emmy, claro, é a premiação voltada para produções feitas para a TV. A fala do cineasta se refere também à estratégia adotada por muitos serviços de streaming, de exibir seus longas nos cinemas apenas pelo tempo mínimo suficiente para poder concorrer ao Oscar - e depois migrar o conteúdo exclusivamente para suas próprias plataformas.

- Pessoas influentes da indústria do cinema reclamaram pelo fato de a Netflix não se comprometer com a então tradicional janela de exclusividade nos cinemas, que era de 90 dias - detalha o crítico de cinema Waldemar Dalenogare, que faz parte da Academia Brasileira de Cinema e foi o primeiro sul-americano a entrar para a Critics Choice Association, que organiza anualmente o Critics' Choice Movie Awards. - A Netflix oferecia 30 dias para as redes de cinema, para agilizar o lançamento do filme no seu próprio serviço. Mas cumpria a exigência requerida pela Academia: lançamento nos cinemas de Los Angeles por sete dias antes de entrar no streaming. Também posicionava seus filmes em festivais, apesar da rejeição de alguns.

"Roma", da Netflix, indicado ao Oscar
"Roma", da Netflix, indicado ao Oscar
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No Twitter, na época, a conta oficial da Netflix respondeu indiretamente, escrevendo: "Nós amamos cinema. Aqui estão algumas outras coisas que amamos: dar acesso a pessoas que nem sempre podem pagar pelo ingresso, ou que moram em cidades sem salas de cinema; deixar que todos, em todos os lugares, desfrutem dos lançamentos ao mesmo tempo; e dar aos cineastas mais maneiras de compartilhar sua arte. Essas coisas não são mutuamente exclusivas." E o tempo logo mostrou que nem todos os cineastas da velha guarda concordavam com Spielberg: em 2019, O Irlandês, da Netflix, foi assinado por ninguém menos que outra lenda do cinema, o diretor Martin Scorsese - e concorreu ao troféu de Melhor Filme no Oscar 2020.

O mundo dá voltas - e, também em 2020, a pandemia de coronavírus abalou fortemente a indústria cinematográfica mundial: com o fechamento das salas de cinema em todo o planeta, os estúdios suspenderam seus lançamentos, adiando indefinidamente filmes esperadíssimos pelo público, sequências de franquias com fãs ardorosos, blockbusters com que as produtoras pretendiam lucrar milhões. Enquanto os estúdios tradicionais deixavam os fãs de cinema sem nada novo para assistir, as plataformas de streaming (agora não só a Netflix, mas também Amazon Prime Video, HBO Max, Disney+, Apple TV+ e muitas outras) seguiram promovendo tranquilamente suas estreias - e, com as pessoas fechadas em casa em função do isolamento social, alcançaram com elas um público maior que nunca. E, bem... O Oscar precisou se render.

- Por conta da pandemia, as regras de elegibilidade foram alteradas: produtores puderam fazer a inscrição de um filme mesmo sem lançamento oficial nos cinemas, contemplando assim lançamentos direto para streaming ou aluguel. - explica Dalenogare. - Com um pagamento de US$ 10 mil, os filmes eram disponibilizados na recém-criada plataforma fechada de streaming da Academia, para que os mais de nove mil membros pudessem assistir de casa. A partir de outubro de 2020, filmes lançados nos Estados Unidos em drive-ins também puderam fazer a inscrição, sem a necessidade do pagamento da taxa; que é considerada alta para distribuidoras menores.

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Pense bem: se não fossem as produções dos serviços de streaming, simplesmente não haveria filmes suficientes para indicar. Sem a Netflix e suas irmãs, não haveria Oscar 2021.

- Tradicionalmente, o lançamento de um filme deve ser feito em Los Angeles até o dia 31 de dezembro, para que ele seja elegível para o Oscar seguinte - destaca Dalenogare, lembrando que também houve alterações nos prazos. - Nessa temporada, para dar mais tempo para as distribuidoras, o prazo foi ampliado até o último dia de fevereiro de 2021, o que acabou remarcando o Oscar para o final de abril; e impactando diretamente todas as demais premiações.

O crítico comenta que as consequências da pandemia de coronavírus deram uma nova cara ao Oscar também de maneiras mais sutis: nas categorias técnicas, por exemplo (como Som, Edição e Efeitos Visuais), os grandes blockbusters costumam dominar as indicações - coisa que não aconteceu neste ano, já que as estreias de grande parte desses filmes foi suspensa ou adiada.

Cena de "O Irlandês", da Netflix, indicado ao Oscar
Cena de "O Irlandês", da Netflix, indicado ao Oscar
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É importante destacar que a implicância da Academia quanto às produções criadas para o streaming nunca teve nada a ver com qualidade ou orçamento: o investimento das plataformas em seus próprios filmes não deixa nada a dever ao dos estúdios tradicionais.

- Atualmente o investimento é enorme - afirma Dalenogare. - Além disso, empresas como a Netflix garantem a liberdade criativa do diretor e optam pela não-interferência: no streaming, não existe a necessidade de pensar no retorno de bilheteria. É por isso que realizadores como Martin Scorsese fizeram grandes projetos na plataforma. - mas ele faz uma ressalva: - A questão é que apenas uma pequena parcela dos lançamentos originais dos serviços de streaming ganha notoriedade. Com o objetivo de encher o catálogo semanalmente, às vezes muito conteúdo original deixa a desejar.

A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas já anunciou que a flexibilização das regras vale apenas para este ano: em 2022, se a pandemia permitir, tudo volta ao normal. Mas é difícil que essa quebra de paradigmas não tenha consequências duradouras para a premiação mais prestigiosa do cinema.

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- Até março de 2020, era impensável qualquer questionamento sobre os 90 dias de exclusividade nas salas de cinema - Dalenogare exemplifica. - Hoje, com cada empresa com sua própria plataforma ou com seu próprio modelo para aluguel digital, um novo tipo de negociação será necessária.

- As plataformas de streaming são o escape de grande parte da população para consumir conteúdo original; ainda mais com o fechamento de várias salas de cinema ao redor do mundo [em função da pandemia] - ele prossegue. - E a competição é crescente: há cada vez mais serviços disponíveis. Na indústria do cinema, creio que a visão de que o streaming poderia ser prejudicial já ficou para trás.

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