A troca de mensagens entre os suspeitos de integrar a “máfia da merenda” em Blumenau revela que até o envio de prints de calculadora era feito para controlar a quantia correta da propina a ser recebida, sustenta o Ministério Público (MP).

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Imagens que teriam sido compartilhadas entre os servidores da prefeitura estão no relatório da investigação que resultou na operação Arbóreo, deflagrada neste mês (veja abaixo). O Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas (Gaeco) estima que R$ 3,6 milhões foram pagos a três funcionários públicos entre 2021 e 2024, período analisado pelo MP.

O NSC Total Blumenau teve acesso com exclusividade ao documento, que indica um estruturado esquema entre a empresa Risotolândia, então responsável por fornecer as merendas nas escolas, e os servidores César Botelho, César Poltronieri e Ronaldo “Roni” Wan-Dall. À época, Botelho era chefe de gabinete do prefeito Mário Hildebrandt (PL), Wan-Dall diretor do gabinete e Poltronieri secretário da Fazenda do município.

“E os nossos amigos de Curitiba”, questiona Botelho a Wan-Dall em uma das conversas obtidas pelo Gaeco (Foto: Gaeco, Exclusivo NSC)

Os 3% de sempre

Botelho teria o papel de liderança, acredita a promotoria, coordenando as etapas do esquema, acionando Poltronieri para obter dados financeiros, autorizando deslocamentos de Wan-Dall para buscar o dinheiro no Paraná, sede da empresa, e mantendo controle sobre o fluxo de informações sensíveis. Em uma das conversas com Wan-Dall, no final de 2022, o chefe de gabinete expôs com prints da calculadora do computador parte dos pagamentos feitos à Risotolândia pela prefeitura e, na sequência, 3% do valor, identificou o MP.

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Em um rascunho escrito à mão, mais cálculos foram feitos, sempre com precisos 3% sobre o total que era pago pelo governo municipal à empresa contratada. Para os investigadores, como consta no documento, são provas claras de como os envolvidos se organizaram para garantir o montante recebido ilegalmente. Em um dos episódios, no mesmo dia da troca de mensagens sobre o dinheiro, Wan-Dall teria escrito a Botelho: “Chefe, ficou a ida para quinta-feira”.

O chefe de gabinete sabia dos valores pagos à Risotolândia — e, com isso, calculava o montante da propina — com a ajuda de Poltronieri, aponta a investigação. Como secretário da Fazenda, ele teria viabilizado o acesso a dados financeiros, fornecendo “valores atualizados de empenhos e pagamentos destinados à Risotolândia, inclusive em período de férias, alimentando relatórios e cálculos que serviram de gatilho para deslocamentos e encontros subsequentes”, detalha o relatório do Gaeco.

Bate-volta ao Paraná

Durante a operação Arbóreo, o Gaeco já havia revelado que ao menos 25 viagens foram feitas até Araucária, no Paraná, para o recebimento da propina. O responsável por esse serviço seria Wan-Dall, o que explicaria as mensagens enviadas a ele sobre o valor que deveria ser entregue pela Risotolândia, esclarece o Ministério Público na investigação.

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O Gaeco identificou os deslocamentos com base em dados de pedágios, geolocalização e outros indícios. Além da missão na estrada, o diretor fazia a interação com a empresa, repassando informações e cobrando os 3% sobre cada pagamento, com base no que era informado por Botelho, revela o documento sigiloso. Dos R$ 3,6 milhões estimados, há provas de repasses de R$ 2,3 milhões, sustenta o MP.

A pedido da promotoria, a Justiça autorizou o bloqueio de R$ 3,6 milhões das contas dos três suspeitos e da empresa. O objetivo do MP é que, em caso de condenação, o dinheiro público que teria sido desviado volte aos cofres da prefeitura.

“Nossos amigos de Curitiba”

Os arquivos também demonstram que as conversas entre os servidores eram feitas com expressões em código: “Vou subir” e “amigos de Curitiba” estão na lista das ditas com mais frequência, por exemplo.
Quando os primeiros pagamentos da licitação de 2022 começaram a ocorrer, Botelho escreveu a Wan-Dall: “E os nossos amigos de Curitiba”. Ao que o diretor respondeu: “Falei hoje cedo, estão preparando. Acho que vou ter que ir”.

Na volta do Paraná, Wan-Dall teria perguntado a Botelho como proceder e eles, então, marcam um encontro na garagem da prefeitura, “circunstância que sugere tentativa de manter discrição na entrega”, avaliou a promotoria. Além do estacionamento, o MP afirma que “encontros reservados” entre Botelho, Poltronieri e Wan-Dall ocorreram também na casa do chefe de gabinete e em um supermercado da cidade.

