A Polícia Civil aguarda alguns documentos e o depoimento dos envolvidos para responder perguntas essenciais no caso da mãe e bebê mortas após a jovem procurar atendimento médico quatro vezes em Indaial. Na última tentativa, Maria Luiza Bogo Lopes, de 18 anos, foi transferida às pressas para o Hospital Santo Antônio, em Blumenau, passou por uma cesariana de emergência, mas morreu junto com a filha.
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Em busca de justiça, a família quer entender por que o Hospital Beatriz Ramos não internou a jovem já nas primeiras vezes que ela recorreu à unidade de saúde. Em paralelo, a Polícia Civil precisa desvendar se de fato houve negligência no atendimento em Indaial. Por que ela não permaneceu no hospital? Qual foi, de fato, a causa da morte? E por que o Hospital Santo Antônio não acionou a Polícia Científica para fazer a perícia após o óbito? As informações fornecidas à família foram corretas?
Para responder isso tudo, o delegado Ícaro Malveira pretende nesta semana receber e enviar os prontuários dos dois hospitais aos médicos legistas, que terão a missão de esclarecer se houve negligência nos encaminhamentos adotados no caso de Maria ou não. Pelo atestado de óbito, a jovem morreu devido a uma “coagulação intravascular disseminada, um descolamento prematuro da placenta e síndrome de HELLP”, uma complicação grave da gestação, considerada uma forma severa de pré‑eclâmpsia.
— De imediato requisitei os prontuários médicos dos hospitais, tanto do Beatriz Ramos, quanto do Santo Antônio. Após o encaminhamento do prontuário, estes serão encaminhados para o IML para confecção do laudo pericial. Entre os quesitos formulados à Polícia Científica consta se houve imprudência, negligência ou imperícia por parte da equipe médica — detalhou.
O ideal seria o corpo da jovem ter passado por perícia da Polícia Científica, mas não será necessário fazer a exumação do corpo, acredita o delegado. Os laudos e depoimentos dos profissionais que a atenderam e da família serão determinantes. À reportagem, os parentes contaram que comentaram no Hospital Santo Antônio que a jovem tinha buscado atendimento em Indaial quatro vezes. Neste caso, diante da suspeita dos acompanhantes de negligência, o acionamento do Instituto Médico Legal por parte do Santo Antônio seria o indicado, detalha Malveira.
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— Somente se a família tivesse relatado uma possível situação de negligência por qualquer profissional da Saúde de Indaial o Santo Antônio deveria ter chamado o IML, mas a gente ainda precisa confirmar isso — comenta o delegado.
Tanto o Hospital Santo Antônio quanto a família confirmaram que depois do falecimento de mãe e bebê foi informado sobre a existência do Serviço de Verificação de Óbito (SVO), estrutura na capital responsável por investigar causas de morte de origem natural não totalmente esclarecidas. Porém, os familiares entenderam que teriam de desembolsar uma boa quantia para enviar o corpo a Florianópolis e, sem condições financeiras e psicológicas para tal, optaram por fazer o enterro sem a perícia. O serviço, no entanto, é gratuito.
Esse é mais um ponto a ser esclarecido pela investigação.
Sonho interrompido
Maria vivia a primeira gravidez e se aproximava dos sete meses de gestação. Nas redes sociais, ela e o namorado publicavam sobre a ansiedade pela espera da filha Jhenifer. No mês passado, foi diagnosticada com diabetes gestacional e encaminhada a uma nutricionista. A consulta seria no último dia 30, mas a moradora de Indaial não conseguiu ir por causa de um mal-estar.
Com dor por todo o corpo e febre, procurou o Beatriz Ramos no dia 30 de março. Segundo a família, Maria passou por exames que não detectaram problema algum e foi liberada. No dia seguinte, voltou e os exames apontaram uma diminuição nas plaquetas. A equipe médica teria suspeitado de dengue, mas voltou a liberá-la.
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No primeiro dia deste mês, ainda mais fraca, Maria procurou o mesmo pronto-atendimento de manhã e à noite. Foi medicada e dispensada. Na quinta-feira passada (2), recorreu ao posto de saúde onde fazia o pré-natal, que a levou ao Hospital Beatriz Ramos.
Em estado grave, a garota foi atendida em caráter de urgência. Lá, a família soube que ela sofria de uma infecção generalizada. A paciente foi levada às pressas ao Hospital Santo Antônio, em Blumenau, pelo Samu.
Foi questão de horas para que todo o episódio se desenrolasse. No Santo Antônio, ela passou por uma cesariana de emergência. Mãe e bebê morreram. O enterro foi na sexta-feira (3). A família registrou um boletim de ocorrência na terça (7), dando início à investigação.
O que diz o Hospital Santo Antônio
O Hospital Santo Antônio informa que, conforme os protocolos legais vigentes, o acionamento do Instituto Médico Legal (IML) é indicado em casos de mortes decorrentes de causas externas, como acidentes e violências.
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No caso em questão, a paciente deu entrada na instituição em estado gravíssimo, sendo prontamente atendida pelas equipes do pronto-socorro, obstetrícia, pediatria e neonatologia. A evolução clínica foi compatível com quadro de origem clínica, com suspeita de choque associado a processo infeccioso, com base nos sinais e sintomas apresentados no momento da admissão.
Diante desse contexto, não houve indicação legal para acionamento do IML.
Ressaltamos que foi oferecida à família a possibilidade de encaminhamento ao Serviço de Verificação de Óbito (SVO), estrutura responsável por investigar causas de morte de origem natural não totalmente esclarecidas. O SVO poderia contribuir para a elucidação da etiologia do possível quadro infeccioso, embora não haja garantia de identificação do agente causador.
O Hospital Santo Antônio permanece à disposição das autoridades competentes para quaisquer esclarecimentos necessários e reforça seu compromisso com a transparência, ética e qualidade assistencial.
O que diz o Hospital Beatriz Ramos
A Associação Beneficente Hospital Beatriz Ramos informa que, desde a ocorrência envolvendo a paciente Maria Luiza Bogo Lopes, iniciou imediatamente a adoção de todas as medidas cabíveis para o esclarecimento completo dos fatos.
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O caso está sendo submetido a investigação técnica rigorosa, conduzida em conformidade com os protocolos do Conselho Federal de Medicina e do Ministério da Saúde, respeitando todos os fluxos institucionais aplicáveis.
A apuração ocorre no âmbito da Comissão Técnica Hospitalar, com análise criteriosa e detalhada, incluindo a revisão minuciosa de todo o processo assistencial desde o primeiro atendimento prestado à paciente.
O Hospital Beatriz Ramos lamenta profundamente o ocorrido e expressa sua solidariedade à família neste momento de dor. A instituição reafirma seu compromisso com a ética, a transparência e a responsabilidade, assegurando que a apuração será conduzida com a máxima seriedade.





