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    SEM ZICKE-ZACKE EM 2020

    O que um ano sem Oktoberfest Blumenau significa na vida de quem mais precisa da festa

    Oktober começaria nesta quarta-feira (7) e primeiro ano sem a festa expõe a dependência dos 19 dias a pequenos empresários e vendedores ambulantes

    07/10/2020 - 06h48 - Atualizada em: 07/10/2020 - 10h29

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    Bianca
    Por Bianca Bertoli
    Lojas no Empório Vila Germânica sentem os impactos do cancelamento da Oktober.
    Lojas no Empório Vila Germânica sentem os impactos do cancelamento da Oktober.
    (Foto: )

    Por esta época as ruas de Blumenau já estariam abarrotadas de turistas. O clima de Oktoberfest teria invadido com força as vitrines de lojas, a decoração do comércio em geral, os espaços públicos e as playlists das rádios. As músicas das bandas alemãs ficariam o dia todo na cabeça, de tanto ouvi-las por aí. 

    Após 36 anos consecutivos com essa rotina em outubro, a cidade está bem diferente do esperado. E quem sente a ausência de toda a animação não são apenas os turistas e foliões. 

    O impacto vai muito além disso. 

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    — Os grandes empresários dão um jeito. Quem mais sente a falta da Oktoberfest é quem está na ponta. É o cara da pipoca, os motoristas de táxi e Uber, os seguranças, os funcionários da limpeza... A festa é o 13º que o trabalhador informal não tem — avalia o secretário de Turismo, Marcelo Greuel.

    São R$ 240 milhões que deixarão de ser injetados na cidade devido à falta da Oktoberfest, segundo estimativa da secretaria de Turismo e Lazer (Sectur). O número astronômico parece algo distante da realidade, mas não é preciso muito esforço para ter uma amostra do que isso significa na vida de milhares de famílias blumenauenses. 

    Na casa do pipoqueiro Marcos José Amorim, por exemplo, neste ano não haverá presentes de Natal. Com o faturamento quase 90% menor devido à pandemia do coronavírus, o desafio será terminar 2020 com as contas em dia. Marcos é uma dessas pessoas que cresceu com a festa. Aos 44 anos, passou a infância ajudando os pais a venderem pipoca, maçã do amor e algodão doce em um ponto próximo onde hoje é o setor 1 da Vila Germânica. Durante os desfiles, as vendas aconteciam na Rua XV de Novembro. 

    Ou melhor, ainda ocorrem. 

    O homem assumiu o ofício da mãe e atualmente tem um carrinho instalado em frente ao Parque Ramiro Ruediger, mas em dias de atrações na principal rua do Centro, é lá que ele está.

    — Na Oktoberfest a gente arrecadava dinheiro para passar com segurança o final do ano, para garantir o Natal dos filhos. De repente ficamos a ver navios — lamenta o homem, que também é presidente da Associação de Vendedores Ambulantes de Blumenau.

    Marcos em um dos desfiles da festa, na Rua XV de Novembro
    Marcos em um dos desfiles da festa, na Rua XV de Novembro
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    Durante o tempo em que o carrinho ficou desativado devido ao coronavírus, Marcos trabalhou como entregador em um restaurante para ter alguma renda. Há duas semanas voltou à entrada do parque com a venda de churros e pipoca, mas o movimento não é, nem de longe, semelhante ao que costumava ver em outubro.

    — Eu faturava 70% a mais em relação aos outros meses. Agora estamos voltando devagar, até porque as pessoas ficam um pouco ressabiadas, com medo de contaminação (da Covid-19). Blumenau está seca. Em ritmo acelerado para os blumenauenses, mas desacelerado para o turismo — avalia.

    Sinônimo de reconstrução e emprego

    Quando se fala que a Oktoberfest é sinônimo de reconstrução, Marcos não pensa nas enchentes dos anos 1980, que atingiram a cidade antes da primeira edição. Como começou logo após os fenômenos, a festa acabou se tornando símbolo da força da população blumenauense em se reerguer depois de tragédias climáticas. Para o vendedor, porém, o significado tem um valor mais pessoal.

    Em 2008, quando as chuvas intensas resultaram em diversos deslizamentos e mortes, Marcos perdeu a casa que tinha no Morro da Garuva, no bairro Ribeirão Fresco. Ele, a esposa e os três filhos escaparam ilesos. A história rendeu reportagem nacional e, na Oktoberfest do ano seguinte, o blumenauense foi surpreendido por filas quilométricas de foliões que queriam comprar a pipoca dele para ajudá-lo.

