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Polícia desvenda esquema de desvio de cestas básicas para compra de votos em Barra Velha

Caso começou a ser investigado em 2020 e envolveu o sumiço de milhares de cestas básicas que deveriam ser entregues à população carente

12/05/2022 - 12h39 - Atualizada em: 12/05/2022 - 13h01

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Redação
Por Redação AN
Cestas básicas
Polícia Civil de Barra Velha concluiu investigação de um esquema de desvio de cestas básicas
(Foto: )

*Com informações do repórter André Lux, da NSC TV Joinville

A Polícia Civil concluiu nesta quinta-feira (12) a investigação de um esquema de desvio de cestas básicas em Barra Velha, no Litoral Norte de Santa Catarina. De acordo com o inquérito, oito pessoas foram indiciadas pelo crime, que teria como objetivo a compra de votos para a eleição municipal de 2020. Entre os investigados estão ex-funcionários da prefeitura de Barra Velha e também ex-candidatos à Câmara de Vereadores na eleição passada.

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O caso veio à tona no dia 13 de novembro de 2020, dois dias antes do primeiro turno das eleições municipais daquele ano, quando centenas de cestas básicas foram encontradas em uma sala comercial fechada em Barra Velha. A partir daquele momento, a Polícia Civil iniciou a investigação e descobriu que eram itens desviados da prefeitura, com documentos de distribuição fraudados.

Uma das cestas desviadas tinha como destinatária a mãe de Núbia Cardoso, que até chegou a morar em Barra Velha já, mas desde 2020 vive em Aiuaba, pequeno município no interior do Ceará, que fica a mais de 3 mil quilômetros de Barra Velha.

— Para mim foi uma surpresa grande. Até fiquei, assim, pasma. Mas como? Para onde que está indo? Aonde que foi entregue essas coisas? Porque se não foi entregue para mim, para uma das minhas irmãs, minha mãe não recebeu... A gente não pediu esse auxílio. Não chegamos a ir a nenhum órgão público pedir nada — conta Núbia, surpresa com o nome da família envolvido no caso.

Assim como a mãe de Núbia, outras pessoas tiveram o nome utilizado no esquema de desvio de cestas básicas que foi investigado ao longo dos últimos dois anos. Responsável pelo inquérito, o delegado Eduardo Ferraz aponta um “descontrole” na distribuição dos auxílios na cidade:

— Passamos a fazer oitivas de funcionários e pessoas que trabalhavam nesse procedimento de distribuição e ficou demonstrado que havia o desvio dessas cestas básicas por alguns candidatos a vereador e por alguns funcionários internos da prefeitura. De acordo com as investigações, aparentemente esses desvios de cestas básicas foram destinados à compra de votos nas eleições.

A Polícia Civil conseguiu mapear quase 5 mil cestas básicas que deveriam ter sido destinadas a pessoas devidamente cadastradas e aptas a recebê-las. No entanto, 75% das cestas sumiram — ou seja, não possuem nenhum comprovante de entrega ou de recebimento. São quase 4 mil cestas básicas que ninguém sabe para quem foram entregues.

— A gente começou a fazer uma investigação sobre todo o procedimento de distribuição de cestas básicas na prefeitura. E o que a gente percebeu inicialmente é que existia um completo descontrole dessa distribuição. Existe um procedimento previsto, em que há uma análise técnica da distribuição destas cestas a quem seriam os reais beneficiários, os reais necessitados da prefeitura, os cidadãos ali com baixa renda, com necessidade. E o que a gente percebeu é que não havia um efetivo controle — explica o delegado Ferraz.

Segundo a polícia, não foram apenas cestas básicas desviadas. A investigação também identificou o suposto desvio de telhas, lonas e materiais de construção que foram enviados para o município de Barra Velha com o objetivo de auxiliar vítimas do ciclone bomba que atingiu Santa Catarina em junho de 2020.

Áudios mostram investigados debochando da investigação

Enquanto as doações deixavam de chegar a quem precisava, os investigados davam risada. Em dois áudios adquiridos com exclusividade pela reportagem da NSC, um dos indiciados aparece rindo das investigações. A Polícia Civil confirmou a veracidade dos arquivos.

Em um dos áudios, um dos investigados dá risada sobre a possibilidade de ser “botado em cana”.

“Não adianta me botar em cana, eu não vou preso, bicho, tá louco? Dessa vez não deu. Tem que ser mais perto, aí, mais pertinho. Dessa vez não deu certo, hein", comenta o investigado no áudio com um comparsa.

Ao todo oito pessoas foram indiciadas no inquérito finalizado nesta. As identidades dos suspeitos não foram divulgadas. Quatro deles são ex-funcionários da prefeitura de Barra Velha — entre eles um ex-secretário municipal que atuava na gestão anterior. Outros três suspeitos eram candidatos à Câmara de Vereadores do município — um deles com mandato em andamento e que buscava a reeleição em 2020, além de um cabo eleitoral que trabalhava na campanha de reeleição do então atual prefeito.

— Eles vão responder pelo crime de peculato, que corresponde ao desvio da cesta básica contra um bem público da prefeitura; e pelo crime de corrupção eleitoral, que corresponde à suposta compra de votos a partir dessa distribuição de cestas básicas — explica o delegado.

Contraponto

A reportagem procurou a prefeitura de Barra Velha, que se manifestou com a seguinte nota:

“Em virtude de que se tratam de fatos que ocorreram na gestão anterior, estamos aguardando a cópia do inquérito para apuração dos fatos e abertura do processo administrativo competente.

O Município tem colaborado com as investigações, fornecendo todos os dados solicitados.

Tão logo sejamos intimados, tomaremos as medidas cabíveis, mantendo a imprensa informada.”

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