Postura de Daniela Reinehr é coerente com a tolerância de Santa Catarina a discursos nazistas

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Na democracia, não cabem meias palavras sobre o nazismo (Foto: Divulgação)

Em 1998, quando a Polícia Federal apreendeu objetos com suásticas e propaganda negacionista do holocausto na casa do professor Wander Pugliesi, em Blumenau, ouvi de uma colega estudante:

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— Ele não é nazista, nunca defendeu o nazismo em sala.

A adolescente fazia cursinho pré-vestibular, eu terminava o Ensino Médio na Etevi, onde ele não lecionava. O diálogo está fresco na memória.

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— O Wander só provoca você a pensar, a ver o outro lado da história — continuou.

— O lado dos nazistas? — cutuquei.

— Ele te faz ver que a história foi contada pelos vencedores.

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Nunca encontrei um só aluno que detestasse as aulas do professor de História eloquente e provocador. Nem que levasse a sério as acusações de que fosse nazista. A apreensão de suásticas e o fato de ter batizado um filho com o nome de Adolf eram parte do personagem excêntrico, que gostava de causar.

> Quem é o dono da piscina com uma suástica em Santa Catarina.

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Mais de uma geração de adolescentes do Vale do Itajaí ouviram as insinuações dele sobre como os aliados teriam exagerado os horrores dos campos de concentração, sobre como a história era mal contada — da Segunda Guerra à ditadura militar no Brasil. Emissoras de rádio mais de uma vez amplificaram as palavras persuasivas do professor.

Nazista? Não, não. Só estimulava as pessoas a abrirem os olhos.

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Suástica na piscina

A fotografia da piscina, em 2014, complicou as coisas. Se Wander Pugliesi só colecionava material nazista por interesse histórico, por que instalaria uma cruz suástica gigante na própria residência?

A imagem publicada pelo Santa correu o Brasil, mas novamente não resultou em punição. Nem legal, nem social. Escolas seguiram contratando o professor de História. “Dentro de casa, cada um faz o que quer”.

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Em 2018, um repórter do jornal Süddeutsche Zeitung, de Munique, visitou Pugliesi em Pomerode. O professor deixou-se fotografar diante da piscina. Nesta época, já participava da política local, apoiando Jair Bolsonaro à presidência. Era mais do que bem aceito no movimento.

Dois anos depois, encontrou um partido que o filiou de bom grado, o PL, e obteve apoio dos correligionários para concorrer a vereador em Pomerode. Na campanha dele no Facebook, não havia mensagens nazistas. Só um patriotismo de símbolos, a defesa das armas e ataques ao comunismo.

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No dia 28 de setembro, porém, um ex-aluno postou foto que aparecia na timeline do candidato. Era um agradecimento por livros recebidos de presente — dois deles, a imagem deixava ver, eram de autor negacionista do holocausto. Outro homem comentou: “Os livros que estão ‘por baixo’ tenho todos!”.

Wander Pugliesi só não será votado no próximo dia 15 de novembro porque a candidatura virou notícia nacional. Com receio de que a polêmica prejudicasse o partido em outras cidades, o PL o pressionou a desistir da disputa.

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Tolerância

Toda essa digressão é para dizer que a tibieza da governadora Daniela Reinehr sobre as ideias de seu pai, outro revisionista, é coerente com a tolerância da sociedade catarinense a discursos xenófobos, racistas, supremacistas, eugênicos e a teorias da conspiração que estimulam o ódio contra grupos minoritários. 

Por que uma comunidade que aceitou expor adolescentes durante décadas às ideias de Wander Pugliesi e Altair Reinehr exigiria da governante uma condenação enfática ao nazismo?

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Outra vez, foi necessária pressão externa, nacional. Somente nesta quinta-feira (29), terceiro dia de contornos retóricos inexplicáveis, Daniela distribuiu nota em que diz ser “contrária ao nazismo”. Ora, a frase tem o mesmo impacto de afirmar-se “contrária à escravidão” ou ”contrária à pedofilia”. O inverso seria cometer crime.

Como líder eleita, Daniela tem o dever de condenar com veemência e, principalmente, comprometer-se, sem dubiedade, com o combate aos numerosos ninhos de serpente que a polícia e pesquisadores já identificaram no Estado. Na democracia, não cabem meias palavras sobre o nazismo.

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*

— As fotos do holocausto podem ter sido montadas com bonecos — disse minha colega estudante, lá em 1998, ruminando as aulas de Wander Pugliesi.

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— E se não forem bonecos? — respondi.