Em meus tempos de estádio cansei de ouvir isto: “Torcedor pagou ingresso, então o torcedor pode tudo”. Pode jogar rádio de pilha nos atletas, pode sair na porrada com os rivais, pode xingar a mãe do árbitro. Uma grande mentira. Torcedor pagou ingresso, torcedor não pode coisa nenhuma. Se assim fosse, estaríamos trocando a civilização pela barbárie – o que acontece agora no futebol brasileiro.

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Esta semana morreu Gabriela Anelli, de 23 anos, em São Paulo. Torcedora do Palmeiras, ela esperava para entrar no estádio, ver o confronto com o Flamengo. Infelizmente, estava no lugar errado na hora errada. Foi atingida no pescoço pelos estilhaços de uma garrafa, atirada por um rubro-negro no meio de uma confusão. Os ferimentos foram graves. Ela foi atendida, hospitalizada. Não resistiu.

Mais uma vida ceifada. Gabriela, 23 anos. E o que vai acontecer? Nada. A justiça, morosa, não funciona. Os dirigentes, negligentes, fingem que não é com eles. Jornalistas esportivos, bajuladores, negam o óbvio. Jogadores, acovardados, entrarão normalmente em campo neste fim de semana, para mais uma rodada do bravo Brasileirão.

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Richarlyson, comentarista do SporTV, afirmou que os atletas deveriam parar, em solidariedade à família de Gabriela e em protesto contra a ignorância. Luciano Calheiros, gerente de Esportes da NSC, disse: “Não consigo mais reunir esperança para ver solução a curto prazo. A intolerância está goleando um time desorganizado, desunido e frouxo, escalado com atletas, dirigentes, imprensa e Estado”. Já Gian Oddi, comentarista da ESPN, fez um emocionado e poderoso desabafo: “O futebol brasileiro é podre, nojento, escroto, asqueroso”.

A violência vem aumentando faz anos. Hoje, a brutalidade e a selvageria vão além. Jogadores, treinadores, cartolas e árbitros têm as famílias ameaçadas de morte nas redes sociais. Vândalos invadem campos, atiram morteiros nos gramados, perseguem atletas, assassinam. Vândalos que, durante muitos anos, foram bancados financeiramente por dirigentes de clubes – estes também intimidados e amedrontados.

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Vamos mais uma vez à Inglaterra, anos 80 do século passado. A Uefa, entidade que manda no futebol europeu, suspendeu por cinco anos todos os times ingleses de competições do continente. Era uma resposta para tentar frear e dar fim à violência dos hooligans. Margaret Thatcher, então primeira-ministra do Reino Unido, foi à Câmara dos Comuns (o equivalente à nossa Câmara dos Deputados) e disse: “Eles estão acabando com nossas famílias. Temos que limpar o jogo desse hooliganismo em casa e talvez possamos jogar no exterior novamente”.

A violência virou caso de Estado. A severa decisão da Uefa levou à total reformulação do futebol inglês. Entre muitas mudanças e atitudes, a principal delas: os hooligans foram
monitorados, identificados e banidos. Hoje, a alegria e a paz reinam nos estádios britânicos sempre lotados.

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Aqui, Gabriela Anelli, de 23 anos, foi morta. Quantos jovens, idosos, homens, mulheres vão, ainda, precisar morrer neste processo de desumanização? Aqui, em nosso mundo do futebol, não há mais marco civilizatório. Ele foi definitivamente apagado do mapa.

Pra refletir

Milan Kundera, escritor tcheco morto esta semana:

“Minha ambição de vida foi unir a maior seriedade da questão com a maior leveza da forma. A combinação de uma forma frívola e um assunto sério desmascara imediatamente a verdade sobre nossos dramas e sua terrível insignificância. Experimentamos a insustentável leveza do ser”.

Italo Calvino, escritor italiano:

“Quem somos nós, quem é cada um de nós senão uma combinatória de experiências, de informações, de leituras, de imaginações? Cada vida é uma enciclopédia, uma biblioteca, um inventário de objetos, uma amostragem de estilos, onde tudo pode ser completamente remexido e reordenado de todas as maneiras possíveis”.

Alan Pauls, escritor argentino:

“Ninguém se separa. As pessoas se abandonam. Essa é a verdade, a verdade verdadeira. O amor pode até ser recíproco, mas o fim do amor não, nunca”.

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