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Petrolândia mostra ao Brasil que urnas eletrônicas são seguras e prova que 'fraude' é papo de boteco

Sob olhares internacionais e às vésperas de 2022, pequena cidade do Alto Vale expõe segurança do processo eleitoral brasileiro em pleito fora de época

13/06/2021 - 19h06 - Atualizada em: 14/06/2021 - 08h47

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Bianca
Por Bianca Bertoli
À véspera da eleição, TRE fez demonstração da segurança das urnas eletrônicas a observadores internacionais.
À véspera da eleição, TRE fez demonstração da segurança das urnas eletrônicas a observadores internacionais.
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Rivalidade alta, comércio afetado, boatos de compra de votos e até apostas sobre o vencedor fazem parte do enredo de uma eleição. Em um pleito fora de época, como foi o caso de Petrolândia, ainda mais. Mas apesar da agitação e do fim de semana alternativo, a pequena cidade do Alto Vale virou exemplo para o restante do mundo ao mostrar, com pompa e elegância, que as urnas eletrônicas são confiáveis. E mais: que o discurso de ‘fraude’ é papo de boteco.

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Neste domingo (13), os pouco mais de 5 mil eleitores do município elegeram Irone Duarte (PP) como prefeito. No dia anterior, enquanto representantes da Justiça Eleitoral provavam por “A” mais “B” a eficácia e segurança das urnas a observadores internacionais, alguns moradores em bares garganteavam a desconfiança sobre o processo — apesar de nunca ter havido prova de qualquer fraude.

— Acho que tinha que ser voto impresso. O Bolsonaro ‘tá’ vendo para criar uma lei sobre isso, vocês vão ver — disse um morador de Petrolândia enquanto bebia cerveja gelada. Ao mesmo tempo, um evento do Tribunal Regional Eleitoral (TRE) a alguns metros dali mostrava o quanto a urna eletrônica é eficiente. Ele não quis participar da cerimônia do TRE para ver de perto como o equipamento funciona.

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Irone foi eleito com apenas 16 votos de diferença da segunda colocada. Toda a apuração das 11 urnas levou menos de uma hora. Quando a certeza veio, o homem chorou, abraçou os filhos e a esposa, e saiu em carreata. Dezenas de automóveis formaram uma fila barulhenta na principal rua da cidade. Depois, esquecendo-se da pandemia, dezenas de pessoas ocuparam uma via e comemoraram o resultado.

Irone (PP), eleito prefeito de Petrolândia na eleição suplementar.
Irone (PP), eleito prefeito de Petrolândia na eleição suplementar.
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Mas a maior vitória da democracia, talvez, tenha ocorrido no dia anterior. Observadores internacionais chegaram ao município no sábado (12) para analisar todo o processo eleitoral. O Tribunal Regional Eleitoral (TRE) aproveitou para fazer, pela primeira vez em uma eleição suplementar, o que normalmente é feito nas ordinárias: as auditorias nas urnas, que comprovam que não há formas de interferir nos votos computados.

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O evento foi aberto ao público, em uma escola estadual, mas não houve tanto interesse por parte da população. Enquanto o presidente do TRE, Fernando Carioni, falava sobre a demonstração, ouvia-se buzinadas ao fundo. Alheios à presença das autoridades, moradores subiam e desciam as ruas da região central, com bandeiras vermelhas ou azuis, dependendo do partido, penduradas nas janelas.

Em todos os cantos, o assunto era a movimentação por conta da disputa. Os pelegos (como são chamados os apoiadores do MDB em Petrolândia) e os colas brancas (do PP), não frequentam os mesmos locais. Os dois partidos, historicamente, dividem a preferência dos eleitores. Há pontos de encontro para cada grupo. A forte rivalidade, comum no interior, gera até apostas sobre os possíveis vencedores. Há quem perdeu dinheiro tentando acertar o nome do eleito.

Voto impresso?

Nos botecos, as opiniões sobre as urnas também se dividem. De um lado, os que confiam no sistema, sem pestanejar. De outro, os que repetem o discurso endossado pelo presidente Jair Bolsonaro, que defende a volta do voto impresso. Bolsonaro já havia afirmado haver irregularidades no pleito de 2018. Saiu vencedor e nunca apresentou qualquer prova sobre a denúncia.

— Fizemos essa demonstração porque queríamos mostrar para o povo que não tem como haver interferências. O sistema anterior (de papel) era maléfico, porque a fraude era muito grande. Para mim, desconfiar das urnas é discurso de perdedor — disse, taxativo, o presidente do TRE.

Os quatro observadores internacionais passaram o domingo analisando o vaivém no maior local de votação do município, a mesma escola onde as auditorias foram feitas. Eles farão um documento com as percepções que tiveram e poderão, inclusive, recomendar melhorias para o TRE, que pode ou não acatar as sugestões.

Início da apuração das urnas em Petrolândia, que terminou com vitória de pepista por 16 votos de diferença.
Início da apuração das urnas em Petrolândia, que terminou com vitória de pepista por 16 votos de diferença.
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Os observadores pertencem à Conferencia Americana de Organismos Electorales Subnacionales por la Transparencia Electoral (Caoeste), presidida pelo brasileiro Marcelo Peregrino. A organização tem dois anos, mas as observações são velhas conhecidas da democracia mundial. Peregrino explica que o interesse em vir a Petrolândia aconteceu por conta da cidade estar em Santa Catarina, Estado conhecido pela boa organização nos pleitos e pela criação das urnas eletrônicas.

Sistema seguro

Se no município há quem sustente os boatos sobre as urnas, assim como tantos outros brasileiros, quem é de fora tem uma opinião (e até admiração) totalmente oposta. Antes mesmo da votação começar, uma das observadoras, a norte-americana Ann Miller, declarou, em um português carregado de sotaque, a visão que tem do sistema brasileiro:

— É um sistema muito seguro. O Brasil é melhor que os Estados Unidos neste aspecto. Se eu pudesse escolher, escolheria a urna eletrônica — afirmou.

— O mundo inteiro tenta copiar o modelo brasileiro — resumiu Peregrino.

Angela Adriana Krindges da Mota (MDB), que recebeu apenas 16 votos a menos que o primeiro colocado, disse momentos antes de saber o resultado que confiaria na escolha da população. 

— Nós temos que acreditar nas urnas, principalmente com os observadores internacionais aqui — pontuou. 

Petrolândia deixou o recado: Duvidar das urnas é discurso de mau perdedor.

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