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Entrevista

“Sempre busquei soluções e não culpados”, diz a empresária Luiza Trajano sobre momentos de crise 

Presidente do conselho de administração da Magazine Luiza defende as medidas do governo federal, luta para fazer os recursos chegar até as pessoas que precisam e dá dicas aos empreendedores durante a crise 

18/04/2020 - 13h05

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Everton
Por Everton Siemann
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A pandemia do novo coronavírus impôs uma série de mudanças no cotidiano dos brasileiros nas últimas semanas. A necessidade do isolamento social para frear a proliferação do vírus fechou o comércio em geral, alterou o entretenimento e o trabalho de muitas pessoas. Há ainda aquelas que, por conta da crise financeira desencadeada pelos efeitos do vírus, não têm mais emprego ou sofreram queda abrupta na renda.

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É por essas pessoas que Luiza Helena Trajano foca as ações como uma influente liderança empresarial no país. Por telefone, a presidente do conselho de administração da Magazine Luiza, uma das maiores varejistas do Brasil, atendeu à reportagem para falar sobre o cenário econômico vivido pelo país, na semana em que o governo federal começou a operar para tornar real o pacote de auxílios a empresas e trabalhadores para mitigar os efeitos da crise.

Defensora das medidas, ela diz que atua para fazer com que os benefícios cheguem a aqueles que mais necessitam.

– Essas medidas vão ajudar a amenizar. O que estou pedindo muito é para as medidas chegarem até as pessoas, porque elas estão com medo, assustadas – pontuou.

Com a experiência de quem já enfrentou e superou outras crises, Luiza evoca a união de todos para um bem comum: derrotar o vírus.

– Fui mais empresária da crise do que fora da crise. Sempre busquei soluções e não culpados. Nesse momento o culpado é um vírus. Vamos buscar solução – disse.

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Aos 68 anos, a empresária cumpre o isolamento social e respeita as determinações impostas pelas autoridades. A rotina de viagens pelo Brasil e em outros países para palestrar foi alterada para videoconferências com públicos cada vez maiores.

– Você até produz mais, porque não perde tempo de locomoção. Por outro lado, você perde aquele calor. Nunca um beijinho e um abraço foram tão valorizados – brincou a empresária.

Confira mais detalhes da entrevista a seguir:

A pandemia do coronavírus fez estragos na economia global. Diante desse cenário, o que é possível projetar?

Estou cumprimentando quem consegue projetar. Acho muito difícil projetar qualquer coisa, é uma situação totalmente nova, ninguém esperava por isso. O que a gente tem que fazer, é fazer o aqui e agora muito bem feito. Quero dizer que as medidas que o governo (federal) tomou, e o IDV, que é o Instituto para Desenvolvimento do Varejo, liderado pelo Marcelo Silva, a gente contribuiu muito para essas medidas, não só cobrando, mas ajudando da melhor forma possível. Com certeza essas medidas vão ajudar a amenizar.

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O que estou pedindo muito é para as medidas chegarem até as pessoas, porque elas estão com medo, assustadas, e tem muito essa polêmica de vai, não vai. E o principal, que as medidas foram muito bem tomadas, estou vendo muito pouco comunicarem, estou pedindo para comunicarem elas bem. As medidas vão ajudar o povo.

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É o momento que a gente sabe que não vai ser fácil, as empresas vão levar dois, três anos, isso ainda se a vacina vir. Estamos torcendo para essa vacina entrar o mais rápido possível, porque o mundo nunca mais vai ser o mesmo.

A gente nunca mais vai ser a mesma. As formas como a gente fazia as coisas vão mudar, e algumas para muito melhor.

Você acredita que vai mudar a relação consumo e consumidor a partir de agora?

Não acredito. O Brasil é um país que gosta de consumir. Isso depende do emprego e do crédito. Vai demorar um pouco para a roda voltar a girar. A única coisa que estou pedindo nestes próximos meses é que leiam as medidas do governo, que vão ajudar você não desempregar de cara. E torcer para quando isso abrir, a gente seja surpreendido para um mercado que a gente não imagina, nem sim, nem não. Não estou fazendo previsão, fico muito impressionada com os diagnósticos.

Hoje todo mundo virou cientista, todo mundo virou economista... Estou sendo bem humilde para dizer que ninguém sabe o que vai acontecer.

O que o Maganize Luiza tem feito é criado coisas. A gente criou um produto para quem não mexia com internet, em dois, três cliques, ele vira nosso parceiro. A gente deu um jeito para as pessoas que não estavam trabalhando ou eram terceirizados e estavam devendo, pudessem ser um vendedor da Magazine Luiza, junto com a sua família. Um sistema que levaria um ano, dois anos para criar, a nossa equipe criou em uma semana.

