Imagine um cenário onde a prevenção ou o tratamento de uma doença crônica não dependa mais de um despertador tocando todos os dias para o uso de comprimidos. No campo do HIV, esse futuro acaba de desembarcar no Brasil. Dia 12 de janeiro de 2026, a Anvisa aprovou o Lenacapavir, um medicamento que redefine o que entendemos por “adesão ao tratamento”.
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Até hoje, a maioria dos nossos antirretrovirais agia impedindo a cópia do código genético do vírus ou sua integração às nossas células. O Lenacapavir é diferente: ele é o primeiro inibidor de capsídeo, ele atua na “armadura” do HIV (o capsídeo), impedindo que o vírus proteja seu material genético e se multiplique. Essa abordagem inovadora permitiu o desenvolvimento de uma molécula extremamente estável, que permanece ativa no organismo por um longo período.
O que mais nos impressiona, como infectologistas, são os dados de prevenção (PrEP). O estudo clínico PURPOSE 1 demonstrou algo raríssimo na medicina: zero infecções entre as mulheres que receberam o Lenacapavir injetável.
A grande barreira da PrEP oral (o comprimido diário) sempre foi a adesão. Pacientes jovens, saudáveis e com rotinas dinâmicas muitas vezes esquecem doses, o que reduz a proteção. Com uma injeção subcutânea aplicada apenas duas vezes por ano, o erro humano é praticamente eliminado da equação.
Para quem se destina?
Neste primeiro momento, o Lenacapavir foca em dois públicos principais:
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- Pacientes multirresistentes: aqueles que, após anos de tratamento, convivem com um vírus que não responde mais às terapias convencionais.
- Prevenção (PrEP): pessoas com maior vulnerabilidade à infecção que buscam uma alternativa mais prática e discreta que o uso diário de pílulas..
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A aprovação regulatória é uma vitória, mas, como infectologista e defensora das doenças negligenciadas, sei que a ciência só é plena quando chega a quem precisa. O desafio de 2026 será a incorporação desta tecnologia no SUS. O custo ainda é elevado, mas o impacto econômico de evitar novas infecções e complicações em pacientes resistentes é um argumento poderoso para a saúde pública.
Estamos vivendo o que eu chamo de “Era da conveniência terapêutica”. O HIV deixou de ser uma sentença de morte, tornou-se uma condição crônica e, agora, caminha para ser uma condição de manejo semestral. Menos estigma, menos lembretes diários da doença e mais liberdade para o paciente. A ciência fez a sua parte. Agora, cabe a nós, sociedade e gestores, garantirmos que essa revolução não fique restrita aos consultórios particulares, mas alcance cada canto do Brasil.
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Por Sabrina Sabino, médica infectologista, formada em Medicina pela PUCRS, mestre em Ciências Médicas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e professora de Doenças Infecciosas na Universidade Regional de Blumenau.
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