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    Cartas na pandemia

    "Queremos viver num lugar tranquilo em família", dizem venezuelanos que pedem refúgio no Brasil

    Adolescentes da Venezuela trocaram mensagens com jovens catarinenses sobre suas rotinas e sonhos

    20/10/2020 - 08h19 - Atualizada em: 23/10/2020 - 12h57

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    Por Ângela Bastos
    Amy, 15 anos, e Anthony Moncada, 16 anos
    Amy, 15 anos, e Anthony Moncada, 16 anos
    (Foto: )

    O último mês foi intenso para os irmãos venezuelanos Amy, 15 anos, e Anthony Moncada, 16 anos, solicitantes da condição de refugiados no Brasil. Eles estavam no abrigo temporário Rondon 2, em Boa Vista (RR). De lá, responderam cartinhas enviadas por crianças e adolescentes de Santa Catarina, como parte de uma reportagem especial do Diário Catarinense. O conteúdo multimídia mostra a troca de mensagens entre jovens de SC e refugiados, para dar visibilidade a diferentes realidades durante a pandemia. Ao escrever as cartas, os irmãos se preparavam para a etapa de interiorização que os levaria a um novo endereço em solo brasileiro.

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    Até junho, eram 38 mil os venezuelanos com pedido de refúgio no Brasil. São pessoas que fogem de grave crise econômica, denúncias de perseguição política e ameaças aos direitos humanos. A história de vida dos irmãos Amy e Anthony em território brasileiro começa no final de 2019, quando a família atravessou a fronteira com a Venezuela. Os Moncada procuraram o Brasil devido à saúde do pai, em razão da escassez de medicamentos e de serviços de saúde. Um dos primeiros e principais desafios foi aprender o novo idioma. Adaptavam-se à rotina no abrigo quando foram impactados pela chegada do novo coronavírus.

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    Tão logo chegaram, os adolescentes foram matriculados na rede pública estadual, graças a um procedimento facilitado de equivalência e acesso estabelecido pelo governo de Roraima. Pelo menos 4 mil alunos venezuelanos buscaram o sistema público de ensino estadual nos últimos dois anos. Apesar das dificuldades, os irmãos conseguiram continuar o ensino médio no Brasil e miram o vestibular daqui a dois anos. Com domínio na língua, decidiram que escreveriam as cartas em português.

    Os irmãos venezuelanos, Anthony e Amy
    Os irmãos venezuelanos, Anthony e Amy
    (Foto: )

    A chegada da Covid-19 mudou a rotina escolar:

    — Avisaram a gente, por celular, que deveríamos buscar livros para fazer as tarefas e enviá-las de volta por meio digital ou presencialmente — conta Anthony.

    A experiência não era a mais fácil, e o celular se tornou uma ferramenta indispensável para pesquisa, tradução e comunicação com os professores. Mas a falta de conectividade à internet e a pouca duração da bateria foram alguns dos obstáculos.

    — Eu usava o celular para pesquisar e para traduzir os textos. Também usei os livros da biblioteca da escola — conta Amy.

    A mãe, Maivy del Carmen, é professora de Engenharia Civil na Venezuela. Ela conta que ver os filhos estudando e aprendendo o idioma local lhe encheu de orgulho.

    Amy e Anthony fazem parte de uma minoria estatística. De acordo com o relatório “Unindo Forças pela Educação de Pessoas Refugiadas”, recentemente lançado pela Agência da ONU para refugiados (Acnur), apenas 31% dos jovens refugiados estão matriculados na escola secundária — equivalente ao ensino médio no Brasil.

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    — São pequenos passos como esses que geram um impacto positivo no futuro de crianças e jovens refugiados — destaca o representante adjunto do Acnur no Brasil, Federico Martinez.

    Enquanto isso, os irmãos seguem com os sonhos:

    — Temos uma expectativa muito alta, tanto para nós dois, quanto para nossos pais que são professores. Minha mãe quer revalidar seu diploma como engenheira civil e encontrar um trabalho. Assim, teremos capacidade de buscar um bom teto e viver num lugar tranquilo em família.

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    Amy e Anthony Moncada trocaram cartas com as catarinenses Alícia e Helena.

    Helena e Alícia
    Helena e Alícia
    (Foto: )

    SC tem mais de 80 nacionalidades de imigrantes e refugiados

    A professora Karine de Souza Silva dá aulas de Relações Internacionais e Direito Internacional na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Ela pesquisa temas como migrações e refúgios; diáspora africana; direito internacional dos direitos humanos; ONU, entre outros. A doutora lembra que historicamente Santa Catarina sempre acolheu bem os imigrantes europeus, com políticas públicas que permitiram o assentamento dessas populações. Mas observa que a mesma realidade não foi oferecida aos africanos que chegaram ou foram escravizados.

    > Mapa do coronavírus: veja a evolução da pandemia em SC

    — Em Santa Catarina temos mais de 80 nacionalidades de imigrantes e refugiados.

    Karine reconhece avanços recentes no Estado, como a aprovação, na Assembleia Legislativa (Alesc), de projeto de lei que institui a política estadual de atendimento ao imigrante, com texto que assegura garantias de acesso aos direitos sociais e à saúde, tal qual como aos cidadãos catarinenses. Aguarda-se pela sanção do governador do Estado.

    > SC tem mais de 5,7 mil imigrantes de 85 nacionalidades diferentes

    Veja as cartas dos jovens

    Carta da catarinense Helena
    Carta da catarinense Helena
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    Carta da catarinense Alícia
    Carta da catarinense Alícia
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    Carta da venezuelana Amy
    Carta da venezuelana Amy
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    Carta do venezuelano Anthony
    Carta do venezuelano Anthony
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