    — Eu consegui pagar a entrada do terreno da minha casa nova por causa da solidariedade das pessoas na edição de 2009. Fui acolhido pelos turistas e pelo povo blumenauense. Se tenho o que tenho, devo à Oktoberfest — lembra.

    Família Amorim em um dia de Oktoberfest, em frente ao parque Ramiro
    Família Amorim em um dia de Oktoberfest, em frente ao parque Ramiro
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    A maior quantidade de vendas durante a festividade gera renda extra não só à família de Marcos, como a pelo menos outras 6 mil pessoas contratadas formalmente pela cadeia turística formada por cerca de 50 segmentos, conforme levantamento da Sectur.

    “Temos que aceitar que perdemos o ano”

    Apenas no restaurante Alemão Batata, que fica dentro da Vila Germânica, cerca de 180 funcionários são contratados temporariamente para a Oktober, conta o proprietário João Rodrigues, o Jango. Neste ano, a pandemia forçou o desligamento de quase metade dos colaboradores. Em uma fase em que o quadro de empregados estaria quadruplicado, João busca recontratar algumas pessoas. E só.

    Além de não empregar ninguém temporariamente, o empresário não mudará o cardápio como faz há mais de dez anos.

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    — Nós decoramos o corredor aqui das lojas da Vila, mas não é a mesma coisa. Não tem aquela animação da véspera da festa. Não tem o que fazer, temos que aceitar que perdemos este ano — resume João.

    Ele, que começou há mais de 30 anos vendendo pastel e fast food, faz o que é possível para contornar os prejuízos da pandemia e da falta da Oktoberfest, mas confessa que não há comparação. É outro universo.

    — 2019 foi um dos melhores anos para o turismo, estávamos cheios de ideias para arrebentar em 2020. Aí veio esse balde de água fria — diz.

    Ânimo de Oktober

    Em tempos de Oktoberfest, a ocupação em hotéis da cidade chega a 90%. No último reveillon o índice foi a 100%, revelou o secretário de Turismo. 

    — Tudo isso que aconteceu ano passado resultou em esperança de que um ano (2020) extraordinário aconteceria. Eu ainda estou triste, mas a pandemia não acabou e não podemos ignorá-la. É muito ruim, difícil, mas não tenho dúvida que o turismo vai se recuperar rapidamente — acredita Greuel. 

    Sem atrações confirmadas para o resto do ano, o movimento na rede hoteleira está baixo, mas não é nulo.

    A presidente do Sindicato de Hotéis, Restaurantes, Bares e Similares de Blumenau e Região (Sihorbs), Tatiana Honczaryk, que é empresária do ramo hoteleiro, diz que os sinais de melhora já estão sendo notados e até surpreendem. Para passar essa mensagem de otimismo, há estabelecimentos que adotaram a decoração típica da festa e tentam, na medida do possível, trabalhar em clima “de outubro”.

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    — É difícil mensurar a perda, mas adotamos ações pontuais para outubro não passar despercebido. Observo que há muitas pessoas da nossa região viajando para conhecer as cidades próximas, descansar e sair um pouco de casa. Estamos sem Oktoberfest, mas o Vale Europeu tem diversos outros atrativos — opina Tatiana.

    Conforme dados da Secretaria da Fazenda, somente com hotelaria, agências de turismo e guias de turismo, a perda no faturamento se aproxima dos R$ 20 milhões. A queda de receita com retorno de ICMS e ISS pode chegar a R$ 1,5 milhão.

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    Lição que fica

    Se os planos para a Oktoberfest 2020 foram frustrados, as expectativas redobram para 2021. Tatiana ressalta que nenhum associado do sindicato fechou as portas de vez e que é preciso otimismo em relação ao próximo ano. Já que Oktoberfest e recomeço andam lado a lado, talvez o que prevalece, neste triste outubro de 2020, é a esperança e o ânimo que a festa traz à região:

    — Acho que a lição que fica é a de que a Oktoberfest impacta fundamentalmente pessoas. É uma renda que deixa de entrar. Mas a festa simboliza essa nossa capacidade de nos superarmos, ano que vem será extraordinário — finaliza o secretário.   

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