A saída de Ibaneis Rocha do comando do Governo do Distrito Federal, em março de 2026, não encerra apenas um mandato — marca o fim de um ciclo político que começou como surpresa eleitoral e terminou no centro de uma das maiores crises institucionais recentes do país. A desincompatibilização para disputar uma vaga no Senado abre um novo capítulo tanto para o ex-governador quanto para o cenário político local, agora sob o comando de Celina Leão.
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A mudança ocorre em um momento de relativa estabilidade administrativa, mas com impactos diretos na correlação de forças no DF. Aliados apostam na continuidade do grupo político, enquanto adversários veem uma janela para reconfiguração do cenário local.
Levantamentos publicados no Metrópoles indicam que a trajetória de Ibaneis pode ser dividida em fases distintas: a entrada inesperada na política, o primeiro mandato voltado à gestão e ao enfrentamento da pandemia, a reeleição com ampla vantagem, a crise institucional de 8 de janeiro e, por fim, a saída antecipada para disputar novo cargo eletivo.
De outsider a governador: alianças e expansão de influência
Natural de Corrente (PI) e advogado de formação, Ibaneis chego à política sem experiência prévia em cargos eletivos. Filiado ao MDB, construiu sua base inicial a partir de redes no meio jurídico e empresarial do Distrito Federal, especialmente durante sua atuação como presidente da OAB-DF.
Em 2018, protagonizou uma virada improvável: saiu de posições discretas nas pesquisas para avançar ao segundo turno e derrotar o então governador Rodrigo Rollemberg, do PSB. O desempenho atípico consolidou sua imagem de outsider capaz de capturar o discurso de renovação — um ativo que marcou o início de sua trajetória política.
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Pandemia como ponto de inflexão na gestão
Ao assumir o governo em janeiro de 2019, Ibaneis adotou um perfil pragmático, com foco em gestão e articulação política. Diferentemente de outros governadores, evitou um discurso ideológico mais rígido e apostou em uma atuação mais flexível, aproximando-se de diferentes grupos de poder.
Esse modelo foi colocado à prova com a pandemia de Covid-19. O DF adotou medidas como lockdowns, restrições de circulação e suspensão de atividades — decisões que buscaram equilibrar pressões econômicas e sanitárias.
A condução da crise dividiu opiniões: enquanto aliados destacam a capacidade de adaptação, críticos apontam oscilações e falta de previsibilidade nas medidas.
Reeleição com folga: o auge do capital político no DF
Em 2022, Ibaneis foi reeleito já no primeiro turno, consolidando sua liderança no Distrito Federal e ampliando sua projeção no cenário nacional. A vitória expressiva refletiu não somente altos índices de reconhecimento, mas também a eficácia de uma base política ampla, construída ao longo do primeiro mandato.
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Esse arranjo incluiu o apoio de partidos do chamado centrão, além de alianças com lideranças locais influentes e setores estratégicos da economia, como construção civil, comércio e serviços. A articulação institucional do governador também se refletiu em uma relação pragmática com o governo federal.
O resultado das urnas consolidou sua posição como principal liderança política do DF naquele momento, evidenciando um capital sustentado tanto pelo desempenho administrativo quanto pela habilidade de formar coalizão.
Atos de 8 de janeiro de 2023: o episódio que mudou o rumo
O ponto de inflexão viria logo no início do segundo mandato. Em janeiro de 2023, os ataques às sedes dos Três Poderes colocaram Brasília no centro de uma crise institucional e expuseram fragilidades na segurança pública do DF.
A repercussão foi imediata. No dia seguinte, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, determinou o afastamento de Ibaneis por 90 dias, no âmbito das investigações, citando “fortes indícios” de omissão.
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O episódio não apenas interrompeu o governo, como redefiniu a posição de Ibaneis no cenário nacional. De liderança consolidada, passou a figurar sob questionamento institucional naquele contexto. Durante o afastamento, Celina Leão assumiu o comando e ganhou protagonismo político.
Retorno, investigação e tentativa de reconstrução
Em março de 2023, Ibaneis Rocha (MDB) retornou ao cargo após decisão do Supremo Tribunal Federal. Na ocasião, classificou os acontecimentos de 8 de janeiro como um “apagão geral” na segurança e afirmou que a gravidade da situação havia sido subestimada.
O inquérito que investigava sua conduta foi arquivado em 2025, encerrando as implicações jurídicas diretas. Ainda assim, o episódio deixou marcas na imagem do governador, com reflexos políticos e aumento do escrutínio sobre sua gestão.
Analistas avaliam que, embora Ibaneis tenha recuperado a governabilidade, o episódio impactou sua projeção nacional e redesenhou seu capital político.
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A saída e o novo cálculo político
Ao deixar o governo em 30 de março de 2026 para disputar o Senado, Ibaneis faz um movimento calculado: troca a administração local por uma tentativa de reposicionamento no cenário federal.
A sucessão com Celina Leão indica continuidade, mas não sem desafios. A nova governadora herda uma máquina estruturada, mas também o peso político de um governo marcado por contrastes.
Entre entregas e desgaste político
O legado de Ibaneis Rocha (MDB) tende a ser analisado por diferentes perspectivas. De um lado, há a construção de uma base sólida e a reeleição expressiva. De outro, permanece a associação política ao contexto dos atos de 8 de janeiro, episódio que gerou forte repercussão institucional.
Para aliados, prevalece a avaliação de um gestor capaz de manter estabilidade administrativa. Para críticos, o episódio levanta questionamentos sobre gestão de crise e responsabilidade institucional.
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O balanço final evidencia um político pragmático, com capacidade de articulação, mas cujo percurso foi impactado por eventos críticos de grande repercussão.
Próximo teste: disputa pelo Senado
A disputa pelo Senado será o próximo teste de força política de Ibaneis. O resultado indicará se o capital acumulado ao longo de sete anos — mesmo após a crise — ainda é suficiente para sustentá-lo em nível nacional.
No Distrito Federal, o desafio será outro: avaliar se o grupo político construído por Ibaneis conseguirá se manter no poder ou se dará lugar a uma nova configuração.
Um legado em disputa
Mais do que encerrado, o ciclo de Ibaneis Rocha permanece em aberto. Seu governo tende a ser lembrado tanto pelos resultados administrativos quanto pelo episódio que marcou seu ponto de inflexão.
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No fim, seu legado não se apresenta como síntese única — mas como um campo de interpretações em disputa.
Conhece a lenda dos Túneis Secretos de Brasília? Veja fotos
*Com edição de Luiz Daudt Junior.