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Normalmente, quando viajava, o diretor do gabinete dizia que iria “subir” (para o estado vizinho). Em um episódio, porém, Wan-Dall teria contado que “não precisaria subir porque alguém viria”, indicando que a propina seria entregue em Blumenau.

Rota padrão de Roni Wan-Dall a Curitiba envolvia parada estratégica em posto a 750 metros da sede da Risotolândia, sustenta o MP (Foto: Gaeco, Exclusivo NSC)

Parada obrigatória

Ao se debruçar sobre os registros de geolocalização de Wan-Dall e até gastos que ele teria feito, o Ministério Público identificou uma parada que o diretor sempre fazia em Araucária, no Paraná: um posto de combustíveis que fica a 750 metros da sede da Risotolândia.

“A proximidade geográfica reforça a conclusão de que o deslocamento teve por finalidade a realização de encontro entre os investigados”, afirma o MP.

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A última interação entre a “máfia da merenda” analisada foi em fevereiro de 2024. Depois disso, o levantamento parou para dar sequência à investigação com outros trâmites. No começo do ano passado, a prefeitura rompeu o contrato com a Risotolândia após todo o valor previsto para ser usado até abril de 2025 acabar em dezembro de 2024. A orientação jurídica da Procuradoria-Geral foi de que se evitasse a renovação.

O governo, então, optou por acionar outra emergencialmente. A Risotolândia fez um pedido liminar à Justiça para reverter a situação, algo que foi negado.

Possíveis crimes

Na Risotolândia, Carlos Gusso, dono da empresa, e Elizete Furtado, consultora, teriam viabilizado os repasses ilícitos. “A presença de ambos nas agendas telefônicas dos investigados do núcleo público, associada às posições hierárquicas que ocupam ou ocuparam dentro da empresa, indica que exerciam papel de conexão entre a administração pública corrompida e a origem dos recursos ilícitos, configurando-se, portanto, como elos fundamentais da engrenagem criminosa”, sustenta a investigação.

Os cinco envolvidos na suposta “máfia da merenda” podem responder por corrupção ativa e passiva, fraude à licitação e organização criminosa, explicou o promotor do caso, Marcionei Mendes. A investigação segue em andamento com a análise dos materiais apreendidos neste mês e a oitiva dos suspeitos.

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Contrapontos

NSC Total enviou mensagem para todos os citados na reportagem na tarde de terça-feira (19). Além disso, ligou para Elizete Furtado, César Botelho e Ronaldo “Roni” Wan-Dall. Ninguém atendeu. O espaço segue aberto.

Carlos Gusso indicou que a manifestação seria através da assessoria de comunicação da Risotolândia. A equipe informou por nota que o proprietário “se desvinculou do dia a dia da empresa em 2020, tendo saído formalmente dos atos societários como administrador em abril de 2021”.

Já sobre Elizete Furtado, a empresa explicou que ela se aposentou em 2022.

Risotolândia ressaltou ainda que a “existência de investigação em curso não representa conclusão definitiva quanto a fatos, responsabilidades ou eventual culpabilidade, circunstância que somente pode ser estabelecida após a devida apuração pelas autoridades competentes, com garantia plena do contraditório e da ampla defesa”.

“O Grupo Risotolândia reafirma seu compromisso inegociável com a ética, a integridade corporativa, a conformidade legal e a transparência em todas as suas operações. A empresa seguirá acompanhando o tema com serenidade, responsabilidade institucional e absoluto respeito às autoridades e ao ordenamento jurídico brasileiro”.

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César Poltronieri escreveu que não tem “nada a declarar nesse momento inicial”. Único dos agentes públicos que é efetivo na prefeitura de Blumenau, ele estava cedido ao governo de Indaial, mas foi exonerado do cargo de secretário de Administração e Finanças quando a operação Arbóreo veio à tona. No momento, dados da transparência do governo blumenauense mostram que o servidor está em férias. A Prefeitura diz aguardar a notificação oficial da Justiça para adoção das medidas administrativas cabíveis.

Mário Hildebrandt afirmou por nota que não é alvo das investigações e sequer é citado nos procedimentos em andamento. Escreveu que “enfrentou alguns dos maiores desafios da história recente de Blumenau, como as enchentes e a pandemia, conduzindo o município com responsabilidade, equilíbrio e compromisso com a população”.

“Todas as contas de sua gestão foram aprovadas pelo Tribunal de Contas do Estado, refletindo uma administração pautada pela transparência, responsabilidade na aplicação dos recursos públicos e respeito às instituições”, diz o texto. Ele também se colocou à disposição da Justiça e se disse “confiante de que os fatos serão devidamente esclarecidos no menor tempo possível”.