O início da operação da internet móvel de quinta geração, o 5G, aumentou a curiosidade dos usuários de telefonia do Brasil. A tecnologia tem prazo de 29 de setembro para chegar a Florianópolis e às outras capitais do país. A novidade surge com promessa de avanços como velocidade 10 vezes maior, conexão com novos dispositivos, eletrodomésticos e em longo prazo até carros autônomos e cirurgias a distância. Mas para uma grande parcela da população, essas inovações por enquanto ainda vão ficar no imaginário.

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Fibra óptica, internet via rádio e telefone rural: as soluções de quem não tem 4G em SC

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Enquanto o 5G surge nas capitais, muitas regiões ainda não têm cobertura do 4G ou mesmo de qualquer rede móvel que permita pelo menos fazer ligações. Em Santa Catarina, 34 cidades têm menos de 50% dos moradores atendidos pela internet 4G. Em 21, menos da metade da população têm acesso a alguma rede móvel, como 2G ou 3G. Os dados são do painel da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel).

A situação afeta moradores de municípios como Angelina, na Grande Florianópolis. A cidade tem a terceira pior cobertura de 4G do Estado e a segunda pior entre todas as redes móveis. São apenas 26% dos habitantes com acesso às tecnologias. A segunda menor cobertura de 4G fica em Santa Terezinha, no Alto Vale do Itajaí.

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Bela Vista do Toldo, no Planalto Norte, é quem tem os menores percentuais do Estado na cobertura entre os moradores, com apenas 21% de pessoas conectadas ao 4G e 25,8% a alguma rede móvel (veja abaixo).

Sinal de 5G aparecendo no celular em Florianópolis? Entenda o que significa

Em Angelina, a internet por fibra óptica instalada há poucos anos é o que salva a comunicação nos bairros. A cidade tem 4,6 mil moradores, mas o sinal de celular só chega à região do Centro. Nos bairros e distritos do interior, nem 4G, nem rede para ligações.

A situação causa dificuldades para a população. Maria Eleonor Hames, a Lola, 57 anos, é telefonista do posto de saúde do bairro Garcia, que fica a 13 quilômetros da área central, percorridos por uma estrada de barro às margens de uma represa. Os contatos com os pacientes são feitos por ligações via WhatsApp, usando a internet Wi-Fi do local e dos moradores. Se cai a luz por causa de algum temporal, a internet vai embora.

Lola perdeu a mãe há dois meses, mas quando ajudava a cuidar da idosa, que vivia acamada, o telefone fazia falta também na hora de chamar um suporte de saúde.

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— Aconteceu várias vezes de ficarmos sem saber o que fazer, como vamos chamar a ambulância [do Samu] — conta.

Maria Eleonor, a Lola, é telefonista em unidade de saúde, que também é posto telefônico em Angelina
Maria Eleonor, a Lola, é telefonista em unidade de saúde, que também é posto telefônico em Angelina (Foto: Tiago Ghizoni, Diário Catarinense)

Dificuldades no dia a dia de trabalho

Viviane Madalena Felipe é agente de saúde na mesma unidade em que Lola atua e sente a dificuldade causada pela falta de sinal de celular de outras formas. No período de aulas remotas por causa da Covid, a filha precisava ir à casa da madrinha para fazer atividades pela internet que exigiam uma conexão melhor. Uma conexão móvel poderia ajudá-la na rotina de trabalho com visitas às famílias.

— Se tivesse sinal em todos os lugares, poderíamos ter um tablet e ir preenchendo. Assim, tem que preencher tudo no papel, para depois passar para o computador — conta.

5G deve chegar em Florianópolis até final de setembro; entenda o que falta

Gustavo Weber também mora no bairro Garcia e aponta que o sinal de telefonia e internet móvel na região ajudaria a comunidade. Ele trabalha com instalação de rastreador de carros. Sem cobertura na região, ele precisa ir até a praça no centro da cidade para verificar se o equipamento está funcionando, já que o monitoramento dos veículos é feito por um chip. Com o preço da gasolina, às vezes nem compensa a viagem.

