Para todo amador, existe um profissional. Como para todo craque, há um mediano (para não lembrar dos pernas-de-pau). E para todo primo rico, existe um primo pobre. O futebol é um cenário pródigo para isso. Não fugindo de Santa Catarina, se existe um Avaí x Figueirense, um Criciúma x Joinville, tem também um Caçador x Nação ou um Porto x Navegantes.

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Sem depreciar, muito pelo contrário, o futebol expõe com crueldade os altos e baixos da pobreza e da riqueza no mundo do futebol. O glamour dos carpetes impecáveis da Série A existe também, de alguma forma, por conta dos campos pequenos e esburacados das divisões inferiores. A essência os relaciona. Ou deveria, já que essa distância encontra-se cada vez maior. E está cada vez mais difícil galgar do menor para o maior nesse universo em que há menos craques e exige-se mais dinheiro.

19 de julho: dia do Futebol Brasileiro

Mas a teimosia é uma marca registrada do futebol humilde do Brasil. E é para exalta-lo que hoje, 19 de julho, é o Dia do Futebol Brasileiro. É uma data oficial, instituída, está no calendário. E tem uma razão muito simples de explicar. É que em 19 de julho, no distante 1900, era fundado o Sport Club Rio Grande. Trata-se do clube de futebol mais antigo do Brasil em atividade, história que esse colunista bem conhece. Sou de Rio Grande, no Sul do Rio Grande do Sul, a terra do Rio Grande, e lá, como setorista do Vovô (como é carinhosamente conhecido o humilde tricolor que carrega esta glória), comecei minha trajetória no rádio em 1995.

O Rio Grande dos anos 10, introdutor no vizinho Rio Grande do Sul
O Rio Grande dos anos 10, introdutor no vizinho Rio Grande do Sul (Foto: SCRG / Divulgação)

O Rio Grande nasce de uma condição, de certa forma, cosmopolita que a cidade de Rio Grande exercia à época. Único porto marítimo do Rio Grande do Sul (como é até hoje) e um dos principais do Brasil em transporte de cargas, Rio Grande acostumou-se com o ir e vir de estrangeiros. Em uma das suas principais ruas comerciais no Centro, sempre me chamou a atenção um grupo de lojas com fachadas em inglês e até grego. Eram mensagens para os estrangeiros que, vindos do porto, procuravam de tudo por ali.

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Essa amplitude internacional trouxe, também, gente que carregava bola nos navios. Os europeus, que já haviam desenvolvido o football havia algumas décadas, o trouxeram para o Brasil. Lembre-se que já se jogava futebol no país, mas os clubes organizados à época, incipientes, não sobreviveram ao tempo. O Rio Grande, teimoso, sobreviveu. E foi naquele 1900 que um alemão, chamado Johannes Minnemann, com uma bola debaixo do braço e um discurso aglutinador, juntou outros estrangeiros, alguns brasileiros e pronto, estava fundado o Sport Club.

Coube ao Rio Grande apresentar o futebol, ou football, a cidades como Pelotas, Bagé e Porto Alegre. Sim, o Grêmio Portoalegrense nasceu diretamente incentivado pelo Rio Grande, que levou seus dois times certa vez, lá pelos idos de 1903, para uma exibição na capital gaúcha. Era comum ter time A e time B na época. Os nativos tanto gostaram que logo se organizaram, montaram o Grêmio, chamaram o Rio Grande para a estreia e dali por diante o futebol só prosperou em Porto Alegre. 

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O título estadual e a taça dividida ao meio

O Rio Grande ergueu o primeiro estádio organizado do Rio Grande do Sul: o estádio das Oliveiras, que resistiu na sua localização original até os anos 80, quando o clube mudou de ares na cidade. Em 1936 o Rio Grande conquistou o único Campeonato Gaúcho da sua longa história, vencendo o Internacional na decisão. É um dos dois clubes a ter vencido as três divisões do Gauchão: ganhou a Série B em 1962 e a Série C em 2014. O outro é o Guarany de Bagé.

