A prisão não precisa de grades para ocorrer. Muitas vezes, ela acontece através do silêncio, do isolamento e do controle sutil. Foi dessa forma que a administradora Liliane Soraya Metzker se sentiu ao longo de 15 anos. Ela foi vítima de violência psicológica, um crime que não deixa hematomas na pele, mas marcas internas profundas. 

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Guiada por um roteiro tradicional em que mulheres precisavam encontrar um marido ainda jovens, Liliane se casou e saiu de casa aos 18 anos. Mas o relacionamento, que era considerado normal por ela, aos poucos, foi se transformando em manipulações, isolamentos e controle excessivo por parte do então marido. O ciúme do parceiro ditava as roupas, a maquiagem e até a cor das unhas. 

— No início era normal. Saía, ia a barzinhos, coisas assim. Depois de algum tempo começaram as restrições. Não podia ter amigos, não podia visitar os familiares. Não era uma coisa aberta, era bem velado. Aos poucos, as restrições foram se apertando e chegando ao ponto de eu não poder mais sair de casa nem pra comprar pão na padaria — descreve. 

De acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, Santa Catarina registrou o maior número de registros policiais referentes à ameaça no âmbito da violência doméstica e familiar contra a mulher em 2024. O estudo aponta que o Estado atingiu a marca de 1.699,4 casos para cada grupo de 100 mil mulheres, a maior taxa proporcional do país

O crime também é o mais registrado entre as ocorrências policiais de violência doméstica e familiar no Estado. Entre 2020 e 2025, de acordo com a Defensoria Pública, Santa Catarina registrou 204.539 casos de ameaças, uma média de 93,3 por dia e 3,89 por hora.   

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A psicóloga e professora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Andreia Isabel Giacomozzi, explica que a violência psicológica se manifesta através de comportamentos de controle que, infelizmente, a cultura ainda insiste em normalizar. 

— A gente precisa urgentemente separar o que é o cuidado, o querer ver o outro bem e crescer juntos […] do que é algo doentio e completamente fora da esfera do amor, que é o ciúme, a posse, a culpa, a chantagem emocional, o controle. Isso não tem nada a ver com amor — pontua. 

Para a psicóloga, esses abusos repetitivos na mente e na rotina da mulher são os primeiros sinais de que a relação caminha para um desfecho violento: 

Temos que pensar que o feminicídio é uma tragédia anunciada. Toda relação que é violenta e abusiva vai deixando sinais. 

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No caso de Liliane, o estopim para o rompimento surgiu quando as restrições começaram a atingir a filha do casal, então com 4 anos. O pai tentava impedir a menina de frequentar a escola e de brincar no parquinho com outras crianças. Porém, a virada de chave definitiva veio através da leitura. Ao encontrar um artigo na internet que narrava a história de um relacionamento altamente controlador, a administradora se enxergou naquelas linhas:  

— O  texto dizia que aquela moça tinha morrido, ainda que estivesse viva. E era assim que eu me sentia: morta em vida

Depois da separação, a administradora foi trabalhar em um abrigo de Florianópolis que atende mulheres vítimas de violência doméstica. Quando aceitou o emprego, Liliane buscava apenas a subsistência para si e para a filha. No entanto, o convívio com as acolhidas mostrou um espelho da própria história ao perceber que as dinâmicas de privação financeira e psicológica que testemunhava no trabalho eram exatamente as mesmas que havia sofrido em casa. 

—  O trabalho no abrigo me ensinou muito mais sobre mim do que sobre a violência que elas sofreram. Hoje eu posso dizer que eu me curei da violência que eu sofri atendendo e cuidando de outras mulheres. 

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A administradora precisou de anos de terapia para superar o pavor de invasão e as ameaças veladas deixadas pelo antigo relacionamento. Hoje, casada novamente em um vínculo saudável, transformou o trauma em uma missão de vida que ultrapassa as paredes das instituições de acolhimento:  

— Sair na rua e pegar sol, caminhar na calçada livre… Poder pegar o carro, entrar, ir para onde quiser, a hora que quiser, com os meus documentos e o meu batom na bolsa. Isso era impagável. Liberdade não tem preço.

