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    The New York Times

    Um gêmeo tecnológico para uma obra-prima renascentista

    Italianos irão usar "a maior impressora 3D do mundo" para fazer uma cópia exata da estátua de Michelangelo

    13/10/2020 - 14h32

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    Por The New York Times
    A obra "Davi", de Michelangelo, reside no museu em Florença desde 1873
    A obra "Davi", de Michelangelo, reside no museu em Florença desde 1873
    (Foto: )

    *Elisabetta Povoledo

    Nos últimos cinco séculos, o "Davi" de Michelangelo Buonarroti tem sido celebrado por sua perfeição escultural e sua personificação da beleza e da força juvenis.

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    Agora, autoridades da Itália querem que a escultura ajude a mostrar a mestria e a experiência de alta tecnologia desse país na era digital.

    Nos próximos meses, um grupo de engenheiros, técnicos, artesãos e restauradores italianos usará o que o coordenador do projeto descreveu como "as tecnologias mais avançadas disponíveis hoje" para imprimir em 3D uma cópia exata da estátua de 5,2 metros. A réplica será então a peça central do Pavilhão da Itália na próxima feira mundial, a Expo 2020 Dubai, que estava originalmente programada para começar agora, mas que foi adiada para outubro do ano que vem por causa da pandemia do coronavírus.

    "É uma tecnologia ligada à memória histórica, para a memória futura. História e inovação – esses são os temas que nos interessam", disse Paolo Glisenti, comissário-geral da Itália na exposição.

    Ele contou que empresas italianas vão trabalhar em todos os aspectos do projeto: "A promoção da competência científica e tecnológica italiana é parte da operação".

    Glisenti fez essa declaração na Galleria dell'Accademia, o museu de Florença, no qual "Davi" reside desde 1873, em um dos eventos promovidos na Itália para marcar um ano de preparação para a exposição.

    O "Davi" é sem dúvida a escultura renascentista mais famosa do mundo. Primeira estátua colossal feita depois da antiguidade, ela causou grande impacto assim que foi revelada em 1504. Em sua crônica da vida de Michelangelo escrita cerca de 50 anos depois, Giorgio Vasari a descreveu como uma obra de "proporção, beleza e excelência justas" que superou "todas as outras estátuas, atuais ou antigas".

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    Mesmo num ano em que o turismo em Florença foi prejudicado pelo coronavírus, a obra continua sendo um poderoso atrativo.

    "Essa estátua é meu departamento de marketing. Atrai visitantes, e nós os direcionamos para todas as outras coleções que são excepcionais e esplêndidas", disse Cecile Hollberg, diretora da Accademia, com uma risada.

    Camisa com a imagem de "Davi", de Michelangelo, mascando chiclete
    Camisa com a imagem de "Davi", de Michelangelo, mascando chiclete
    (Foto: )

    Embora não tenha saído do lugar por quase 150 anos, a escultura teve sua parcela de drama. Foi danificada. Foi disputada. Tem estado no centro de controvérsias de direitos autorais. Foi limpa em 2004 para seu 500º aniversário, em meio a uma disputa amarga. Inspirou outros artistas, e em 2012 uma cópia gigantesca viajou a Nova York. Mais recentemente, foi a estrela de uma videoinstalação com padrões de tecido.

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    Mas, acima de tudo, foi copiada. Repetidamente.

    É uma das poucas obras de arte a ter uma entrada na Wikipédia dedicada às suas réplicas, que enfeitam os lugares mais improváveis, como a entrada principal da Prefeitura de Montevidéu, no Uruguai; um parque comunitário em Queensland, na Austrália; e o centro de Sioux Falls, na Dakota do Sul.

    O molde em gesso da estátua no Museu Victoria e Albert, em Londres, atraiu visitantes desde que chegou lá em 1857.

    Até Florença tem duas réplicas. Uma delas, em mármore, foi colocada em 1910 em frente ao Palazzo Vecchio, a prefeitura de Florença, onde a obra original fora inaugurada. Há também uma cópia em bronze na Piazzale Michelangelo.

    O "Davi" impresso em 3D é a única cópia que o museu autorizou desde que Hollberg ganhou uma batalha de direitos autorais sobre a escultura em 2017. As inúmeras estátuas de plástico, os ímãs de geladeira e as camisetas coloridas que lotam as prateleiras de lojas de suvenires florentinas são tecnicamente ilegais. "Mas é difícil chegar ao fundo disso", observou ela.

    Vinte anos atrás, o departamento de computação gráfica da Universidade Stanford digitalizou o "Davi" e fez uma cópia 3D usando tecnologias de prototipagem rápida, que permitiam a produção de "réplicas precisas em escala reduzida", explicou por e-mail o líder do projeto, Marc Levoy, professor emérito de Ciência da Computação em Stanford.

    A reprodução italiana aproveitará os avanços tecnológicos surgidos desde o projeto de Stanford, disse Grazia Tucci, professora da Universidade de Florença que coordena a criação do que chamou de "gêmeo digital" da estátua.

    Usando scanners a laser e outros instrumentos "normalmente empregados na indústria, bem como na engenharia aeronáutica" para produzir a mais alta resolução possível, a escultura original será digitalizada (às segundas-feiras, quando o museu é fechado ao público), de acordo com Tucci.

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    Ela informou que os dados serão processados e depois usados para criar a reprodução com "a maior impressora 3D do mundo", ao lado de "materiais inovadores" e resinas, embora tenha preferido não especificar quais seriam usados. "Ainda estamos em fase de testes", afirmou ela.

    A estátua será então polida – por máquina a princípio, e com finalização manual – para a obtenção de uma superfície mais suave, e os restauradores vão adicionar os retoques finais, incluindo uma colorização, para que a cópia reflita as tonalidades do mármore e "para dar ao trabalho um aspecto agradável do ponto de vista estético", acrescentou Tucci.

    Uma cópia da escultura de Michelangelo na "Piazzale Michelangelo", em Florença
    Uma cópia da escultura de Michelangelo na "Piazzale Michelangelo", em Florença
    (Foto: )

    Toda a produção da estátua será narrada em vídeo e mostrada aos visitantes na exposição em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, contou Glisenti, e a réplica será colocada no centro do pavilhão de vários níveis da Itália, para que os visitantes possam vê-la de diferentes ângulos e alturas.

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    O processo criará dados que os técnicos entregarão à Accademia e que poderão se mostrar inestimáveis caso algo aconteça com o original. Essa possibilidade causou nova preocupação há vários anos, quando cientistas italianos publicaram um artigo afirmando que qualquer estresse causado a seus tornozelos já rachados poderia derrubar a obra-prima.

    Por enquanto, segundo Hollberg, os tornozelos estão indo bem. "Está tudo sob controle". Espera-se que a reprodução retorne à Itália assim que a exposição acabar, mas seu destino, por enquanto, é desconhecido. De alta tecnologia ou não, a cópia nunca corresponderá ao original, disse Hollberg. "O original está em Florença desde 1504. Uma cópia nunca vai durar tanto tempo".

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