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"Tratada como um animal": mulher relata maus-tratos e abuso em casa de abrigo em Florianópolis

De acordo com a vítima, que não quis ser identificada, a coordenadora do local era a responsável pelos preconceitos que envolviam racismo, gritos, acusações e ameaças

12/05/2022 - 05h00 - Atualizada em: 12/05/2022 - 09h29

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Diane
Por Diane Bikel
MPSC está investigando o caso
MPSC está investigando o caso
(Foto: )

O que seria uma casa de acolhimento para mulheres em situação de rua e vítimas de violência em Florianópolis tornou-se um lugar de medo e angústia, de acordo com as moradoras do local. Elas relatam casos de maus-tratos e possíveis abusos psicológicos, inclusive aos filhos delas, que residem de passagem no espaço. O Ministério Público de Santa Catarina investiga o caso.

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Júlia*, uma das oito mulheres que teriam sofrido maus-tratos, contou ao Diário Catarinense que as agressões envolveriam racismo, gritos, acusações e ameaças. Ela destacou ainda que o comportamento é específico da coordenadora da casa - não envolvendo outros funcionários.

— A gente era tratada como um animal, como se a gente só precisasse comer e pronto — contou Júlia.

Segundo ela, a coordenadora do espaço se dirigia com educação apenas a mulheres brancas, "com mais estudos e sem filhos". 

— As crianças eram também maltratadas e não podiam brincar no local, mas sabe como é criança (...) Ela reclamava que eles comiam muito também. Sempre foi assim, há uma diferença grande no tratamento das pessoas, por exemplo, quem tem um pouco de estudo ou que é um pouco mais branca é tratada com respeito, não ajuda nos serviços. E nós éramos as culpadas de tudo — contou *Júlia.

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Júlia ficou na casa de abrigo por menos de seis meses e, neste momento, sente medo de receber novas ameaças caso seja identificada. Isso porque, segundo ela, quando houve as denúncias, a coordenadora fez uma reunião com todas as mulheres residentes, naquele momento, e as ameaçou caso viesse a descobrir quem a teria denunciado.

— Ela chegou a falar que iria bater na minha filha, uma criança, e jogava a culpa nela das coisas que aconteciam . Se eu não tivesse entrado, eu não sei o que poderia ter acontecido. As crianças já não queriam mais ficar lá — disse.

Procurada pela reportagem, a prefeitura de Florianópolis informou que "acompanha a investigação sobre omissão que vem sendo realizada pelo Ministério Público". "Já sobre a acusação de irregularidades na prática profissional pela qual está sendo investigada a servidora, a Prefeitura reitera que sempre apura situações desta natureza, e assim o fez no presente caso, respeitando todo o trâmite previsto pela legislação inerente ao assunto", completa o texto.

Em nota, a Polícia Civil informou que cinco testemunhas e a investigada já foram ouvidas. No depoimento, a coordenadora afirmou ser inocente, segundo a polícia. 

O MP disse, também em nota, que está acompanhando o caso e apura uma suposta omissão na apuração dos fatos pela prefeitura. O órgão solicitou documentos integrais administrativos e aguarda, no momento, a chegada deles para prosseguir com a análise. 

*Júlia é um nome fictício para preservar a identidade da vítima.

Confira a entrevista completo em que a vítima relatou a denúncia

Você ainda está no abrigo?

Eu já saí de lá tem três ou quatro meses.

Quais eram as coisas que aconteciam lá dentro?

Abusos psicológicos, né? A outra mulher mesmo, que era deficiente visual, sempre falava que chegaram a falar que ela era inútil, que tinha que fazer as coisas. Quem tinha filho era sempre mais discriminado. Falavam que eles comiam mais e sujavam mais [o abrigo]. Mas a gente via que era adulto que fazia isso, tinha gente que bebia, chegava a fazer xixi no chuveiro, essas coisas, e tudo isso falavam que quem fazia era quem tinha filho. A gente andava com eles praticamente na "cola". Sempre foi assim, as pessoas que têm um pouco mais de estudo, a pessoa que é mais branca, que tem diferença de cor, vamos dizer assim, eram mais bem tratada. E a gente era tratada como um animal, como se a gente só precisasse comer e mais nada. Ela [a coordenadora] falou que ia dar um tapa na cara da minha filha, uma criança. Se eu não tivesse entrado, não sei o que teria acontecido. Ai ela intimidou nós [as mulheres do abrigo] quando soube da denúncia. Disse que se ela descobrisse quem denunciou, iria processar porque nós estávamos erradas e falava assim: "Eu tô me formando em direito, eu vou processar quem fez isso". Nós éramos as culpadas de tudo. No quarto, ela ia lá, autoritária, abria a porta, nem batia e entrava como autoridade. As crianças dela tinham medo da coordenadora.

Como você se sente vendo tudo isso?

A gente espera respeito das pessoas que a gente convive. Ela cobrava por respeito, mas ela não se dava isso. Ela mesmo, fazia o que, panelinha com as pessoas, isso não existe em um abrigo.

E no dia-a-dia, como funcionava?

Fechava às 20h, aí depois desse horário não entrava mais. Aí a questão de ficar na casa, a gente podia ficar o dia inteiro lá. Tinha dias que a gente passava fora, porque as crianças não podiam brincar no quintal ou a gente voltava só pra comer, ninguém aguentava ficar lá porque as crianças não podiam fazer nada. E criança tem uma energia, né? Tinha criança que chorava pra ficar lá, elas ficavam frustradas. Já estava entediante ficar no quarto trancado sem fazer nada.

Eu sou sozinha, ai eu que tenho que trabalhar e cuidar dos meus filhos. Se não fosse isso, mas ela tem mais poder do que eu, eu não tenho nada, ela tá formando em Direito, né? Na casa já foram mulheres que sofreram abuso físico e mental, e ai vai lá e vai sofrer outra pressão? Elas precisam de apoio e atenção. Eu conheço uma mulher que tava lá e que sofreu violência, ai a coordenadora mandou ela sair. Aí ela arrumou um cara e tá com ele, mas graças a Deus, já pensou se fosse outro espancador? Eu achei muito errado isso daí. 

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