Mulheres que ajudam outras mulheres

Larissa Chaine Bluem e Luana Geiss também são mulheres que dedicam a vida para ajudar pessoas que são vítimas de violência doméstica em Santa Catarina. As duas fazem parte do Instituto Bia Wachholz, um projeto que nasceu para honrar a memória e os sonhos da artista plástica que foi assassinada a tiros pelo ex-companheiro em 2018. Descrita por amigos como criativa, inteligente e profundamente ligada ao universo feminino, a jovem idealizava uma mentoria para apoiar mulheres em situação de vulnerabilidade. Um desejo que as amigas resolveram tirar do papel. 

—  A vida da Bia infelizmente se encerrou com esse feminicídio, mas a partir disso foi plantada uma sementinha — relata Larissa Chaiene Blum, coordenadora de comunicação do instituto.

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Atualmente, o espaço é mantido por uma força-tarefa de 15 a 20 mulheres voluntárias ativas, além de uma rede de parceiras profissionais, como psicólogas. O objetivo central é acolher mulheres que decidiram romper o ciclo da violência doméstica, oferecendo o que elas mais precisam para dar o primeiro passo: informação, acolhimento e perspectiva de futuro. 

— Muitas mulheres ficam tanto tempo dentro de um relacionamento abusivo que não sabem mais quem são, o que gostam ou quais habilidades possuem. As oficinas ajudam a resgatar essa identidade — explica Luana Geiss, presidente do Instituto. 

Feminicídio, um crime anunciado assassinatos por gênero criam surto de violência em SC (2)
Luana Geiss faz parte do Instituto Bia Wachholz (Foto: Josue Betim)

Mesmo com o impacto positivo na comunidade, ela assume que o trabalho é exaustivo. Diante de estatísticas que insistem em crescer, o sentimento de “trabalho de formiguinha” às vezes assusta. No entanto, a persistência contra a normalização dos crimes de gênero fala mais alto. 

— Os casos de feminicídio vêm para nos relembrar que existe uma situação muito violenta acontecendo. A cultura machista faz a sociedade normalizar ou esquecer essas mortes. Nosso papel é dar visibilidade para que ninguém esqueça que uma mulher foi morta simplesmente por ser mulher — pontua Luana Geiss. 

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Catarinas

Em Florianópolis, outra iniciativa surgiu para espalhar informações afim de coibir o assassinato de mulheres por razão de gênero por meio da arte. A junção do grupo de artistas plásticas não foi por acaso: a reunião ocorreu após o feminicídio de Catarina Kasten, em novembro de 2025, em uma praia da capital catarinense. 

A professora, de 31 anos, saiu de casa na Praia do Matadeiro para ir a uma aula de natação, na Praia da Armação, quando foi surpreendida por um desconhecido na pequena trilha que liga as duas localidades. Catarina foi estuprada e assassinada. O corpo dela foi encontrado no mesmo dia, em uma área de mata perto da trilha. O suspeito confessou o crime e foi preso

Quem era Catarina Kasten

Dias após o crime que chocou o país, o grupo de artistas se uniu, a pedido do companheiro de Catarina, para fazer artes e espalhar informações sobre a luta contra o feminicídio em Florianópolis. 

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— A gente começou retratando a figura da Catarina, mas a gente retrata mulheres, olhares, símbolos, que possam remeter a essa luta. É a nossa forma de poder gritar, poder escancarar [sobre o crime]: botando nas ruas — DIZ

A escolha do espaço público não é por acaso. Ao ocupar as ruas, o trabalho das artistas traz à tona o debate sobre a segurança das mulheres no próprio território onde elas vivem. 

— Até quando o homem vai achar que está nessa posição de superioridade da mulher e que pode fazer o que quiser com as nossas vidas? Até quando as mulheres vão se sentir com medo? Até quando as mulheres não vão se sentir acolhidas e com medo de andar na rua mesmo? 

