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Atitude Verde

Onde o seu lixo vai parar?

Mudar pequenos hábitos em casa faz a diferença para o futuro do planeta. Veja como reduzir os danos causados pelos resíduos produzidos diariamente

18/06/2021 - 16h35 - Atualizada em: 18/06/2021 - 16h52

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Estúdio
Por Estúdio NSC
A produção de resíduos sólidos domiciliares (RDO) em SC ultrapassa 12 milhões de toneladas ao ano
A produção de resíduos sólidos domiciliares (RDO) em SC ultrapassa 12 milhões de toneladas ao ano
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Em 30 anos, o aumento na produção de resíduos sólidos urbanos (RSU) foi três vezes maior do que o aumento populacional. Hoje, a população mundial produz quase 1,5 bilhão de toneladas de RSU por ano – o que significa que cada pessoa produz mais de um quilo de lixo diariamente. Isso faz com que a gestão de resíduos seja um dos maiores problemas urbanos da atualidade e um dos maiores desafios para o futuro do planeta.

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De acordo com a edição do Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil 2020, produzido pela Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe), a geração de RSU no Brasil passou de 67 milhões para 79 milhões de toneladas por ano entre 2010 e 2019, o que significa um crescimento de 19%. Com relação à geração per capita, cada brasileiro passou a produzir 9% a mais de lixo em uma década, de 348 kg/ ano para 379 kg/ano.

O planeta não tem “lá fora”

“Jogar fora” é um termo comumente utilizado ao se referir ao descarte de algo que não tem mais serventia ou ao lixo produzido diariamente. Mas você já parou para pensar que não existe “lá fora” quando falamos da Terra? Por isso, a produção e a gestão de resíduos é um assunto cada vez mais urgente e um dos grandes desafios da sociedade e dos governos.

No Brasil, todos os anos, mais de 40 milhões de toneladas de resíduos vão parar em lixões ou em aterros sanitários. Mesmo em aterros, onde – teoricamente – deveriam ser tratados, os resíduos representam um problema sanitário e socioambiental, pois podem contaminar o solo e o lençol freático, prejudicando, de diversas maneiras, comunidades que vivem próximas a esses locais, que acabam marginalizadas e são expostas a parasitas e outros micro-organismos causadores de doenças.

Segundo a Abrelpe, até 2033, o país deve ultrapassar a marca de cem milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos (RSU) ao ano, e em 2050, a produção de RSU deve ser 50% maior que em 2020. Esses números são bastante assustadores. No entanto, se considerar que 90% de todo lixo produzido nas cidades pode ser reciclado, compostado ou transformado em combustível, é possível entender que esse é um problema que pode ser resolvido com mudanças simples nos hábitos de consumo, com com a separação dos resíduos recicláveis e orgânicos e a destinação correta de cada um.

Projeto Casa sem Lixo: Construindo uma nova geração

Em 2016, quando passava por um momento de transição de carreira após o nascimento da sua filha caçula, Nicole Berndt, idealizadora do projeto Casa sem Lixo, ouviu, pela primeira vez, o termo “Lixo Zero”, em uma reportagem.

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— Essa reportagem trazia algumas estatísticas e lembro de duas que tocaram profundamente, talvez pelo momento que estava atravessando, por ter um bebê recém-nascido no meu colo. Uma delas dizia que nos últimos anos havíamos consumido mais da metade dos recursos do planeta, e isso me fez pensar em que mundo meu filho e minha filha viveriam. A outra afirmava que se não fizéssemos mudanças significativas nos nossos hábitos, em pouco tempo teríamos mais plástico que peixes nos oceanos. Esse foi o “start”. A partir daí entendi que precisava mudar os meus hábitos porque o futuro que eu queria para os meus filhos estava correndo risco — conta Nicole.

Em casa, Nicole e o marido, Paulo, passaram a buscar mais informações sobre o Movimento Lixo Zero e a colocar em prática algumas ações no dia a dia. As conversas em família envolviam os pequenos Theo e Nina, à época com um e seis anos. As mudanças foram feitas de forma orgânica, sem radicalismos, e as crianças logo se adaptaram. Os exemplos e os diálogos entre pais e filhos ajudam a entender os processos e a traçar os próximos desafios.