A gente tem que se reinventar, fazer aquilo que você... “Ah, mas minha empresa nunca entrou no digital!”. É o momento de entrar. Acredito que as lojas físicas vão continuar com outro formato, já destaco isso nas minhas palestras. A loja física não vai morrer, mas é preciso entrar no digital. Acho que agora as pessoas entenderam isso com a dor. A dor faz você entender muito rápido. Você ficando em casa, você vê o que faz.

A empresa que você comanda tomou uma série de medidas internas e externas para combater os efeitos da crise. Entre elas, abriu a plataforma digital para que as pessoas possam vender os produtos ou atuem como parceiros para gerar alguma renda com vendas on-line. Esse é papel de empresas líderes de mercado, como a que Magazine Luiza, em momentos como esse?

Acho que é o papel de qualquer um. Ficar brigando, discutindo se (o isolamento social) vertical ou horizontal é certou ou não, os dois têm argumentos fortes. Mas já se tomou uma medida. Agora, como vamos sair desse tipo que nós estamos? Todo mundo fechado, no (isolamento social) horizontal. Como é que nós vamos sair disso acho que é o trabalho que a gente tem que ajudar.

É o momento de você não ficar dando diagnóstico, ficar acusando. A gente sabe que outros países que tomaram a medida do (isolamento social) horizontal eles tiveram mais sucesso, mas não tem nada que diz, se você analisar o vertical, que sai só os idosos, os novos não saem, pode ser bom, mas não é o que aconteceu.

O que tem é, como é que nós vamos sair, e a previsibilidade daqui a uma semana. Como é que nós vamos fazer isso. Mas pode ter certeza que enquanto não tiver a vacina, nós vamos ter muitas restrições.

Por conta das medidas de restrição social em todo o país para frear a proliferação do novo vírus, há um embate polarizado no Brasil entre os que defendem a preservação da vida e os que miram na manutenção da economia. Como você vê isso?

A preservação da vida é uma coisa que não tem jeito. Falo que depois da saúde (a maior preocupação) é o emprego. A gente tem que ter saúde e emprego. A saúde é uma coisa que a gente não tem acesso de ver o que é certo e o que é errado, esse vírus pegou todos os cientistas, todos os médicos... A área da saúde está trabalhando muito.

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Mais do que nunca, investir na ciência, investir nas pesquisas, o país precisa fazer isso. O Brasil tem ótimos pesquisadores, ótimos cientistas, que durante um período a gente ficou meio esquecido disso, agora vai ter que ter investimento nisso. Temos um ótimo sistema de saúde, que se chama SUS. Defendo isso há muito tempo. Mas tem que ter gestão, tem que ter olhar para isso. Acredito que agora vai ter. Agora, a economia é muito importante.

Não vejo um ou outro. Acho que a saúde tem que obedecer os que os especialistas estão pesquisando e apontando para nós. Então, se você não obedece, corre o risco de amanhã você voltar e ter uma nova forma. Acho que em duas semanas, essa agora e mais a outra, segundo as estatísticas, nós vamos ter um quadro mais importante.

Agora, retração vai ter. Por isso mesmo que eu, como brasileira, como uma defensora da pequena e da média empresa, junto com o IDV, a gente ajudou muito, está junto para fazer essas medidas, que são boas. O governo foi rápido, o Ministério da Economia foi rápido, o pessoal trabalhou bem. O que estou trabalhando agora é para fazer chegar. Sei que tem alguns travamentos aí.

Nesse momento, cabe à gente entender bem onde está travando e fazer destravar. Porque tem que chegar. É um país muito burocrático, mas tem que chegar na ponta.

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Ao lado de outros empresários, você entrou em um movimento chamado #NãoDemita, a fim de convidar empresas a refletirem sobre a questão durante a pandemia. O que você pode falar sobre o movimento? Está surtindo efeito?

Está surtindo muitos efeitos. A gente não está garantindo que as empresas não vão demitir, a gente está garantindo que a gente não permita neste momento. E o governo colocou condições trabalhistas para que as pessoas possam não demitir por três meses. Então, assim, a gente pode fazer um acordo com o funcionário, botar ele 70% de folga, até R$ 3 mil por mês o governo completa como seguro-desemprego, pode por 30%, pode por 100%, que a gente vê como vai fazer. Tem muitas leis que foram criadas agora para isso acontecer.

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Agora, depois eu não posso garantir. O que a gente fez no Magazine Luiza. A gente tinha muitos funcionários em experiência. Esses nós não admitimos, não ficamos com quem estava em experiência, assim mesmo demos R$ 1 mil para cada um. Os demais a gente não demitiu. Nós estamos trabalhando muito, mas não sei o que vai acontecer daqui a 120 dias, ninguém sabe o que vai acontecer. Imagina uma pessoa reclusa em casa, e já demitida.