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Gustavo Weber também mora no bairro Garcia e aponta que o sinal de telefonia e internet móvel na região ajudaria a comunidade
Gustavo Weber também mora no bairro Garcia e aponta que o sinal de telefonia e internet móvel na região ajudaria a comunidade (Foto: Tiago Ghizoni / DC)

Ampliação do 4G é exigência aos vencedores do 5G

A necessidade de sinal de telefonia e internet móvel é uma reivindicação constante nos bairros de Angelina. Alguns moradores criticam a instalação de uma nova antena de celular anos atrás, na região do Centro, que já tinha cobertura de uma operadora, enquanto os bairros do interior seguiram descobertos. Eles chegam a sugerir um morro onde poderia ser instalada uma antena para atender algumas localidades.

A ampliação do sinal 4G para localidades rurais e também para rodovias é uma das exigências de contrapartida para as empresas que venceram o leilão do 5G no Brasil. A situação pode reduzir os desertos de sinais em bairros do interior.

Segundo o painel da Anatel, todas as cidades catarinenses têm cobertura de 4G. Em 85 cidades o alcance fica acima de 90% dos moradores. Na média do Estado, esse percentual de 90% também é o atendimento médio entre os moradores. No entanto, cidades de menor porte ou com bairros distantes ainda sofrem com a falta da internet móvel e até mesmo com o sinal de telefonia celular.

O professor do curso de Engenharia de Controle e Automação da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Ciro André Pitz, explica que o principal motivo que faz com que regiões mais remotas ainda não tenham acesso a redes móveis é o fator financeiro.

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— O custo de instalação vai ser muito alto, tem que pensar na manutenção, que em regiões afastadas acaba tendo um gasto maior. Para retirar o investimento, levaria muito tempo. Se não tem uma lei, nada que obrigue a instalação nesses locais, é uma questão apenas financeira — avalia.

Para as regiões que estão inclusas no edital do 5G como exigência de contrapartida para receberem o 4G, o professor confirma que a chegada da nova tecnologia é uma esperança de aumento na cobertura.

— Nesse caso, ainda que a instalação não valha a pena financeiramente, poder operar na banda do 5G vai valer, então economicamente o investimento vai estar incluso no custo do 5G — afirma.

Instalação de antena em morros que cercam bairro Garcia, em Angelina, é pedido dos moradores
Instalação de antena em morros que cercam bairro Garcia, em Angelina, é pedido dos moradores (Foto: Tiago Ghizoni, Diário Catarinense)

O que dizem as operadoras

A reportagem tentou contato com as três operadoras que vão oferecer 5G no país — Claro, Tim e Vivo — e com a Unifique, que integra o consórcio que arrematou faixas de 5G com atuação em SC.

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A Unifique informou que a implantação de um sistema, seja de 3G, 4G ou 5G, envolve volume expressivo de investimentos e despesas em cada torre de distribuição e que “algumas regiões com densidade demográfica menor dificultam em maior grau a viabilidade dos investimentos”.

A empresa afirma que o leilão do 5G vai favorecer a população de cidades de até 30 mil habitantes, que integram as obrigações para instalação do 5G por parte das empresas vencedoras. A empresa sugere o uso de um fundo de universalização de serviços de telecomunicações (Fust) para a ampliação do acesso à internet móvel nas regiões de menor viabilidade.

A Tim respondeu que o baixo número de moradores atendidos em determinadas cidades pode ocorrer em municípios pequenos e com poucos habitantes em área urbana. No caso de Angelina, a operadora argumenta que apenas 903 habitantes dos 4,7 mil habitantes moram no distrito sede – 20% da população, segundo a operadora, número aproximado do informado no último Censo do IBGE.

A empresa afirma que os critérios para a escolha de áreas que receberão aumento de cobertura são “técnicos e econômicos” e que as estações “precisam ser economicamente viáveis”. A operadora que responde por 45% do mercado de telefonia móvel em SC, afirma ter plano de atender 88 novos distritos rurais com tecnologia 4G no período entre 2023 e 2028.

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Claro e Vivo não responderam até a última atualização desta reportagem.

Como vai funcionar o 5G em SC

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