Os impactos da “machosfera” e da explosão dos grupos redpill  

Além dos problemas arraigados na sociedade há séculos, a  violência contra a mulher enfrenta atualmente um combustível inédito: a articulação digital do ressentimento masculino. Conhecido como machosfera, o comportamento ocorre por meio de nichos na internet que reúnem grupos, como os Red Pills, dedicados à propagação de discursos misóginos e à rejeição dos direitos das mulheres

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Para a antropóloga Miriam Pillar Grossi, professora titular da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e pesquisadora da área de violência contra mulher há mais de 40 anos, a sociedade brasileira vive uma profunda contradição. 

— Se por um lado as mulheres estão se libertando da opressão e buscando igualdade, a gente vê alguns grupos de homens que são muito incentivados, sobretudo na internet, por comunidades como os Red Pill. Isso tem fortalecido uma reação masculinista contra a busca de igualdade — explica. 

De acordo com a antropóloga, o ambiente virtual atua como uma caixa de ressonância. Alimentados por algoritmos que distribuem discursos de ódio para públicos específicos, adolescentes e jovens adultos encontram nas comunidades virtuais um sentimento de pertencimento e validação para suas próprias inseguranças.

— São muito poucos os homens que podem cumprir esse papel tradicional de provedor. Os psicólogos têm estudado isso: muitos jovens se sentem diminuídos, sentem que não são suficientemente homens porque não conseguem sustentar uma família sozinhos — exemplifica. 

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Para a  psicóloga Andreia Isabel Giacomozzi, não se trata de uma luta de homens contra mulheres e sim a busca de direitos iguais:  

—  Eu acho que isso é uma coisa importante de deixar claro: quando as mulheres ganham direitos, todo mundo está ganhando. Elas não estão avançando sobre os homens, são direitos de igualdade. Então eu costumo pensar que não é uma luta de mulheres contra homens, é uma luta de homens e mulheres contra um sistema que não está funcionando. Esse sistema patriarcal que a gente tem que autoriza os homens a invadirem e a serem violentos com as mulheres, e que mata homens e mulheres — pontua. 

Miriam Grossi defende que o controle social e o marco legal da internet são fundamentais para impedir que comunidades que destilam ódio contra minorias continuem cooptando jovens por meio de algoritmos. A especialista também afirma que a mudança começa ainda na escola. 

— É na escola que precisamos implantar políticas para educar para a equidade e desconstruir os papéis tradicionais de gênero. Uma política que impede que se eduque as crianças para uma sociedade não violenta vai exatamente no oposto do que precisamos para transformar o mundo — conclui a pesquisadora. 

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O debate sobre questões de gênero nas escolas e nas famílias também é defendido pela juíza Naiara Brancher, do Tribunal de Justiça de Santa Catarina. A magistrada argumenta que professores devem falar nas salas de aula sobre igualdade e educação sexual.  

— E falar desde criança. Não é só conversar com os adolescentes. Quando a gente chega para conversar com os jovens, a gente já está chegando tarde — destaca. 

Em Santa Catarina, segundo o relatório “A Violência Contra Mulher”, divulgado pela Defensoria Pública em maio de 2026, a maioria dos feminicídios no Estado registrados entre entre 2020 e 2025 ocorreu dentro da própria residência da vítima (82,6%). Para a delegada Patrícia Zimmermann, coordenadora das Delegacias de Proteção à Criança, Adolescentes, Mulher e Idosos do Estado (Dpcami), os dados mostram que também é preciso mudar as relações nesses espaços. 

—  A gente ainda tem famílias em que é natural chegar em casa, não gostar do almoço e agredir a esposa ou jogar o prato de comida na parede. A gente ainda tem famílias que o pai ensina o filho a ser agressivo com a filha por que ele é macho e o macho tem que agir dessa maneira. Enquanto isso não for resolvido, o feminicídio não se resolve — pontua. 

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A desconstrução do machismo estrutural exige ações coordenadas em diferentes prazos, conforme detalha a psicóloga Andreia Isabel Giacomozzi. A estratégia imediata foca em levantar o debate público e o diálogo, permitindo que mulheres, assistindo ou lendo sobre o tema, se identifiquem como vítimas e busquem apoio. A médio prazo, a urgência está na estruturação de uma rede de serviços realmente articulada, com abrigos e delegacias operando inclusive aos finais de semana e contando com profissionais treinados que acolham a palavra da mulher sem desconfianças

— Longo prazo eu vejo que é trabalhar nas escolas, trabalhar com as crianças na necessidade de respeito, de saber colocar limites no outro com diálogo — conclui. 

