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UTIs lotadas e crianças na fila de espera expõem cenário caótico em hospitais de SC

Morte de bebê de dois meses à espera de leito traz à tona sobrecarga da rede pública em meio a aumento de casos de doenças respiratórias

18/06/2022 - 05h00

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Luana
Por Luana Amorim
Diane
Por Diane Bikel
Lara foi diagnosticada com bronquiolite no ano passado
Lara foi diagnosticada com bronquiolite no ano passado
(Foto: )

“Eu estava vendo minha filha ir embora na minha frente e eu não pude fazer nada”. Este é o relato de Samara Ester dos Santos, mãe da pequena Maria Sofia, de dois meses, que morreu na enfermaria do Hospital Infantil Joana de Gusmão, em Florianópolis, no sábado (11) enquanto aguardava uma vaga de UTI. Um episódio que expõe a situação caótica que hospitais catarinenses vivem há pelo menos dois meses: corredores lotados de crianças com doenças respiratórias e filas de espera, antes mesmo da chegada do inverno. 

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Na quarta-feira (15), por exemplo, 93,94% das vagas de UTIs pediátricas estavam ocupadas no Estado: dos 99 leitos disponíveis, 96 estão ocupados. Enquanto isso, nove crianças esperavam por um leito - oito com doenças respiratórias. O Sul e a Serra catarinense são as regiões com o maior número de pacientes. 

O caos na saúde fez o governo de Santa Catarina decretar situação de emergência por 90 dias. A Secretaria de Estado de Saúde (SES), inclusive, anunciou a abertura de novos leitos para tentar suprir a demanda, que se torna cada vez mais carregada. Enquanto isso, médicos, exaustos, tentam de todas as formas salvar vidas. 

— Desde o primeiro momento eles [os médicos] disseram que não tinha onde enfiar. Ela morreu na emergência. Quando conseguiram vaga, ela já tinha falecido — desabafa a mãe da pequena Sofia. 

“Desculpa, a gente não tinha mais o que fazer" 

A voz ainda traz a dor de uma mãe que viu a filha de dois meses morrer em um hospital. Diagnosticada com bronquiolite, a criança foi internada pela primeira vez no início de maio, onde ficou por cerca de 13 dias. Segundo a mãe, a filha teria ganhado alta devido à superlotação do hospital. Procurada pela reportagem, a SES não repassou informações sobre o caso.

Em casa, os sintomas da pequena Sofia pioraram e ela retornou ao hospital. De acordo com Samara, a menina foi enviada à emergência com um quadro de pneumonia. Ela chegou a receber atendimento similar aos de uma unidade de terapia intensiva, segundo a mãe, mas sem os aparelhos e suportes que seriam necessários para o tratamento. 

— Na sexta-feira (10) de manhã a médica me disse que um pulmão da Sofia já estava fechado e eles não tinham onde colocar ela. Os médicos que a atenderam antes de ela falecer ficaram comigo até o fim. As enfermeiras choraram comigo pedindo desculpas, eles [os médicos] estão sem suporte. Para fazer reanimação da Sofia, por exemplo, não tinha aparelho, se viraram em mil. Elas falaram: "Mãe, desculpa, a gente não tinha mais o que fazer" — diz.

Em nota, a SES descarta que a morte da criança tenha relação com a falta de vagas. No entanto, informa que abriu sindicância para apurar os fatos. O Ministério Público de Santa Catarina (MPSC) também investiga a situação. 

> Criança que morreu à espera de UTI em SC ficou dois dias na fila, diz mãe: "Desesperador"

Retomada das atividades pode explicar aumento de doenças respiratórias

O diagnóstico de bronquiolite também deu positivo para Lara, filha da jornalista Bruna Coelho, de São José. A menina, de um ano e dois meses, foi internada com a doença no ano passado, após uma crise de tosse. 

— Ela começou com uma tosse, que começou nesse período de frio. Ela ficou internada na emergência, teve piora e foi transferida para a UTI. Depois dessa primeira crise, ela teve que fazer o uso da bombinha de asma, para prevenir — conta. 

A criança teve ainda outras crises após o episódio — em média, uma por mês. Em muitas, Bruna teve que correr com a menina para o hospital, onde por várias vezes teve que aguardar por uma vaga, conta.

— Apesar dos profissionais capacitados, nós sabemos que ao chegar lá [no hospital] vai ter crianças em várias situações. Você pensa duas vezes antes de levar [ao hospital]. Porque quando chegar lá, vou ficar o dia todo para ser atendido, porque não tem vaga. Então vou expor ainda mais [a criança] — complementa.

Lara ficou internada no hospital após crise de tosse
Lara ficou internada no hospital após crise de tosse
(Foto: )

A lotação dos hospitais é um cenário que assusta. O Ministério Público de Santa Catarina informou que, desde abril, tem recebido relatos de falta de leitos de UTIs pediátricos na rede pública do Estado. Um cenário inimaginável há um ano, quando, no auge da pandemia da Covid-19, o problema estava na internação dos adultos. Em 15 de junho de 2021, por exemplo, a taxa de ocupação era de 96,60%, com 60 pessoas à espera de uma vaga. 