Para Nicole, “um hábito sustentável chama outro”
Para Nicole, “um hábito sustentável chama outro”
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Sobre as dificuldades encontradas, Nicole afirma que o senso de urgência e a velocidade com que se consome, se faz e se deseja as coisas são o grande problema.

— As praticidades que a vida moderna criou atravessa as relações pessoais e isso impõe sobre nós uma necessidade de rapidez que é insustentável, pois a natureza não dá conta desse nosso ritmo tão frenético. Chega uma hora em que é preciso puxar o freio de mão e escolher viver em outro ritmo — conta. 

Mas, como mudar?

Para quem quer mudar os hábitos e reduzir a produção de resíduos, Nicole diz que as mudanças devem ser sustentáveis, ou seja, é preciso traçar metas que se possa cumprir, e que o mais importante é querer mudar e dar o primeiro passo. Para ela, “um hábito sustentável chama outro”.

Por isso, Nicole costuma dar a dica de que as pessoas escolham um hábito que seja mais simples de mudar, por exemplo, levar um copo ou caneca para o trabalho e parar de usar descartáveis, ou levar ecobags para as compras e dispensar sacolinhas plásticas. O ideal é que cada pessoa conheça seus hábitos e entenda o que deve ser mudado.

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— Acredito que chegamos num ponto em que a humanidade se desconectou da natureza e acabamos não nos vendo mais como parte dela. Pensamos que o saquinho de lixo que eu jogo fora da minha casa não é mais meu, mas não é assim que funciona, não existe jogar fora no planeta. Gosto de dizer que um mundo sem lixo é feito de casa sem lixo. Acredito que, se cada casa, cada família, cada cidadão se dispuser a começar, apenas começar a reduzir o consumo e a produção de lixo, o impacto positivo no meio ambiente logo será percebido, do micro para o macro. Basta começar. — finaliza Nicole Berndt.

Para saber mais, conheça o site Casa sem Lixo.

A pandemia e o aumento da geração de resíduos domésticos e hospitalares

Além de todos os danos causados à saúde pública, à economia global e à sociedade, a pandemia de Covid-19 desencadeou mais um efeito colateral: o aumento na produção de lixo residencial e hospitalar.

Segundo estimativas da Abrelpe, as medidas de isolamento social causaram um crescimento de cerca de 20% na quantidade de resíduos domésticos, enquanto os hospitalares aumentaram de 10 a 20 vezes no último ano.

Com relação ao lixo doméstico, a principal preocupação são as máscaras descartáveis, que já têm sido mapeadas em “ilhas de lixo” no sudeste asiáticos por equipes da ONG OceanAsia e do World Wide Fund for Nature (WWF). Além da poluição visível, as máscaras descartáveis contribuem para o aumento da concentração de microplásticos nos oceanos.

Ambientalistas da OceanAsia emitiram um alerta sobre a necessidade de se reduzir o uso de máscaras descartáveis, de uso único, e dar preferência às reutilizáveis. As máscaras cirúrgicas, de tecido e tipo PFF2 devem ser descartadas no lixo comum, pois não são recicláveis.

A produção de resíduos sólidos domiciliares (RDO) em SC ultrapassa 12 milhões de toneladas ao ano
A produção de resíduos sólidos domiciliares (RDO) em SC ultrapassa 12 milhões de toneladas ao ano
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O Brasil joga no lixo cerca de 30% de todo alimento produzido

O Brasil está entre os dez países que mais desperdiçam alimentos do mundo. De acordo com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), em parceria com a Fundação Getúlio Vargas (FGV), cada família brasileira joga no lixo mais de mil reais ao ano em alimentos desperdiçados.

A pesquisa realizada pela Embrapa / FGV concluiu que, considerando famílias de três pessoas, em média, 128 quilos de alimentos vão parar no lixo das casas brasileiras todos os anos, o que equivale a mais de 40 quilos por pessoa.

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Em abril de 2021, a Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede PENSSAN) apontou que 19 milhões de brasileiros passaram fome em algum momento durante o primeiro ano da pandemia, e que 55,2% das famílias enfrentaram algum tipo de privação alimentar durante esse período. Isso torna o problema do desperdício de alimentos ainda mais grave que a alta geração de resíduos.

Especialistas da Embrapa sugerem que sejam realizadas ações educacionais para combater a cultura do desperdício e promover uma mudança de comportamento nas famílias.

Acesse o canal Atitude Verde e leia mais sobre o assunto. 

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