Há uma história inédita e muito curiosa sobre taça e título dividido em Rio Grande. E não é folclore, é verdade pura. O Campeonato Citadino foi historicamente forte na cidade, que até hoje tem três clubes, e os três vez por outra se entredevoram em disputas locais. Haverá mais uma em breve. Rio Grande e o rival São Paulo, depois de eliminarem o Riograndense, faziam a final de 1940. Jogaram uma, duas, três vezes e não havia modo de desempatar. Depois de muito brigar, a decisão salomônica: a taça foi repartida, foi serrada ao meio, e até hoje, mais de 80 anos depois, cada clube ostenta em sua sede a metade da taça municipal de 1940.

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A taça repartida por São Paulo e Rio Grande em 1940
A taça repartida por São Paulo e Rio Grande em 1940 (Foto: Divulgação)

Briga com a Ponte Preta

A Ponte Preta, segundo clube de futebol mais antigo do Brasil, mantém em seu estádio, em letras garrafais e muito vistas quando dos jogos televisionados no estádio Moisés Lucarelli, que é ela a mais velha. Mas não é. Os pontepretanos alegam que o Rio Grande já esteve de portas fechadas. Isso nunca aconteceu. O Rio Grande sempre jogou. E mesmo diante de várias crises e muitas limitações, sempre fez força para jogar justamente para não perder sua maior conquista, que foi tornada oficial em 1975. Naquele ano, a então Confederação Brasileira de Desportos (CBD), futura CBF, conferiu o título de mais antigo ao clube. Esse documento, ao lado da ata de fundação do Rio Grande, estão em posições privilegiadas no Memorial que o clube ganhou por ocasião do seu centenário, em 2000. 

Está lá no estádio Arthur Lawson:
Está lá no estádio Arthur Lawson: “o mais antigo do Brasil” (Foto: JC Celmar / Divulgação)

Há uma briga na Justiça inclusive. O Rio Grande moveu uma ação no ano passado para pedir o pagamento de uma indenização pela Ponte Preta por conta do uso indevido do título de mais velho. O advogado que defende o clube gaúcho, Gerson Barbosa, é natural de Rio Grande e atua na advocacia em Santa Catarina.

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Lembranças do centenário

Estive lá (ainda militava na imprensa de Rio Grande) quando, em 19 de julho de 2000, uma tarde congelante de inverno, o Fluminense esteve em Rio Grande e venceu o Vovô por 1 a 0 no amistoso comemorativo dos 100 anos. Foi uma festa singela porém muito bonita. 

Rio Grande x Fluminense, o jogo do centenário do Vovô em 2000
Rio Grande x Fluminense, o jogo do centenário do Vovô em 2000 (Foto: Divulgação)

Naquele mesmo ano, convidado pela Federação Gaúcha de Futebol (FGF), o Rio Grande jogou a Série A do Gauchão, até fazendo boa figura. Mas logo voltou para a Série B. Deste então, oscila entre a Segunda e a Terceira Divisão. Há poucos dias, disputou uma vaga no acesso à B estadual, mas perdeu para o Gaúcho de Passo Fundo. Ficará mais um ano na Terceirona estadual.

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E como o Rio Grande gosta de fazer das suas, ele tem o técnico considerado mais jovem do Brasil. Trata-se de Cláudio Júnior, que tem 24 anos, comandou o Rio Grande na Série C e já está de contrato renovado para 2022. O time manda seus jogos no estádio Arthur Lawson, com capacidade para cerca de 5 mil torcedores, localizado em um complexo esportivo amplo, na rodovia de acesso a Rio Grande. 

Cláudio Júnior, o técnico mais novo no clube mais velho
Cláudio Júnior, o técnico mais novo no clube mais velho (Foto: SCRG / Divulgação)

Vida eterna ao Vovô, que teima em continuar sendo o mais velho do Brasil!

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