Era uma questão de tempo. A decisão do governo dos Estados Unidos de retirar do calendário infantil a recomendação rotineira e universal de vacinas como gripe, hepatites A e B, meningococo, vírus sincicial respiratório (VSR/RSV) e rotavírus — somando-se ao movimento anterior de excluir a vacina de Covid-19 — não é um ajuste técnico neutro. Isso é a fotografia do Departamento de Saúde e Serviços Humanos, comandado por Robert Kennedy Jr., que comanda uma política pública guiada mais por sinalização política do que por evidência. 

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Por trás desta lamentável discussão, um líder: Trump.

No papel, parece civilizado e moderno. Na realidade, esse tipo de mudança costuma operar como uma elegante forma de terceirizar risco e, pior, de transformar o que era uma política pública clara em um labirinto de acesso, compreensão e desigualdade. “Decisão compartilhada” é um conceito nobre na medicina quando existe, de fato, mais de um caminho razoável e quando o custo da escolha recai sobretudo sobre quem escolhe. Só que a vacinação infantil não é um dilema privado, como escolher entre dois antitérmicos equivalentes. Vacina é uma tecnologia de impacto coletivo, e esse é o ponto que muita gente finge esquecer quando o debate fica ideológico.

Esse hábito todo mundo tem e além de ser perigoso é subestimado

Uma criança não vacinada não “fica isolada” com sua decisão. Ela circula, frequenta escola, compartilha espaço com bebês pequenos demais para completar esquema, com crianças imunossuprimidas, com idosos em casa. A consequência prática é simples: quando você desloca a vacinação do “isso é rotina para todos” para “isso depende”, você mexe no motor do programa, não apenas numa lista. E o programa vacinal depende de três coisas que não combinam com ambiguidade: cobertura alta, mensagem simples e equidade.

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A mensagem simples é um ativo de saúde pública subestimado. “Toda criança deve receber” é operacional, direto e menos sujeito a ruído. “Apenas alto risco, conforme avaliação e conversa com o médico” parece cuidadoso, mas cria atrito em cada etapa: quem define alto risco, com quais critérios, em que idade, com qual profissional, em qual sistema de saúde? Em países com acesso irregular e com diferenças profundas entre redes de atenção, o resultado tende a ser previsível: famílias com mais recursos, mais letramento em saúde e mais facilidade de consulta conseguem “decidir” e executar; famílias com menos acesso ficam para trás — e são justamente elas que costumam pagar mais caro quando doenças preveníveis voltam a circular.

“Nova vacina é a maior virada no combate à dengue em anos”

Calendário vacinal não é moda internacional, não. Quando autoridades públicas rebaixam a vacinação infantil de “rotina” para “opcional sob orientação”, elas não estão apenas oferecendo autonomia: estão emitindo um sinal cultural poderoso: o de que não é tão necessário assim, e em saúde pública, sinais importam porque moldam norma social. Se “não é tão necessário”, a adesão cai. Se a adesão cai, a circulação aumenta. Se a circulação aumenta, o risco deixa de ser teórico e volta a ser estatística de hospital, pronto-socorro e UTI pediátrica. E não é preciso sensacionalismo para entender o que está em jogo com essas vacinas específicas. Influenza em criança não é só “uma gripezinha”: é gatilho de pneumonias, descompensação de asma e amplificação de transmissão dentro de casa.

Essa tal “decisão compartilhada” vira um nome bonito para um cenário em que o Estado recua, a responsabilidade se difunde e a conta chega, como quase sempre, para quem tem menos margem para absorvê-la. Este impacto é global, as doenças transmitem-se de forma rápida e fatal. Espero que esta mensagem chegue até você e que você compreenda a necessidade de se vacinar e vacinar os seus.

Por Sabrina Sabino, médica infectologista, formada em Medicina pela PUCRS, mestre em Ciências Médicas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e professora de Doenças Infecciosas na Universidade Regional de Blumenau.

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