“É mentira”: Flávio mudou versão sobre pedido a Daniel Vorcaro para filme de Bolsonaro

Em um primeiro momento, Flávio Bolsonaro negou que teria feito um pedido para financiamento do filme "Dark Horse", mas mudou fala após divulgação da reportagem do Intercept Brasil

Compartilhe:
Flávio Bolsonaro disse que conheceu Daniel Vorcaro em 2024 (Foto: Wilson Dias, Agência Brasil; Reprodução)

Flávio Bolsonaro disse que conheceu Daniel Vorcaro em 2024 (Foto: Wilson Dias, Agência Brasil; Reprodução)

O senador e pré-candidato à República, Flávio Bolsonaro, já havia sido questionado presencialmente pelo próprio Intercept Brasil, na manhã desta quarta-feira (13), sobre o suposto pedido feito a Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, para financiamento ao filme “Dark Horse”, filme que conta a história do ex-presidente Jair Bolsonaro, que cumpre prisão domiciliar humanitária desde março deste ano por tentativa de golpe de estado. Na ocasião, ele disse que a informação era falsa. No entanto, quando a reportagem foi divulgada, ele admitiu o pedido.

Continua após a publicidade

Os registros que mostram mensagens entre Flávio Bolsonaro e Vorcaro, com uma negociação para que o banqueiro assumisse o compromisso de repassar 24 milhões de dólares — valor que equivalia, na época, a aproximadamente R$ 134 milhões — ao filme, foram revelados pelo Intercept Brasil.

— De onde você tirou essa informação? É mentira — respondeu Flávio, antes do site revelar a troca de mensagens entre o senador e o banqueiro, e chamou o jornalista de “militante”.

Continua após a publicidade

No momento, Flávio respondia à jornalistas após ter se reunido com o presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Edson Fachin.

Horas depois, Flávio admitiu financiamento

Depois que a reportagem foi publicada, no entanto, Flávio admitiu, em nota, o pedido de financiamento ao Banco Master.

Em nota, o político nega irregularidades sobre o financiamento e defende a instalação da CPI do Banco Master para “separar os inocentes dos bandidos”. Flávio se coloca como “um filho procurando patrocínio privado para um filme privado sobre a história do próprio pai”, sem uso de dinheiro público, segundo ele.

O senador afirma que conheceu Daniel Vorcaro em dezembro de 2024, após o fim do governo de Jair Bolsonaro, “quando não existiam acusações nem suspeitas públicas sobre o banqueiro”. Ele destaca que retomou contato com o banqueiro quando houve atraso no pagamento das parcelas de patrocínio necessárias para a conclusão do filme, mas que não ofereceu vantagens em troca.

Continua após a publicidade

“Não promovi encontros privados fora da agenda. Não intermediei negócios com o governo. Não recebi dinheiro ou qualquer vantagem. Isso é muito diferente das relações espúrias do governo Lula e seus representantes com Vorcaro. Por isso, reitero, CPI do Master”, escreveu.

Relembre caso do Banco Master

Flávio associou Banco Master a Lula

No podcast do NSC Total, Café nas Eleições, Flávio Bolsonaro, havia dito que o escândalo com o Banco Master era “o maior esquema de corrupção do sistema financeiro que nós já vimos na nossa história” e associou o esquema ao governo Lula.

Continua após a publicidade

— Foi o Lula que se reuniu no escondidinho, ali na reunião secreta com o Vorcaro, com o presidente do Banco Central, com o ministro Rui Costa, né? Eles e mais de uma vez… Quer dizer, foi o Lula, não foi o Bolsonaro. Vocês vão se lembrar, o ministro da Justiça do Lula, Ricardo Lewandowski, ele recebia dinheiro do Banco Master antes de virar ministro da Justiça. Depois que ele vira ministro da Justiça do Lula, o contrato continua igual, só que para o filho dele. Aí, uma semana antes do caso Master explodir na imprensa, o ministro Lewandowski pede para sair do Ministério da Justiça. Quer dizer, é o dedo, é o a digital, é o DNA do PT nisso tudo no Banco Master — disse.

Flávio também disse uma frase que, posteriormente, virou estampa de camiseta, como um slogan.

Continua após a publicidade

— Eu digo o seguinte, o Pix é do Bolsonaro, o Master é do Lula — afirmou.

Financiamento de R$ 61 milhões já havia sido pago

Documentos trocas de mensagens obtidos com exclusividade pelo Intercept Brasil mostram que ao menos 10,6 milhões de dólares — cerca de R$ 61 milhões, considerando a cotação da moeda nas datas das transferências — já haviam sido pagos entre fevereiro e maio de 2025. O valor foi enviado em seis operações para custear o projeto cinematográfico ligado à família Bolsonaro.

Continua após a publicidade

O banqueiro é acusado de comandar um esquema de fraude que provocou um prejuízo de R$ 47 bilhões ao Fundo Garantidor de Crédito (FGC). Em 18 de novembro, um dia depois da prisão, o Banco Central (BC) decretou a liquidação do Banco Master.

Mensagens mostram planilhas de pagamentos

Nas mensagens, é possível ver um comprovante de transferência bancária no valor de 2 milhões de dólares e uma planilha com previsão de pagamentos. Em análise feita pelo Intercept, parte dos recursos apareciam como enviados pela Entre Investimentos e Participações ao fundo Havengate Development Fund LP, sediado no Texas, nos Estados Unidos, e controlado por aliados de Eduardo Bolsonaro.

Continua após a publicidade

O financiamento teria sido intermediado pelo empresário Thiago Miranda, fundador e sócio do Portal Leo Dias, e Fabiano Zettel, identificado pela Polícia Federal (PF) como principal operador financeiro de Vorcaro.

As mensagens obtidas pelo Intercept cobrem o período entre dezembro de 2024 novembro de 2025 e reúnem conversas do banqueiro com diversos interlocutores. A autenticidade do material foi confirmada a partir do cruzamento de informações dos diálogos com dados públicos e sigilosos. Entre os elementos utilizados na verificação estão registros bancários e telefônicos, inquéritos policiais, dados do Congresso Nacional e publicações em redes sociais.

Continua após a publicidade

Segundo as conversas analisadas, a relação entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro para viabilizar a produção internacional do filme começou, no fim de 2024, por meio de intermediários. Ao longo de 2025, no entanto, a interlocução passou a ocorrer diretamente entre eles, incluindo cobranças por liberação de recursos, negociações operacionais e demonstrações de proximidade pessoal.

Os diálogos também sugerem que Vorcaro acompanhava pessoalmente a execução dos pagamentos e dava prioridade ao financiamento do longa em relação a outros compromissos financeiros.

Continua após a publicidade

Intercept procurou, por e-mail, os advogados do ex-presidente Jair Bolsonaro, mas não recebeu resposta até a última atualização desta matéria.

*Com informações do O Globo e do g1