Um acervo com mais de mil arquivos, que documentam a perseguição aos catarinenses durante a ditadura militar, está guardado na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). O conjunto, que conta com anotações de vítimas da repressão, manuais militares de interrogatório e tortura, além de cartas pessoais, foi reunido ao longo de 25 anos por Derlei Catarina de Luca, catarinense vítima do regime, que dedicou grande parte da vida para lutar por justiça pelos perseguidos do golpe de 1964. 

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Natural de Içara, no Sul de Santa Catarina, ela foi presa e fichada em 12 de outubro de 1968, enquanto participava do 30º Congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE), em São Paulo. O evento foi descoberto pelo exército e resultou na prisão de centenas de estudantes, incluindo 15 catarinenses, que foram levados ao Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) do estado paulista. Dias depois, o grupo foi transferido para Florianópolis, onde foram fichados e soltos sob liberdade vigiada.

“Chegando a Florianópolis, as viaturas rodaram conosco por toda a cidade e a ordem era largar-nos onde não houvesse gente. Uns foram soltos antes da ponte Hercílio Luz, outros depois da ponte e outros ainda na Agronômica. Tudo para evitar que os estudantes que nos esperavam fizessem alguma manifestação”, relata Derlei em carta disponível no acervo. 

Dois meses depois da promulgação do Ato Institucional Número Cinco (AI-5), em dezembro daquele ano, Derlei deixou Florianópolis sem avisar ninguém. Durante o exílio, viveu em países como Chile, Panamá, Peru e Cuba. 

A catarinense morreu em 2017, vítima de câncer, em São Paulo.

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Mais de mil documentos em 25 anos 

A vida de Derlei Catarina de Luca esteve intrinsecamente ligada à busca, ao recebimento e à preservação de documentos, que serviram tanto ao seu engajamento ativista quanto à sua jornada pessoal de resgate da memória e da justiça. Foi por isso que ela reuniu, durante 25 anos, mais de mil arquivos que estão entre os materiais digitalizados que compõem a coleção do Comitê Catarinense Pró-Memória dos Mortos e Desaparecidos Políticos (CCPMMDP). 

Como primeiro grupo pró-memória do Brasil, o comitê atua em Santa Catarina desde os anos 1990, com influências que ultrapassam o âmbito estadual, gerando articulações nacionais e internacionais em torno do direito à memória e à justiça.

O acervo, que começou a ser tratado em 2022, como parte de um projeto de extensão da UFSC, reúne aproximadamente 12 caixas de documentos, com mais de mil itens já indexados. Desde então, uma equipe multidisciplinar formada por historiadores, museólogos, especialistas em ciência da informação, relações internacionais e estatística passou a trabalhar na organização do conjunto documental.

— O processo envolve leitura, interpretação e decodificação de documentos muitas vezes cifrados com siglas e codinomes usados pelos órgãos da ditadura — explica o estudante de História Arthur Will Tocchetto, que integrou a equipe do projeto. Cada item é digitalizado página por página, com cuidado para manter a ordem original.

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Para a professora Graziela Martins, coordenadora do GT- acervo, o valor da coleção é único justamente por reunir informações que não se encontram em nenhum outro lugar.

— Trata-se de uma pesquisa minuciosa, com levantamento de nomes, situações de desaparecimento e outros dados fundamentais. Agora digitalizado, ele amplia o acesso da sociedade, mas é especialmente pensado para atender quem está se aprofundando na temática: estudantes, pesquisadores, autores de TCCs, teses e dissertações — diz.

Antonietas

Antonietas é um movimento da NSC que tem como objetivo dar visibilidade a força da mulher catarinense, independente da área de atuação, por meio de conteúdos multiplataforma, em todos os veículos do grupo. Saiba mais acessando o link.

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