O jornalismo esportivo brasileiro já foi considerado um dos melhores do mundo. A explicação é bem tranquila: pega-se o futebol como exemplo, tínhamos grandes cronistas, grandes comentaristas, grandes narradores. Armando Nogueira, Orlando Duarte, Luciano do Valle, Nelson Rodrigues e o irmão Mário Filho, para ficar em apenas alguns. Cada jogo é como uma novela, tem começo, meio e fim. Heróis, ídolos, vilões, galãs. Cada jogo tem, sobretudo, dramas humanos.

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Aqueles eram tempos dourados dos jornais e das rádios – e os contadores de histórias enchiam o nosso mundo de imaginação. Vivemos agora tempos tiquetoqueiros, facebuqueiros e instagramáveis, rasteiros e apressados, em que as estatísticas são mais valorizadas do que as fatalidades e as alegrias, os gozos e os sofrimentos, os encantamentos e as dores.

Números, números e mais números. No futebol eles podem ser bastante burros e nada significar de importante. Neymar fez mais gols do que Pelé na seleção brasileira. E daí? Gabriel Jesus marcou mais gols do que Romário na Liga das Campeões da Europa. Oi? Tite teve oitenta por cento de aproveitamento no comando da seleção. E eu com isso?

As respostas a esta insuportável mania das estatísticas, nos três casos acima, são de uma simplicidade pungente: Pelé ganhou três Copa do Mundo e foi o melhor jogador do mundo; Romário ganhou uma Copa e foi um dos maiores atacantes do planeta; Tite ficou seis anos na seleção, perdeu duas Copas e deixou lixo como legado para o seu sucessor.

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– Se uma nação perde seus contadores de histórias, ela perde sua infância – afirmou o escritor austríaco Peter Handke, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura em 2019.

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Gostava de sentar ao lado de meu pai, ainda moleque, para ouvir aquelas narrações vertiginosas. Radinho de pilha mequetrefe colado ao ouvido. Um narrador gostava de repetir essas palavras: “Avançando, avançando Rivellino. Ele para, prende, pensa, toca…”. Como pode?, me perguntava, era muita ação para tão poucos segundos. Através das palavras, eu conseguia “ver” aquilo tudo, me sentia literalmente à beira do gramado.

Recorro ao amigo e brilhante jornalista Paulo César Vasconcellos para falar de um gênio. Nelson Rodrigues, um dos maiores dramaturgos e cronistas do cotidiano que tivemos. Como nenhum outro, transformava sentimentos em emoções. Entrava na alma do jogo. Era exagerado sempre.
Nelson tinha um grau altíssimo de miopia. Mesmo assim continuou indo ao Maracanã com Armando Nogueira (Nelson, torcedor do Fluminense. Armando, do Botafogo). Ao fim das partidas, os dois craques desciam a rampa do estádio de braços dados. Nelson perguntava a Armando: “E então, o que achamos do jogo?”.

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Quando não ia ao Estádio Mário Filho (homenagem ao irmão), Nelson contava com o jornalista Antônio Roberto Arruda. “O que temos, meu nobre?”, perguntava Nelson na volta de Arruda do Maracanã à redação do jornal. Cabia a Arruda revelar a Nelson toda a dramaticidade da partida, o gol espetacular, o zagueiro merecidamente expulso por entrada brutal no atacante adversário, o gol perdido pelo centroavante pereba.

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No dia seguinte, graças a ajuda de Armando e Arruda, o olhar sagaz e apaixonado de Nelson enchia os leitores de inventividade e sonho. Muitos outros cultivaram e valorizaram a paixão, o épico, o homérico, o heroico, o humano e até mesmo o sobrenatural. Para eles, números eram números e nada mais do que números frios.

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Nelson Rodrigues chamava aqueles que estavam preocupados com as estatísticas de “idiotas da subjetividade”. Hoje, estes dominam a crônica esportiva tupiniquim. Então, fechamos com um Nelson perfeito e certeiro: “O pior cego é aquele que só vê a bola”.

Pra refletir:

“Invejo a burrice, porque é eterna”

Nelson Rodrigues, cronista e dramaturgo

“Quando alguém pergunta a um autor o que este quis dizer, é porque um dos dois é burro”

Mário Quintana, poeta

“A violência, seja qual for a maneira como ela se manifesta, é sempre uma derrota”

Jean-Paul Sartre, filósofo francês

“Creio no riso e nas lágrimas como antídotos contra o ódio e o terror”

Charles Chaplin, ator e diretor

“Precisamos de um senso de justiça, mas precisamos também de senso comum, de imaginação, de uma capacidade profunda de imaginar o outro, às vezes de nos colocarmos na pele do outro. Precisamos da capacidade racional de nos comprometer e, às vezes, de fazer sacrifícios e concessões”

Amós Oz, escritor israelense

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