É um contrassenso que, em pleno 2026, com amplo acesso a métodos diagnósticos rápidos e um tratamento de baixo custo e alta eficácia como a penicilina benzatina, a sífilis continue a quebrar recordes de incidência no Brasil. No entanto, o que observamos é uma mudança drástica no perfil epidemiológico. A sífilis era conversa de gente jovem, no entanto, a população idosa tem ganhado destaque.
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O Brasil tem enfrentado uma epidemia sustentada de sífilis adquirida na última década. Santa Catarina ocupa uma posição alarmante no ranking nacional. Em 2024, o estado registrou uma taxa de detecção de 197,4 casos por 100 mil habitantes, o que representa um índice significativamente superior à média brasileira (quase 64% acima do índice nacional).
Com um total de 15.905 novos casos notificados apenas no último ano, o estado mantém-se como uma das regiões com maior circulação de sífilis no país. Ainda, de acordo com os dados da DIVE-SC (Diretoria de Vigilância Epidemiológica) atualizados até o início de 2026, o estado de Santa Catarina apresenta uma particularidade na razão de sexos: enquanto no Brasil há uma predominância masculina (cerca de 2 homens para cada mulher), em solo catarinense a razão de sexo para sífilis adquirida aproxima-se de 0,9 (9 homens para cada 10 mulheres), evidenciando uma feminização da epidemia que impacta diretamente os indicadores, também, de sífilis gestacional.
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Por que a sífilis voltou a crescer
Para os jovens nascidos entre o final dos anos 1990 e o início dos anos 2010, o impacto devastador da epidemia de HIV/AIDS das décadas de 1980 e 1990 é um registro histórico distante. É história. Essa ausência de “medo” do diagnóstico de sífilis, aliada ao acesso e ao conhecimento da Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) para o HIV, gerou um efeito colateral inesperado: a negligência com o uso de preservativos.
Muitos jovens utilizam a PrEP (que previne a infecção somente do HIV) como uma “blindagem única”, esquecendo que ela não oferece proteção contra o Treponema pallidum, que é o agente causador da sífilis. O resultado é uma explosão de casos de sífilis primária e secundária, frequentemente diagnosticadas em estágios já evoluídos.
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A dinâmica de contágio entre os jovens é acelerada por aplicativos de relacionamento, que facilitam redes de contatos sexuais vastas e rápidas, superando a velocidade das estratégias tradicionais de bloqueio epidemiológico.
No outro extremo, Santa Catarina, estado com um dos maiores índices de longevidade do país, enfrenta o desafio da sífilis na terceira idade. O aumento do uso de fármacos para disfunção erétil e a quebra de tabus sobre a sexualidade na maturidade não foram acompanhados por campanhas de educação sexual direcionadas a esse público.
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Muitos idosos, que viveram a maior parte de suas vidas em relacionamentos monogâmicos ou em uma era em que a preocupação central era a contracepção, não incorporaram o uso do preservativo em novas parcerias após a viuvez ou o divórcio.
O diagnóstico nesta faixa etária é particularmente desafiador, pois os sintomas podem ser confundidos com outras dermatoses senis ou, em casos de sífilis terciária, com quadros de declínio cognitivo e demência, retardando o início da antibioticoterapia adequada.
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A sífilis é uma doença sistêmica de evolução crônica. A transição da fase secundária para a latente pode mascarar a necessidade de tratamento, permitindo que o treponema se aloje no sistema nervoso central ou no sistema cardiovascular.
O diagnóstico diferencial através de testes treponêmicos e não treponêmicos (VDRL) deve ser rotina em qualquer investigação clínica, independentemente da idade do paciente. Por isso, para conter o avanço da sífilis em 2026, precisamos desestigmatizar o teste. A sífilis tem cura, precisamos falar mais sobre isso.
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Por Sabrina Sabino, médica infectologista, formada em Medicina pela PUCRS, mestre em Ciências Médicas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e professora de Doenças Infecciosas na Universidade Regional de Blumenau.

