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    SC tem mais de 600 índios infectados por coronavírus; testagem em aldeias é necessária

    Lideranças destacam o Plano Regional de Combate à Pandemia de Covid-19 entre Povos e Territoriais Indígenas na Região Sul

    11/08/2020 - 09h29 - Atualizada em: 11/08/2020 - 09h37

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    Por Ângela Bastos
    Aldeia guarani em Biguaçu, na Grande Florianópolis
    Aldeia guarani em Biguaçu, na Grande Florianópolis
    (Foto: )

    Seis mortos, 653 contaminados, 254 recuperados da Covid 19. A realidade dos índios que vivem em Santa Catarina obrigou a Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) a se comprometer em testar e divulgar semanalmente o resultado para que lideranças dos Guarani, Xokleg e Kaingang possam adotar medidas de prevenção nas aldeias.

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    Coincidência ou não, o anúncio foi feito depois de um desabafo no Facebook pelo cacique Hyral Moreira, da Aldeia M’Biguaçu, em Biguaçu, na Grande Florianópolis, ao revelar muitos casos de índios gripados. Dos seis mortos, quatro são Kaingang e dois Xokleng. Não há baixa entre os Guarani.

    — Tinha muita gente gripada na nossa aldeia. Chamamos o médico que atende a comunidade e pedimos testes. Tivemos seis casos positivos. A gente sabe que, se testar, vai ter mais infectados — observa o cacique.

    Os guarani de Biguaçu fecharam a aldeia e mantiveram o isolamento. Mesmo sem teste para Covid-19, os casos suspeitos ficaram em isolamento. Mas há casos em que os moradores precisaram sair — comércio e bancos — e isso deve ter facilitado o contágio. Os que testaram positivo foram tratados seguindo a tradição e estão bem. Moreira acredita que a realização dos testes irá ajudar:

    — Nós temos que partir para o enfrentamento da doença. Mas isso só é possível com informação da Sesai, pois aí nós como líderes podemos traçar estratégias com as famílias e todos se cuidarem — avisa.

    Bebê indígena morto ao nascer é a vítima mais jovem de coronavírus em SC

    Além disso, observa o líder, é preciso prestar atenção com o avanço da Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG). Ainda que seja causada por outros vírus que não o coronavírus, a doença tem sintomas que podem confundir os indígenas.

    “Precisamos que prefeitos, governos do Estado e Federal nos ajudem a executar este plano de prevenção”

    O surgimento da doença entre os Guarani aumentou a preocupação com a saúde dos cerca de 17 mil índios de Santa Catarina. Para o enfrentamento da doença, as lideranças destacam um documento, o Plano Regional de Combate à Pandemia de Covid-19 entre Povos e Territoriais Indígenas na Região Sul, elaborado com auxílio da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil, a APIB.

    O Plano Regional tem 15 itens e inclui temas como segurança alimentar e nutricional, atividades produtivas e alternativas econômicas, campanhas, fortalecimento das equipes de saúde, testes de Covid-19.

    — Nós precisamos que prefeitos, governos do Estado e Federal nos ajudem a executar este plano. Não é mais possível que o governo não faça a sua parte, o qual foi obrigado pelo Supremo Tribunal Federal a tomar providências sobre esta dura realidade, e que continue a se omitir — diz a professora Kaingang Joziléia Daniza Jagso Inácio Shild.

    Joziléia diz que a Covid 19 tem golpeado fortemente os índios brasileiros e lembra das mortes de lideranças reconhecidas internacionalmente, como o cacique Aritana, semana passada. Os índios mais idosos morrem e levam o que sabem do conhecimento sobre plantas, remédios, luas, animais. Além das lutas pelos territórios.

    — São bibliotecas vivas — diz Joziléia.

    A professora explica também que são muitos os índios acometidos da Covid 19, e lembra de Anna Terra Yawalapiti, a qual atualmente luta contra a doença. Filha do falecido chefe Pirakumã Yawalapiti, do Alto Xingu, Anna Terra teve sua imagem virilizada nas redes sociais quando, em abril de 2017, se colocou à frente de um cordão policial durante o 14º Acampamento Terra Livre, em frente ao Congresso Nacional.

    — Não são apenas os mais idosos, mas também muitos índios jovens estão morrendo. Isso faz com que os familiares mais velhos, como pais e irmãos, estejam adoecendo — diz Joziléia.

    Até esta segunda-feira eram 652 os índios brasileiros mortos pelo coronavírus. São 23 mil contaminados em 148 povos.

    O que diz o governo

    A Sesai, do Ministério da Saúde, nega que haja omissão com os povos indígenas, e cita a criação de um comitê nacional de crise, destinado a lidar com a pandemia entre os indígenas. Em entrevista à Agência Senado, o governo alega que viabilizou ações, e que abriu 156 leitos hospitalares para a população indígena em cidades da Região Norte, além de postos de saúde em aldeias que estão preparados para fazer a detecção precoce da covid-19.

    Povos indígenas em SC e a Covid-19

    Total de mortes: 625 no Brasil, 11 na Região Sul e 6 em Santa Catarina

    Total de casos confirmados: 22.021 no Brasil e 653 em Santa Catarina

    Povos atingidos em SC

    Kaingang: 560 contaminados, 302 monitorados, 254 recuperados e 4 mortos.

    Xokleng: 44 contaminados, 18 monitorados e 2 mortos.

    Guarani: 49 contaminados e 49 monitorados.

    *Fontes: Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) e Conselho Estadual dos Povos Indígenas de SC (CEPIn/SC)

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