nsc
    nsc

    Entrevista

    "O negacionismo científico está contribuindo para o caos", diz Miguel Nicolelis

    Compartilhe

    Dagmara
    Por Dagmara Spautz
    08/03/2021 - 07h08 - Atualizada em: 08/03/2021 - 07h11
    Miguel Nicolelis
    Miguel Nicolelis (Foto: Letícia Moreira, Folhapress)

    Para o neurocientista Miguel Nicolelis, um dos mais respeitados pesquisadores brasileiros, a situação da pandemia no Brasil compara-se, apenas, ao momento mais grave vivido nos Estados Unidos, no ano passado. 

    > Santa Catarina tem mais de 300 pessoas na fila de espera por um leito de UTI

    Esta é a segunda parte da entrevista exclusiva de Nicolelis à coluna, que foi publicada na íntegra na edição de fim de semana do Diário Catarinense, Jornal de Santa Catarina e A Notícia. O médico fala sobre o papel do corredor rodoviário na transmissão do coronavírus em Santa Catarina, e alerta para o risco que a região Sul enfrentará com a chegada do inverno. 

    > União terá que requisitar leitos privados em qualquer lugar do país para pacientes de SC

    Entrevista: MIguel Nicolelis

    O senhor faria um paralelo da atual situação do Brasil com a de algum outro país, que tenha enfrentado algo semelhante?

    O paralelo mais próximo é com os piores momentos da pandemia nos Estados Unidos, onde mais da metade do país, 30, 40 estados, estavam com explosões, com surtos explosivos. Evidentemente que os EUA têm 310 milhões de habitantes, uma população muito maior, mas o grau de gravidade, as taxas de ocupação de UTI, neste instante, no Brasil, estão começando a passar o (que foi o) pior momento dos EUA vivido no ano passado e no começo deste ano. 

    O risco de cruzarmos dois mil óbitos por dia e chegarmos a 100 mil casos por dia é muito concreto neste momento.

    > Leia também o primeiro trecho da entrevista: Brasil precisa de lockdown nacional e "extremamente restrito", diz Miguel Nicolelis

    Esse pior momento nos EUA ocorreu quando ainda não havia vacinas. Agora, o Brasil vive essa situação em um momento em que há vacinas disponíveis e as pessoas poderiam estar imunizadas.

    Sem dúvida, se nós tivéssemos criado a cadeia logística, tivéssemos feito um planejamento estratégico correto e tivéssemos comprado de diversos fornecedores, teríamos uma chance de acabar com essa transmissão rapidamente. Os EUA já conseguiram vacinar mais de 60 milhões de pessoas em um mês do novo presidente do país, e isso está começando a fazer a diferença. 

    Nós estamos vacinando um número irrisório de pessoas por dia, precisaríamos estar vacinando um, dois milhões de pessoas por dia, no mínimo, para em 90 dias ter uma situação controlada. 

    Ao mesmo tempo, fazer um lockdown, como o Reino Unido fez. As boas práticas médicas e científicas existem, elas foram aplicadas em diferentes países, os resultados são claros, e o Brasil basicamente não está seguindo nenhuma delas, tanto no governo federal quanto em alguns governos estaduais, onde o negacionismo científico está contribuindo para o caos.

    > Seis em cada dez casos de Covid-19 em SC são de novas variantes

    Em breve nós entraremos no inverno, que é rigoroso aqui no Sul do país. Como vai ser esse inverno?

    Essa é uma preocupação que eu manifestei em um artigo que escrevi, chamei isso de tempestade perfeita da região Sul do Brasil. Com a queda das temperaturas, está arriscado ter outras doenças respiratórias, como influenza. É típico que a onda de influenza comece na região Nordeste, no Ceará. Ela já começou, já está sendo detectada. Vai, eventualmente, chegar no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, e no Paraná. 

    Se (o inverno) chegar com esse caos, com leitos ocupados acima de 90% ou, como está em Porto Alegre hoje, acima de 100%, não vai ter onde internar as pessoas.

     Além disso, tem as pessoas que estão sofrendo de efeitos crônicos, sequelas crônicas da Covid do ano passado. Essas pessoas vão precisar de ajuda hospitalar, de internação, de UTI, e para onde vão? E as outras pessoas, que têm outras doenças? Acidente de automóvel, infarto, derrame, precisa ter leitos de UTI livres para dar conta da rotina diária de casos graves. Por isso chamei de tempestade perfeita. E ela pode se manifestar primeiramente na região Sul.

    Em razão da questão climática?

    Entre outras, porque nós temos a questão climática e temos a região Sul literalmente colapsada simultaneamente, os três estados.

    O número de casos na região Oeste de SC, está há semanas crescendo sem parar. Por que não chegamos ao pico? É uma característica dessa nova onda, demorar muito para alcançar o platô?

    Nós seguimos a região Oeste de SC no nosso comitê, pelas características da malha rodoviária. As conexões rodoviárias, que levam os produtos dos frigoríficos da região Oeste de SC, para a região metropolitana de Porto Alegre, por exemplo, seguimos essa malha em grande detalhe no primeiro semestre do ano passado. 

    Vimos o fluxo de infecção seguir essa malha rodoviária, essas rodovias. 

    A região Oeste é crítica por todo o entroncamento rodoviário. Por causa dele, há um fluxo humano muito grande. Esse fluxo humano gera toda essa grande dinâmica do vírus, ele é responsável pelo espalhamento. Da mesma maneira que o Oeste de SC, outros entroncamentos rodoviários do Brasil, como Feira de Santana, na Bahia, têm esses picos seguidos, contínuos, repetidos, e dificuldade de atingir o platô, porque se tem um fluxo muito grande de gente vindo para a cidade e trazendo ou levando o vírus. Essa é a grande preocupação. Nós monitoramos em SC sempre a Capital, evidentemente, mas também o Oeste do Estado, por causa desse fluxo rodoviário muito grande que existe na região.

    Isso ocorre em outras regiões de SC com características semelhantes, como a Foz do Rio Itajaí, com o entroncamento rodoviário e o complexo portuário?

    Exatamente, e essa é a grande questão. Olhando o mapa de SC, e eu olhei há alguns dias atrás, dividido por regiões, é um fenômeno homogêneo, já. Não é um surto localizado no Oeste. 

    É um fenômeno que cobriu as diferentes regiões do Estado e foi crescendo, de maneira muito rápida e muito homogênea. 

    É a mesma coisa no Rio Grande do Sul. Como os estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina são extremamente conectados por esse corredor que sai do Oeste, e os estados do PR, SC e RS são conectados pelas BRs 116 e 101, tem enormes corredores de sincronia, de espalhamento de casos, de pessoas infectadas que sincronizam os três estados.

    Participe do meu canal do Telegram e receba tudo o que sai aqui no blog. É só procurar por Dagmara Spautz - NSC Total ou acessar o link: https://t.me/dagmaraspautz​

    Mais colunistas

      Mais colunistas