Por outro lado, a pessoa fala: “Luiza, não tenho dinheiro para pagar!”. Agora, o governo está ajudando. Vamos fazer esse dinheiro chegar até as pessoas que precisam. Tem que chegar.

Em entrevista publicada por “Exame”, a senhora citou que em um trecho que a pandemia força empresas a evoluir 20 anos em 20 dias. Os empresários e os negócios brasileiros estão preparados para essa evolução em meio à crise?

A gente gosta muito de falar mal do Brasil, mas o Brasil é um país muito criativo, muito empreendedor, uma indústria não sucateada. O Brasil tem tudo para vencer. Precisa ter autoestima. Por exemplo, estamos enfrentando a pandemia com muito gabarito. O estado de São Paulo tomou medidas certas, porque é onde está o cerne da questão.

O mais bonito foi a questão da cultura da doação. Ela entrou. E depois disso a gente vai ter que trabalhar a desigualdade social. A desigualdade social não é uma coisa só do governo, é de todos nós. A gente não pode agora... você, eu, estamos em casa, num ambiente mais confortável, mas tem gente que está no sertão, que não tem água, não tem nada. E tem gente que está na cidade sem rede de esgoto ainda, porque nós temos mais de 100 milhões de brasileiros que não têm rede de esgoto.

A gente tem que parar de falar mal, de ficar só cobrando o governo, e estar junto. Junto para ajudar a fazer, junto para ajudar a chegar, e pensando no Brasil como um todo.

O que a gente pode tirar de lição da pandemia?

Acho que podemos tirar a solidariedade. Porque você vê muitas pessoas se cumprimentando nos prédios, por exemplo. Muitas vezes, nem no elevador se cumprimentavam, e agora cantam juntos, cantam parabéns... Essa forma que estão se relacionando, é uma forma que as pessoas tiveram, foram obrigadas a olhar para dentro, resgatar valores que valiam mesmo.

Mulher, filha, mãe, avó, empresária... Como você lida como cada uma dessas “Luizas” no dia a dia? Elas se complementam? A “Luiza mãe” ajuda a “Luiza empresária” a tomar decisões?

A vida toda, nunca me dividi dentro de min. Sempre fui uma pessoa só. O jeito que você me vê na empresa, você me vê em casa, me vê como mãe... Não mudo os “caps”. Agora sou empresária, agora sou mãe... Sempre lutei muito para não perder essa essência minha, uma menina do interior, uma pessoa de jeito simples. Não sou várias pessoas ao mesmo tempo, sou uma pessoa só. Lógico que quando estou falando de negócios, estou falando de negócio. Mas falando do meu jeito, da minha forma.

Estava ainda há pouco na Band, falando sobre uma polêmica grande, eu entrei com a minha forma, uma forma agregadora, neste momento que a gente tem que unir todos. Não adianta tomar partido e ficar um falando mal do outro. O momento é muito sério, é muito grave o que está acontecendo. O que um vírus fez no mundo inteiro.

A gente está vendo os EUA, que é uma potência, se render perante um vírus. Vimos a Inglaterra, a Alemanha... todo mundo teve que se render perante a esse vírus. A gente tem que ter muita humildade e sabedoria para não ficar dando diagnóstico, soltando esses fake news, e um falando mal do outro nas redes sociais, e ficar tomando partido.

Vamos pra frente, minha gente. Tudo passa, mas nós precisamos estar unidos neste momento para poder sair disso melhor.

A trajetória da senhora no comando da empresa mostra uma relação próxima com o público e o funcionário, assim como muita inovação e momentos de superação. O que você pode dizer para o empreendedor que está passando por esse momento de crise e que nos lê?

Passei por todas as crises recentes, Collor, energia... nenhuma tão grave como essa, mas eu cresci na crise. Há pouco, estava conversando com um empresário que num primeiro momento estava dizendo: “Nossa, Luiza, como que vou fazer?”. Falei: “Busque alternativa”. Ele é dono de um restaurante, criou um delivery, resolveu começar a vender outras coisas junto, que ele me disse que conseguiu superar (as dificuldades) depois que largou de por culpados e resolveu voltar para a empresa dele e ver. É um momento de renovação.

Mesmo que não dê certo, tente se renovar agora. Faça aquilo que já devia ter feito e não fez. Não culpe a crise pelas suas incompetências também, vê onde você poderia ter sido melhor. Sem culpa, sem nada. Foi assim que vi sempre o magazine. Fui mais empresária da crise do que fora da crise. Vivi tantas crises na minha vida, que o povo espirrava lá fora, e o Brasil ia para a UTI. Inflação de 100% e tudo mais, e a gente venceu.

Sempre busquei soluções e não culpados. Nesse momento o culpado é um vírus. Vamos buscar solução, conseguir nos unir, parar de ficar falando um do outro. Esquece partido, esquece para quem você votou, vamos agora lutar para dar certo.

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