Mas o que explica o aumento repentino das doenças respiratórias em pleno outono? Para especialistas, há duas explicações: o frio e o retorno à normalidade das atividades. Isto porque, diferente do último ano, as máscaras eram um equipamento obrigatório, que garantia a proteção não só do coronavírus, mas também de outros vírus respiratórios. 

— O clima frio favorece as infecções respiratórias. As pessoas ficam mais próximas, o que facilita a transmissão. E com esse retorno das atividades, não deixa de ser uma forma de contato entre as pessoas, principalmente nas escolas — explica o infectologista e professor no curso de Medicina da Univille Tarcisio Crocomo. 

A médica pediátrica Marcela Braz diz que o número elevado de casos já era esperado pelos profissionais no período pós-pandemia. 

— As crianças ficaram muito tempo confinadas. Não houve aquela troca que temos ao longo dos anos e que acaba ajustando o sistema imunológico das crianças — diz. 

Queda na vacinação também contribuiu para aumento de casos 

Especialistas também relacionam outro fator ao aumento nos casos de doenças respiratórias: a queda nas taxas de vacinação de crianças. A imunização contra a H1N1, por exemplo, está em 43,34% em crianças a partir de seis meses - a meta é vacinar 90% da população nesta faixa etária. 

— Quando não se tem a vacina, há os casos graves. Se você tem a vacina, a doença pode evoluir para um resfriado, a pessoa não vai ficar internada. A vacina existe e é segura. Não pode ter dúvidas — pontua Marcela. 

O governador Carlos Moisés (Republicanos) chegou a fazer um apelo para que a população busque pelos imunizantes, para evitar um colapso dos sistemas de saúde que, há dois anos, já vivem a sobrecarga por conta das doenças respiratórias. 

“Novos casos de doenças respiratórias estão lotando hospitais e sobrecarregando o sistema. Em dois anos de pandemia, o Governo mais que dobrou o número de leitos na rede pública, estamos abrindo mais 82, e não tem sido suficiente diante da demanda. Vamos nos prevenir, nos cuidar e proteger quem está à nossa volta, principalmente crianças e idosos. Se você ainda não tomou as vacinas, procure um posto de saúde e faça a sua imunização”, enfatiza o comunicado. 

— É importante fortalecer o sistema de saúde e estimular as pessoas para que se protejam. Os profissionais estão sobrecarregados, mas é preciso um cuidado com a população — complementa o infectologista Tarcisio Crocomo. 

> Morte de criança no Infantil sem UTI em SC é tragédia anunciada

SC deve abrir mais 82 leitos de UTI 

Para tentar suprir a demanda, a SES pretende nas próximas semanas abrir novos leitos de UTI neonatal e pediátricos. A previsão é de que 82 vagas sejam criadas - 71 de UTIs e 11 de retaguarda.

— A ideia é de que nas próximas semanas, até o início de julho, nós tenhamos atingido mais da metade dos leitos — afirmou o secretário-adjunto de Saúde de Santa Catarina, Alexandre Fagundes em entrevista à CBN Floripa. 

A ativação dos leitos será custeada por parte dos R$ 40 milhões previstos em um recente pacote de ações. O recurso está atrelado ao decreto de situação de emergência em vigor no Estado desde 3 de junho, por conta do surto de doenças respiratórias e de dengue em Santa Catarina.

O pedido para o reforço na rede pública de saúde também foi feito pela Sociedade Catarinense de Pediatria. Em documento, assinado em 3 de junho, o órgão pede que o Estado faça investimentos a curto, médio e longo prazos para a abertura de novos leitos pediátricos em todo o Estado, além da garantia de profissionais no atendimento da rede básica de saúde. 

Cuidados seguem sendo fundamentais 

Higienizar as mãos, etiqueta da tosse, máscaras. Conceitos básicos da pandemia, mas que são ótimos aliados na prevenção das doenças respiratórias. Medidas simples que, em muitos casos, podem salvar vidas. 

— Nós precisamos manter o que aprendemos na pandemia: higiene nas mãos, usar e abusar do álcool em gel, alimentação saudável e carteira de vacinação em dia. Atitudes que ajudam na prevenção das doenças — pontua a médica Marcela Braz. 

Práticas, essas que já vem sendo adotadas por Bruna Coelho: 

— O que geralmente adotamos é dar banho [no filho mais velho] assim que ele chega na escola. Mas ainda assim, de vez em quando ele está resfriado. Nós tomamos o cuidado que conseguimos, mas às vezes é bem complicado. 

Confira as medidas de prevenção

  • Evite espaços mal ventilados e aglomerações
  • Mantenha distanciamento físico
  • Lave as mãos frequentemente com água e sabão ou álcool gel 70%
  • Pratique a etiqueta da tosse cobrindo o rosto com o antebraço ao tossir ou espirrar 
  • Evite frequentar ambientes coletivos em especial salas de aula se estiver com sintomas respiratórios e usar máscara de forma adequada cobrindo o nariz e a boca sempre que estiver num ambiente público
  • Alimentação saudável
  • Prática de atividade física e a ingestão de líquidos ajuda a manter o sistema imunológico ativo
  • Se estiver com sintomas gripais como febre, tosse, coriza, congestão nasal, dor de garganta entre outros, procure um serviço de saúde para diagnóstico e tratamento
  • Use máscara e evite circular em espaços públicos enquanto permanecer sintomático

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