A vice-reitora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Joana Célia dos Passos, renunciou ao cargo na tarde desta quarta-feira (18). Em nota enviada ao NSC Total, a professora citou, entre os principais motivos para a renúncia, a postura do reitor Irineu Manoel de Souza diante da crise orçamentária, apontando falta de articulação política em Brasília para buscar mais recursos e defender a universidade. Além disso, apontou uma ausência de apoio durante episódios de violência política de gênero sofridos por ela durante o mandato.

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A reitoria da universidade federal, no entanto, discorda das acusações e afirma que a decisão da professora está relacionada a um convite para assumir um cargo no governo federal. (leia as notas na íntegra abaixo)

A renúncia foi anunciada na noite desta quarta-feira pela administração central da universidade. Em nota, a instituição disse que reconhece o período em que Joana esteve à frente da vice-reitoria e que os “encaminhamentos administrativos decorrentes da decisão serão realizados nos termos da legislação vigente”. Procurada, a reitoria informou que caberá ao Conselho Universitário aprovar um docente para completar o mandato, e que, no prazo de até 60 dias, deverá ser escolhido o novo titular.

Irineu Manoel de Souza foi eleito reitor da UFSC em consulta informal realizada no fim de abril de 2022. A posse ocorreu em julho daquele ano e, por isso, o mandato deve se encerrar no mesmo mês, em 2026.

Na época, ele e Joana Célia dos Passos foram os candidatos mais votados pela comunidade universitária.

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Em carta de renúncia, vice-reitora cita “omissão” de reitor

Na carta, Joana afirma que a gestão se afastou do projeto eleito em 2022 e critica a “sistemática centralização das decisões”, que teria levado à sua exclusão da condução administrativa. Ela também relata que a violência política de gênero permeou seu período no cargo, e aponta o “silêncio do reitor” diante de ataques como reflexo de uma “cultura que restringe o espaço de mulheres na liderança”.

Joana dos Passos foi a primeira mulher negra a ocupar o cargo de vice-reitora na UFSC, instituição que completou 65 anos no ano passado. A universidade teve, em toda a história, 13 reitores: 12 homens e uma mulher, que foi empossada em 2012, quando a instituição já tinha 51 anos de história. Nenhum deles era negro. Entre os vice-reitores, a situação se repete.

Outro ponto central apontado por ela na carta de renúncia é a crise orçamentária enfrentada pela universidade. As universidades federais no Brasil tiveram corte de cerca de R$ 488 milhões no orçamento discricionário previsto para 2026, o que representa uma redução de aproximadamente 7,05% nos recursos que cobrem despesas básicas como água, luz, manutenção, pesquisa e bolsas em relação ao que estava inicialmente previsto pelo governo e ao que foi executado em 2025.

Esse valor total aprovado no Congresso para 2026 ficou menor do que os recursos disponíveis no ano anterior, mesmo antes de considerar a inflação, e foi visto pelas reitorias como insuficiente para o funcionamento regular das instituições. Na UFSC, já há relatos de que a universidade tem adiado o pagamento de contas de água e energia à espera de recursos. O orçamento para custeio de 2026 é inferior ao de 2025, o que prenuncia dificuldades até para despesas essenciais, cenário que a própria vice-reitora menciona como resultado da falta de articulação política junto ao MEC e ao Congresso.

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Apesar das críticas, Joana destaca na carta alguns avanços da gestão, como políticas de igualdade, ampliação de bolsas e incentivo à cultura e à pesquisa, mas afirma que a universidade precisa retomar um projeto com mais “competência administrativa” e compromisso com a “dignidade humana”.

Nas redes sociais, também publicou um posicionamento destinado aos estudantes e servidores da universidade. Assista:

Reitor Irineu discorda das acusações

Procurado pelo NSC Total, o gabinete da reitoria disse, por nota, que o reitor Irineu discorda das acusações feitas por Joana, “por não refletirem o conjunto de ações, princípios e resultados do trabalho desenvolvido pela nossa gestão”.

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O reitor afirmou, ainda, que a saída de Joana Célia dos Passos da vice-reitoria da UFSC estaria relacionada a um convite do governo federal. Segundo a nota, a motivação para a renúncia teria sido o recebimento do Ofício SEI nº 982/2026/MULHERES, enviado em 13 de fevereiro, que solicita a cessão da professora para assumir o cargo de Secretária Nacional de Autonomia Econômica e Política de Cuidados no Ministério das Mulheres.

Ou seja, de acordo com a reitoria, a renúncia ao cargo de vice-reitora estaria vinculada à possibilidade de ela assumir uma função no ministério, em Brasília.

A nota acrescenta ainda que, ao receber o pedido de renúncia, o reitor informou que respeitava a decisão e que seriam feitos os encaminhamentos institucionais necessários à dispensa do cargo.

Leia na íntegra a carta de renúncia da vice-reitora

À Comunidade Universitária da UFSC,
Ao Conselho Universitário,
Ao reitor.

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Colegas:

Em uma sessão histórica que derrotou os adversários da democracia na UFSC no dia 2 de maio de 2022, este Egrégio Conselho Universitário, após o resultado da Consulta à Comunidade Acadêmica e por ampla maioria, homologou meu nome como vice-reitora para o período 2022-2026. Tal ato foi necessário para que pudéssemos alcançar inúmeras conquistas nestes anos, mas não foi suficiente para assegurar o cumprimento do projeto eleito como Universidade Presente.

