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Racismo

Entenda o que é "blackface" e por que a atitude é racista

A origem da prática remonta à história americana do início do século XIX

12/02/2021 - 12h37 - Atualizada em: 12/02/2021 - 12h39

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Redação
Por Redação Hora
Desfile da Gucci com peça que foi acusada de blackface
Desfile da Gucci com peça que foi acusada de blackface
(Foto: )

Polêmicas nas redes sociais revelam muitos termos que são relativamente desconhecidos pelas pessoas, como o blackface. A palavra se refere à prática de cobrir o rosto de preto, para fazer referência à uma pessoa negra, e é considerada racista.

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A origem do blackface

A origem do blackface remonta à história americana do início do século XIX, período em que o regime de escravidão ainda era legal. A prática, em si, consistia na ridicularização de pessoas negras para o entretenimento de brancos.

Durante espetáculos humorísticos, atores de pele branca pintavam o rosto de preto e representavam os negros em situações vexatórias, reproduzindo formas caricatas de falar e agir.

À época, os negros nem mesmo podiam frequentar ou participar de espetáculos teatrais. E, mesmo nos anos que se seguiram, chegando até décadas recentes do século XX, negros e asiáticos eram afastados de papéis de destaque, com o agravante de que personagens dessas etnias costumavam ser interpretados por atores brancos com a pele pintada de preto.

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Por que se trata de uma prática ofensiva ainda hoje?

Em uma análise do período histórico citado — que remonta a tempos recentes — o movimento negro e demais entidades ligadas aos direitos humanos consolidaram o entendimento de que o blackface é uma prática racista.

A compreensão a respeito do tema foi ganhando destaque na mídia. E, ao longo dos anos, programas de entretenimento, filmes, peças teatrais e demais produções foram eliminando essa prática.

Ainda assim, episódios recentes, como os casos envolvendo o primeiro-ministro do Canadá e o professor da Faculdade de Medicina da Santa Casa reacendem as polêmicas em torno do tema. Afinal, seria mesmo ofensivo simplesmente reproduzir pessoas de pele preta a partir da pintura do próprio rosto?

Para algumas autoridades do movimento negro, a questão é mais complexa e o ato não é um fim em si mesmo, contendo forte simbolismo.

“Muitas dessas representações são carregadas de significado por remontarem ao período em que o negro era impedido de ocupar seu espaço nas artes. Além disso, existe o emprego de abordagens que colocam o negro como um ser inferior. O colocam como malandros e preguiçosos. Como pessoas que não sabem empregar a norma culta da língua que falam. Então, usar blackface evidenciando esses aspectos para a inferiorização de um grupo com fundamento na raça é reconhecido cientificamente como uma prática racista”, destaca a pesquisadora, advogada e doutoranda em direito político Waleska Miguel Batista em entrevista à CNN.

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Entenda alguns casos polêmicos envolvendo blackface

Professor de medicina em aula on-line

O professor Ronald Sérgio Pallota Filho, acusado de ter cometido a prática racista em uma aula on-line, se defendeu afirmando se tratar de um ato infeliz, em que não teve a intenção de expressar uma conotação racista, em nota enviada ao G1. A Faculdade Santa Casa, em que ele leciona, esclarece que o caso está em apuração no âmbito de uma comissão disciplinar.

Mais recentemente, outro caso de grande repercussão envolvendo a prática de blackface teve como protagonista o atual primeiro-ministro do Canadá, Justin Trudeau. Fotos antigas do político, em que ele aparece em uma festa vestido de Aladin com o rosto inteiramente pintado de preto, foram consideradas racistas.

Na ocasião, Trudeau se defendeu, afirmando se tratar, de fato, de um caso de racismo, mas que não tinha consciência disso quando as imagens foram feitas. Outras fotos que vieram à tona, em seguida, contribuíram para uma ampla repercussão do caso no Canadá e no mundo.

Professor acusado de blackface em aula on-line
Professor acusado de blackface em aula on-line
(Foto: )

Katy Perry

Em 2020, a cantora Katy Perry foi pressionada a retirar um par de sapatos de uma coleção assinada por ela. Fãs da cantora consideraram o design da peça racista, por remeterem a imagens de blackface.

A cantora afirmou estar desapontada com o ocorrido e que não teve a intenção de reproduzir uma prática racista, retirando, ao final, a peça da coleção.

Antoine Griezmann

Em dezembro de 2017, o jogador de futebol Antoine Griezmann foi criticado por pintar a pele e se vestir como um jogador negro de basquete.

Griezmann, em princípio, defendeu sua atitude afirmando se tratar de uma homenagem ao time de basquete Harlem Globetrotters. No entanto, semanas depois, a fotografia foi retirada de suas redes sociais e sua assessoria emitiu uma nota se desculpando pelo ocorrido.

Gigi Hadid

Em maio de 2018, a modelo Gigi Hadid se desculpou nas redes sociais depois de sair na capa de uma revista tão excessivamente bronzeada com o uso de maquiagem a ponto de ser acusada de praticar blackface.

A Vogue Itália, responsável pela publicação, em nota respondeu à crítica dizendo: "nós entendemos que o resultado provocou debate entre nossos leitores e pedimos sinceras desculpas se causamos ofensas".

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Qual a responsabilidade de quem reproduz o blackface?

Devido às recentes polêmicas envolvendo casos de blackface, uma grande discussão ganhou força nas redes sociais: afinal, quem reproduz a prática sem a intenção de empregar uma conotação racista ao ato merece ser repreendido?

Muitas pessoas acreditam que não. No entanto, há quem defenda ser preciso conhecer a história de opressões às quais a população negra foi submetida, seja durante a escravidão ou em tempos mais recentes. Dessa forma, seja qual for o contexto, a prática de blackface seria algo condenável.

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