Junto com a informação de que o El Niño de 2026 pode atingir uma intensidade nunca antes vista pelos pesquisadores, veio também a atualização da temperatura no Oceano Pacífico. O fenômeno nada mais é do que o aquecimento superficial dessas águas em um trecho perto do Peru, que acaba mudando a circulação atmosférica em escala global. Pelas medições, os números que representam um “super El Niño” começaram a ser registrados no último mês. Porém, são necessários meses consecutivos de média acima de 2ºC para a concretização do evento, considera o meio científico.
Para simplificar: os pesquisadores dizem que um El Niño só se configura oficialmente depois de cerca de seis meses com as anomalias a partir de 0,5ºC acima da média. Diariamente, então, a temperatura é monitorada por diferentes instituições do mundo para que se tenha a média mensal, que se une a dados trimestrais. A temperatura varia diariamente, mas os gráficos mostram que desde julho, em um dos principais pontos de estudo, a chamada região Niño 3.4, o patamar chegou nos 2°C e só tem subido.
É uma evolução extremamente rápida, algo que tem impressionado quem trabalha com o assunto há décadas. Isso significa que o aquecimento das águas perto do Peru pode ultrapassar os 2,5ºC acima da média, sugere a Administração Oceânica e Atmosférica Nacional (Nooa), dos Estados Unidos, principal órgão de monitoramento dessa oscilação.
Para se ter uma ideia, o El Niño só chegou perto dessa marca apenas uma vez desde 1950, entre 1982 e 1983, quando atingiu 2,4ºC, conforme o índice da Nooa. Projeções de diferentes países estão indicando que o pico entre 2026 e começo de 2027 pode ficar pelo menos 1ºC acima do registrado na década de 1980.
Nos últimos dias, a temperatura no Niño 3.4 chegou a 2,2ºC acima da média — bem próximo ao que se viu naqueles meses entre 1982 e 1983. E, apesar de ainda não ser “oficial”, o El Niño já está influenciando o tempo em Santa Catarina.
O que isso quer dizer para o Sul do Brasil?
Há 69% de chances do super El Niño exceder a intensidade de todos os anteriores entre outubro e dezembro deste ano. O acompanhamento é feito desde 1950. “Com um evento dessa magnitude, as chances de vivenciarmos impactos consistentes com o El Niño são maiores, mas não são garantidas”, explicou a Nooa no boletim de agosto publicado nesta quinta-feira (13).
Com mais de 90% de probabilidade de acontecer um aquecimento muito forte no Oceano Pacífico durante a primavera e o verão, Santa Catarina deve se preparar para períodos de chuva frequente e/ou extremas. A região Sul é a mais afetada do Brasil no período em que o pico está previsto.
Em um estudo inédito, a cientista Alice Grimm mostrou o mês em que os efeitos do fenômeno historicamente são mais intensos para Santa Catarina: novembro.
- Um El Niño nunca é igual ao outro, mas ele historicamente intensifica as chuvas na primavera em Santa Catarina;
- Há uma perceptível “piora” durante outubro e novembro para o Sul do Brasil;
- Para se ter uma ideia, em meses de novembro com El Niño as chances são 6,3 vezes maior de eventos extremos, contra 1,2 em períodos de La Niña;
- Os extremos de chuva podem se acentuar e/ou os dias chuvosos durarem mais tempo que o normal.
Outro ponto reforçado pela pesquisadora é que, para que haja um grande desastre, não basta o El Niño. Há outras oscilações climáticas que precisam estar alinhadas, também favorecendo a formação de nuvens carregadas, para que ocorra o pior — tal como no Rio Grande do Sul em 2024. É o que a ciência chama de “sobreposição de efeitos”, algo que precisa ser monitorado constantemente e que só pode ser previsto com uma antecedência menor.
Por isso, este é um momento de preparação e acompanhamento.
Super El Niño é incomum, mostram dados históricos
Oficialmente não existe a classificação de “super El Niño”, mas o termo é usado popularmente quando o aumento da temperatura do oceano ultrapassa os 2°C acima da média, patamar considerado elevado e pouco comum, explica o meteorologista da Defesa Civil de Santa Catarina, Caio Guerra.
Para se ter uma ideia, desde 1950, dos 25 episódios de El Niño, cinco tiveram registros acima dos 2ºC, mostram dados da Noaa. O que o levantamento também indica é uma diminuição no intervalo de El Niños
de forte intensidade.
Entre a metade do século passado e meados do atual, foram mais de 10 anos entre um “super El Niño” e outro. Na história recente, esse tempo caiu para oito anos. E agora, se de fato o próximo aquecimento ficar acima dos 2ºC, a “pausa” será de menos de cinco anos.
As intensidades do El Niño
- Fraco: 0,5°C a 1,0°C acima da média
- Moderado: 1,0°C a 1,5°C acima da média
- Forte: 1,5°C a 2,0°C acima da média
- Muito forte: acima de 2,0°C acima da média
A diferença entre La Niña e El Niño
Segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), o El Niño é o nome dado ao aumento na temperatura da superfície da água em um trecho do Oceano Pacífico perto do Peru, fazendo ela evaporar mais rápido. O ar quente sobe para a atmosfera, levando umidade e formando uma grande quantidade de nuvens carregadas.
Com isso, no meio do Pacífico chove mais, afetando a região Sul do Brasil, pois a circulação dos ventos em grande escala, causada pelo El Niño, também interfere em outro padrão de circulação de ventos na direção norte-sul e essa interferência age como uma barreira, impedindo que as frentes frias, que chegam pelo Hemisfério Sul, avancem pelo país. Logo, elas ficam concentradas por mais tempo na região Sul.
O contrário, o resfriamento dessas águas, é chamado de La Niña. Os efeitos do La Niña para Santa Catarina são o oposto do outro fenômeno, já que as chuvas caem em menor volume no Estado.