Hoje, apresento minha renúncia ao cargo. Esta é uma decisão tomada com o peso da responsabilidade perante os votos que nos conduziram a esta gestão e em face do compromisso ético que assumi com cada pessoa, estudante e servidora técnica e docente. Quero agradecer pela confiança que recebi da comunidade universitária e da expressiva maioria dos membros deste Conselho em 2022 e ao longo da gestão. As interlocuções no CUn resultaram em decisões muito importantes e aprendizados sobre representação, participação e democracia. Em meu exercício da vice-reitoria, espero ter honrado as ações, os compromissos institucionais e o programa em que a comunidade confiou.

A aliança política que construímos em 2022 e que deu o desenho inicial da atual gestão foi se fragilizando com o tempo. Depois de inúmeras tentativas fracassadas de revitalizar e retomar a trajetória de gestão participativa e democrática com que nos comprometemos, formalizamos o rompimento em outubro de 2025. A prática administrativa atual distanciou-se irremediavelmente do projeto coletivo que defendemos nas urnas. Fomos eleitos(as) sob a promessa de uma gestão democrática, mas o que se seguiu foi a sistemática centralização das decisões, levando à exclusão da vice-reitora.

A violência política de gênero permeou meu exercício no cargo. O silêncio do reitor sobre os reiterados ataques que sofri – de membro da gestão e até mesmo durante sessões do Conselho Universitário – é reflexo de uma cultura institucional que restringe sistematicamente o espaço de mulheres na liderança. Aceitar ou reproduzir tais condições negligencia a luta de todas as mulheres da UFSC. A paridade de gênero no primeiro escalão exige mais do que assentos à mesa: exige o direito à discordância e ao controle sobre recursos. Paridade de gênero é uma falácia quando decisões estratégicas, controle orçamentário e articulação política permanecem confinados em um único homem – ou em seus amigos.

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Apesar de resistências internas e omissões, conseguimos avançar nas políticas de promoção da igualdade, com novas normas que ampliaram direitos a estudantes e às pessoas que trabalham na UFSC. Levamos à votação no CUn as recomendações da Comissão da Memória e da Verdade. Ampliamos e equiparamos o valor das bolsas. Tornamos a universidade palco para a vivência constante da cultura popular, da arte e do esporte. Consolidamos importantes avanços em pesquisa e inovação, democratizando resultados. Adotamos uma política de internacionalização que valoriza as conexões com o Sul Global. E abrimos as portas da universidade para receber e dialogar com coletivos e movimentos sociais.

Ainda precisamos avançar muito no que se refere às pautas coletivas de estudantes de baixa renda, mulheres, pessoas negras, indígenas e quilombolas, Lgbtqiapn+, pessoas com deficiência, entre outros grupos sociais. A ampliação do acesso à universidade pública foi fruto de muita luta, mas ainda estamos longe de assegurar permanência com dignidade e igualdade real de oportunidades. Precisamos prosseguir e construir soluções. Estou certa de que a comunidade acadêmica reconhece tais problemas.

Observo com preocupação a postura passiva da reitoria frente à crise orçamentária. A falta de articulação política junto ao MEC e a outros órgãos federais deixa a UFSC vulnerável. Nossa universidade precisa de uma liderança que defenda a instituição com firmeza em Brasília, e que não se limite à administração passiva da escassez. Restringir-se a gerir o que recebe, reduzir contratos de limpeza e segurança, e justificar a paralisia pela “falta de repasses” é uma postura burocrática que aceita a asfixia da instituição. Um reitor com competência na gestão institucional entende que o orçamento se disputa no Congresso e no MEC. Tal liderança deve construir conexões, articular com a bancada federal do estado e pressionar por recomposições orçamentárias, tratando a educação como investimento estratégico, além de discutir com transparência as receitas próprias e a composição das despesas.

A UFSC é uma das mais respeitadas universidades do país. Sua ausência nos espaços de decisão nacional tem consequências práticas, como a perda de repasses específicos: muitos recursos (emendas parlamentares e projetos de ministérios, por exemplo) dependem de presença e articulação política constantes em Brasília. Sem protagonismo nacional, a UFSC torna-se uma espectadora das decisões que afetam seu próprio futuro.

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A defesa da UFSC hoje exige que eu me some a um projeto que resgate a competência e a humanidade na/da gestão. Sigo acreditando que a sintonia entre competência administrativa e a defesa intransigente da dignidade humana é a única via para superarmos a paralisia atual”.

Leia a nota da reitoria na íntegra

Esclareço que não concordo com nenhuma das alegações apresentadas pela vice-reitora Joana Célia dos Passos em sua carta, por não refletirem o conjunto de ações, princípios e resultados do trabalho desenvolvido pela nossa gestão.

Entendo que a motivação para a saída da professora Joana Célia do cargo de vice-reitora decorre do recebimento do Ofício SEI nº 982/2026/MULHERES, datado de 13 de fevereiro de 2026, que solicita autorização de cessão da mesma para assumir o cargo de Secretária Nacional de Autonomia Econômica e Política de Cuidados, no Ministério das Mulheres.

Quando do recebimento do pedido de renúncia, informei que respeitava a sua decisão, e que seriam feitos os encaminhamentos institucionais necessários à dispensa do referido cargo.

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Quanto aos próximos passos, caberá ao Conselho Universitário a aprovação de um(a) docente para completar o mandato na Vice-Reitoria. Nos termos da legislação vigente, no prazo de até 60 dias deverá ser escolhido(a) o(a) novo(a) titular para a Vice-Reitoria.

Reitero o compromisso desta gestão com a legalidade, a transparência institucional e a continuidade das atividades acadêmicas, administrativas e de extensão, em benefício da comunidade universitária e da sociedade“.