Persiste a projeção de que o El Niño de 2026 atingirá uma intensidade nunca antes vista pelos pesquisadores, informou o boletim de outubro da Administração Oceânica e Atmosférica Nacional (Nooa), dos Estados Unidos, uma das principais instituições do mundo no monitoramento do fenômeno. Em comparação com a última análise, feita em setembro, subiu de 75% para 83% a chance do super El Niño exceder a intensidade de todos os anteriores até dezembro deste ano. O aquecimento deve persistir até 2027.
Com a área do Pacífico monitorada em evidente aquecimento, os índices do último mês estão bem acima do normal. Na região do oceano mais estudada, o chamado Niño 3.4, já são 2,1ºC acima da média, o que significa um fenômeno de intensidade muito forte.
Juntando diferentes modelos climáticos, a Nooa segue afirmando que o El Niño continuará a se fortalecer até o final do ano. “As chances de um evento histórico, que excederia a intensidade de eventos anteriores do El Niño desde 1950, permanecem altas: a probabilidade é de 54% para setembro-novembro, 83% para outubro-dezembro e 70% para novembro-janeiro”.
Assim, a probabilidade de serem registrados impactos consistentes com o El Niño é alta, escreve ainda a agência. A previsão é de que o fenômeno persista forte ao menos até março do próximo ano. No outono, a tendência é que ele vá perdendo força até entrar na neutralidade.
Momento é de monitoramento constante em SC
Quanto maior o aquecimento, maior as chances de formação de eventos climáticos extremos. Para Santa Catarina — e todo o Sul do Brasil — a preocupação é grande porque esse fortalecimento ocorrerá em uma fase que naturalmente já é chuvosa para o estado, entre a primavera e o verão.
Isso não significa, no entanto, os maiores estragos de todos os tempos para Santa Catarina. Um El Niño forte apenas torna os impactos mais prováveis. Ou seja, no caso das cidades catarinenses, onde as chuvas são frequentes na primavera e verão, as precipitações ficam mais intensas.
Para que haja um grande desastre relacionado às precipitações, é preciso um combo entre El Niño e outros fatores climáticos e meteorológicos, explicam profissionais da área.
Alice Grimm, cientista reconhecida internacionalmente por pesquisas sobre o tema, destaca em um artigo que, apesar do El Niño deixar o Sul do país ainda mais vulnerável para chuvas extremas, oscilações oceânicas e atmosféricas que mudam semanalmente, anualmente e até em décadas precisam estar alinhadas para que o pior aconteça.
O cenário apresentado por Grimm ocorreu durante a catástrofe do Rio Grande do Sul em 2024, quando houve um combo de El Niño, oscilações favoráveis e impacto das mudanças climáticas.
Último trimestre de 2026 será chuvoso em SC
De modo geral, outubro, novembro e dezembro devem ser meses com chuva acima da média para o período e temperatura dentro do esperado. Essa condição aumenta a probabilidade de impactos relacionados a temporais com vendaval e granizo, além das ocorrências relacionadas aos altos volumes de chuva, como enxurradas, inundações e deslizamentos, alerta a Defesa Civil.
Por conta do tempo fechado, fortes veranicos não são esperados, com possibilidade, inclusive, de “inverno fora de época” na Serra, ainda que de curta duração.
Em relação às temperaturas, os meses de outubro e novembro devem apresentar um padrão comum para esta época, com valores dentro da média climatológica. Nesses meses, com os dias de tempo fechado, ocorre pouca variação de temperatura, assim as tardes não devem ser de muito calor.
A partir de dezembro, com a aproximação do verão, a chuva continua acima da média, mas os temporais de verão, que ocorrem de forma mais isolada, passam a ser mais frequentes. Com isso, as temperaturas também se elevam em relação aos meses anteriores.
O El Niño em 10 passos
Os efeitos do El Niño em SC
Em Santa Catarina, assim como em todo o Sul do Brasil, sabe-se que o El Niño favorece volumes de chuva acima da média. Em um estudo inédito, a cientista Alice Grimm mostrou o mês em que os efeitos do fenômeno historicamente são mais intensos para Santa Catarina: novembro.
- Um El Niño nunca é igual ao outro, mas ele historicamente intensifica as chuvas na primavera em Santa Catarina;
- Há uma perceptível “piora” durante outubro e novembro para o Sul do Brasil;
- Para se ter uma ideia, em meses de novembro com El Niño as chances são 6,3 vezes maior de eventos extremos, contra 1,2 em períodos de La Niña;
- Os extremos de chuva podem se acentuar e/ou os dias chuvosos durarem mais tempo que o normal.
Super El Niño
Oficialmente não existe a classificação de “super El Niño”, mas o termo é usado popularmente quando o aumento da temperatura do oceano ultrapassa os 2°C acima da média, patamar considerado elevado e pouco comum, explica o meteorologista da Defesa Civil, Caio Guerra.
Para se ter uma ideia, desde 1950, dos 25 episódios de El Niño, cinco tiveram registros acima dos 2ºC, mostram dados da Noaa.
As “categorias”
- Fraco: 0,5°C a 1,0°C acima da média
- Moderado: 1,0°C a 1,5°C acima da média
- Forte: 1,5°C a 2,0°C acima da média
- Muito forte: acima de 2,0°C acima da média
La Niña e El Niño
Segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), o El Niño é o nome dado ao aumento na temperatura da superfície da água em um trecho do Oceano Pacífico perto do Peru, fazendo ela evaporar mais rápido. O ar quente sobe para a atmosfera, levando umidade e formando uma grande quantidade de nuvens carregadas.
Com isso, no meio do Pacífico chove mais, afetando a região Sul do Brasil, pois a circulação dos ventos em grande escala, causada pelo El Niño, também interfere em outro padrão de circulação de ventos na direção norte-sul e essa interferência age como uma barreira, impedindo que as frentes frias, que chegam pelo Hemisfério Sul, avancem pelo país. Logo, elas ficam concentradas por mais tempo na região Sul.
O contrário, o resfriamento dessas águas, é chamado de La Niña. Os efeitos do La Niña para Santa Catarina são o oposto do outro fenômeno, já que as chuvas caem em menor volume no Estado.









