No sistema educacional brasileiro, em que aprendizado é a palavra-chave, surgem histórias que nos fazem repensar, talvez, na metodologia de ensino. Digo isso, pois não é novidade que o compartilhamento de agulhas e seringas podem trazer riscos à saúde, e que este comportamento é atrelado a infecções como HIV, hepatites e infecções em geral. No entanto, quando essa prática descabida emerge em um ambiente escolar, ficamos estupefatos.

Continua depois da publicidade

Clique aqui para receber as notícias do NSC Total pelo Canal do WhatsApp

O caso ocorreu recentemente em uma escola estadual de Laranja da Terra, no Espírito Santo, envolvendo mais de 40 alunos. Durante uma aula de química, que deveria ser um espaço seguro e educativo, os alunos foram expostos ao uso compartilhado de agulhas ao fazerem testes para tipagem sanguínea. Felizmente, até agora, os testes de diagnóstico para infecções deram negativo. Contudo, isso não minimiza a gravidade do evento. 

“Uso de furadeira doméstica em cirurgia escancara falta de insumos em hospitais”

O uso de materiais compartilhados sem a devida esterilização é uma prática inaceitável, trazendo riscos de transmissão de doenças sérias como hepatite B, hepatite C e HIV. Cada aluno exposto deve ser monitorado por profissionais de saúde por um período prolongado, pois algumas infecções podem não ser detectadas imediatamente devido à janela imunológica, que é o intervalo de tempo que ocorre entre a infecção por um patógeno, como um vírus ou bactéria, e o momento em que os exames de sangue disponíveis (testes sorológicos) conseguem detectar a presença de anticorpos ou antígenos específicos no organismo. Durante esse período, a pessoa pode estar infectada e potencialmente transmitindo a doença, mas os testes ainda não conseguem confirmar a infecção devido à ausência ou quantidade insuficiente dos marcadores detectáveis.

Continua depois da publicidade

Preciso enfatizar a importância da prevenção e educação sobre os riscos associados ao compartilhamento de agulhas. As escolas precisam implementar programas sólidos de educação em saúde que incluam informações claras e práticas sobre o uso seguro de materiais perfurocortantes. Essas práticas não são apenas para proteger os estudantes, mas também para familiarizá-los com hábitos seguros que podem transportar para seus lares e comunidades. A demissão do professor envolvido é uma das ações corretivas que foram aplicadas, mas não devem ser a única, se este professor tivesse a capacitação para lidar adequadamente com estas ferramentas, este fato, certamente não teria acontecido.

O que ocorreu em Laranja da Terra deve servir como um alerta sobre a necessidade de treinar profissionais para terem total compreensão sobre os riscos e as melhores práticas de saúde pública, isso serve para todos, afinal, pode ser seu filho na próxima aula. Neste caso específico, a resposta rápida dos profissionais de saúde ao realizar os testes diagnósticos foi correta, no entanto, a prevenção é sempre mais eficaz do que o tratamento.

No futuro, é indispensável que políticas de saúde escolar sejam reforçadas, incluindo diretrizes claras sobre o uso de qualquer equipamento que possa representar um risco à saúde dos alunos. Acredito que este incidente deve nos conduzir a uma reflexão crítica sobre a segurança nos ambientes educacionais e sobre o imperativo de uma educação em saúde. Devemos nos perguntar: estamos realmente preparando nossas crianças e adolescentes para um futuro mais seguro e saudável?

A segurança dos alunos e a integridade dos ambientes educacionais devem ser pilares intransigentes na nossa sociedade. Que este lamentável acontecimento sirva de lição e impulso para implementar mudanças significativas e duradouras.

Continua depois da publicidade

Lembre-se: A saúde começa na educação — e é nessa esfera que precisamos centrar nossos esforços.

Por Sabrina Sabino, médica infectologista, formada em Medicina pela PUCRS, mestre em Ciências Médicas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e professora de Doenças Infecciosas na Universidade Regional de Blumenau.

Leia também

Sabrina Sabino: “Eu, se fosse você, não comeria ovo poché”

Sabrina Sabino: “Novo coronavírus é descoberto na China, mas precisamos nos acalmar”