Uma bolsa carregada de livros ao lado de uma poltrona confortável e um leitor apaixonado. A cena, comum entre os dias 21 e 31 de maio no Festival Literário de Santa Catarina, em Joinville, poderia passar despercebida, mas quem surpreende é o personagem: Valter Hugo Mãe. Um dos mais consagrados autores da língua portuguesa no mundo, fecha as páginas e cumprimenta com o olhar atento.
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Em entrevista exclusiva ao NSC Total, o autor detalha como as experiências da vida moldam suas obras, bem como os lugares e o próprio Brasil, país que se tornou uma espécie de casa do coração. Sem deixar de lado a poética profunda, Valter encontra espaços entre as perguntas para dar risada e brincar sobre como é preciso nunca deixar de se rebelar contra o mundo.
— Já estive aqui algumas vezes, mas esta é a primeira vez no Sul. Me parece que venho para colecionar histórias. Vir para o Brasil é como visitar uma casa, uma casa diferente, mas muito pertença — enfatiza.
Nascido em Angola e criado em Portugal, Valter Hugo Mãe considera a proximidade com as “águas de cá” um marco desde a infância. Ele relata o encanto por Chico Buarque, Caetano, Bethânia, Gilberto Gil e até pela expressividade das novelas brasileiras que via com a irmã:
— Tive a oportunidade de viver um encantamento por muitos artistas. Tem muito na minha escrita de Machado de Assis, Eça de Queiroz, João Cabral de Melo Neto, Carlos Drummond, Ferreira Gullar e, claro, Clarice Lispector. Ainda vivo, na verdade.
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Questionado pelos segredos da sua estante e o que há de literatura brasileira contemporânea em sua biblioteca particular, Valter enfatiza:
— Há muito de novidade no que eu leio, estou sempre a ler. Encontro novos autores quando venho ao Brasil, autores que se tornam amigos e aprendo com eles. Adélia Prado, Aline Bei, Tino Freitas e muitos outros.
A influência da cultura brasileira
Como Valter Hugo, muitos portugueses são influenciados pela cultura brasileira. Em relatos nas redes sociais, usuários apontam que a “brasilidade” tem dominado espaços europeus já afetando, inclusive, a língua. O fenômeno é apontado como fruto do crescimento migratório — havia 360 mil brasileiros em Portugal em 2022, segundo o Itamaraty — e da ascensão de conteúdos online produzidos por influenciadores brasileiros.
— A presença destes influencers e de uma mudança no português europeu já acontece. Vemos crianças e adolescentes acompanhando. O Brasil é um país muito grande, o seu português é muito vivo, há tantos jeitos de falar. Quando quiseres, o português brasileiro irá deglutinar o europeu — brinca sorrindo.
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A força do “tsunami linguístico” de Valter, como definiu José Saramago ao premiá-lo em 2007, por O Remorso de Baltazar Serapião, ganha mais vividez quando questionado sobre o espaço do livro em meio a tantas mudanças digitais:
— O digital proporciona entrar em contato com mais autores, mas ter diversos livros em um ecrã não faz um leitor. Todos temos diversas músicas em playlists, mas ainda vamos a shows, apreciamos concertos. O livro é essa coisa orgânica que não morre, é o espaço da subversão sem pudor. Nele tudo precisa ser dito e sentido, é preciso escrever com verdade, não pelo leitor, mas pelo sentimento que um bom livro desperta.
A paixão pela verdade na escrita talvez seja um dos motivos para Valter colecionar tantos prêmios importantes em sua biografia, como o Portugal Telecom (2012). Ele também foi finalista no Oceanos – Prêmio de Literatura em Língua Portuguesa, em 2015. Além disso, atrai a admiração do público e da crítica nas páginas e em adaptações para as telas, como “O filho de mil homens”, disponível na Netflix.
— Em tudo um esforço é gerado e o leitor verdadeiro é aquele que coleciona as histórias, entra em um estado de ser despertado por elas. Estou sempre a escrever por isso. Quero que o leitor sinta ao menos o que eu sinto quando escuto uma canção, sinta quase a supressão de tudo que é efetivamente nosso, quase transcenda.
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O autor, que fala como escreve e transforma respostas em pequenas narrativas íntimas, não deixa de construir poemas.
— Apesar desse externo de burguês, eu sou punk. Escuto punk desde a adolescência, acredito que é preciso ser mais rebelde, se não a gente vive igual todo mundo e pensa como todos. Seguir a vida direito não permite espaço pra criatividade. — finaliza Valter Hugo Mãe, sorrindo.
Saiba mais sobre o autor
O romancista português Valter Hugo Mãe é autor de diversas obras premiadas como “O remorso de Baltazar Serpião”, “A máquina de fazer espanhóis” e o recém-adaptado “O filho de mil homens”, disponível na Netflix.
Sua escrita se destaca pela variedade de temáticas, que podem falar dos pequenos detalhes do cotidiano, dos problemas contemporâneos enfrentados por países como Brasil e Portugal ou de paisagens distantes como a Islândia. O autor é reconhecido por combinar prosa apurada e histórias marcadas pela emoção.
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Valter Hugo Mãe conversa com os leitores neste sábado (23) às 17h30min, no Palco Entrelinhas. A mediação acontece por Berenice Garcia, da Univille.
Festival Literário de Santa Catarina
O Festival Literário de Santa Catarina surge a partir da evolução da tradicional Feira do Livro de Joinville. Neste ano, o Festival reúne uma programação com literatura, cinema, música e outras artes.
Confira a agenda completa de autores, palestrantes e atrações no site oficial.