SC lança Plano Estadual de Combate à Violência contra as mulheres 

O governo de Santa Catarina lançou em agosto de ano passado o Plano Estadual de Combate à Violência Contra as Mulheres. O documento, baseado em cinco eixos, prevê ações como a abertura de novas delegacias, ampliação do horário de atendimento nas unidades já existentes e a inclusão de conteúdos sobre o tema nos currículos da educação básica. As medidas têm previsão de serem implantadas em até 10 anos, ou seja, até 2035.

Os cinco eixos do Plano Estadual de Combate à Violência Contra as Mulheres são: a prevenção e educação; o atendimento e proteção às mulheres em situação de violência; a responsabilização e reeducação dos agressores; o monitoramento produção de dados e avaliação e a governança e gestão interinstitucional. 

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Maria da Penha completa 20 anos: os avanços das políticas públicas no Brasil 

Sancionada em agosto de 2006 pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), a Lei 11.340  é considerada um dos principais mecanismos para prevenir, punir e erradicar a violência doméstica e familiar contra a mulher no Brasil. O texto, que tipificou a violência em cinco formas, mudou a forma como o estado brasileiro lida com esses casos através de medidas práticas. De acordo com a juíza Naiara Brancher, a legislação está entre as melhores do mundo .

— A Lei Maria da Penha está completando 20 anos e é um instrumento extremamente potente, que previne e protege vidas e mulheres — diz. 

Ao longo dos últimos 20 anos, o Brasil registrou avanços significativos em políticas públicas que buscam coibir o avanço da violência contra mulher no Brasil. A última novidade foi em maio deste ano, com a criação do Cadastro Nacional dos Agressores, que vai reunir dados de condenados por feminicídio, estupro, assédio sexual, lesão corporal, perseguição (stalking), violência psicológica e registro não autorizado de intimidade sexual. O objetivo é facilitar a localização de criminosos foragidos e prevenir a reincidência, especialmente quando o agressor muda de estado.

Outra conquista foi celebrada em abril com a sanção da lei que obriga agressões de mulheres a usarem tornozeleira eletrônica de monitoramento de forma imediata. O texto também aumenta a penalidade por descumprimento de medidas protetivas, aperfeiçoa as campanhas de enfrentamento à violência contra a mulher e torna permanente o programa de monitoramento eletrônico e de acompanhamento de mulheres em situação de violência.

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 As formas de violência, segundo a Lei Maria da Penha 

  • Violência Física: qualquer conduta que ofenda a integridade ou a saúde corporal da mulher (bater, chutar, empurrar, queimar).
  • Violência Psicológica: qualquer ação que cause dano emocional, diminuição da autoestima ou que vise controlar as ações, comportamentos e decisões da mulher (humilhação, ameaças, isolamento, vigilância constante).
  • Violência Sexual: forçar a mulher a presenciar, a manter ou a participar de relação sexual não desejada, mediante intimidação, ameaça ou coação (incluindo no casamento).
  • Violência Patrimonial: configura-se pela retenção, subtração ou destruição (parcial ou total) de objetos da mulher, instrumentos de trabalho, documentos pessoais ou bens.Violência Moral: entendida como qualquer conduta que configure calúnia, difamação ou injúria (como espalhar boatos ou xingar a mulher publicamente)

Até Quando? Feminicídios: uma tragédia social

Até Quando? Feminicídios: uma tragédia social” é uma série especial com quatro reportagens produzida pela NSC. Os conteúdos, apurado ao longo de quatro meses, tem objetivo de provocar reflexão e contribuir para o enfrentamento da violência contra a mulher. Ao dar voz a vítimas, familiares e especialistas, a série busca não apenas informar, mas sensibilizar a sociedade e contribuir para a construção de caminhos que ajudem a interromper o ciclo da violência.

*Os nomes foram modificados para preservar a identidade da vítima.