Dois anos após adquirir a Embraco, de Joinville, uma das gigantes mundiais de compressores herméticos para refrigeração, pela cifra de US$ 1,08 bilhão, o grupo japonês Nidec comprova que mantém o foco para a empresa voltado à tecnologia, mas acelera o ritmo de produção.

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Ao inaugurar nova linha de compressor EM na sede de Joinville, na última quinta-feira (11), o CEO da Nidec Global Appliance, Valter Taranzano, disse que este ano a companhia vai crescer 10% e faturar US$ 2,2 bilhões. Para o futuro, o plano é chegar a US$ 5 bilhões em 2025, resultado mais que o dobro do que o atual.

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Desde 2019, quando o grupo assumiu a empresa que pertencia à americana Whirlpool, foram investidos R$ 300 milhões em SC, dos quais R$ 100 milhões nessa nova linha, que criou 250 novos empregos e contou com 80% de fornecedores do Brasil.

Engenheiro graduado pela Politécnica de Turim, o executivo italiano está desde 2013 à frente da Nidec Global Appliance, que reúne a produção de compressores, motores para máquinas de lavar, secadoras e lavadoras de louça, e componentes para sistemas de aquecimento, ventilação e ar-condicionado do grupo japonês, que tem outros negócios e fatura mais de US$ 15 bilhões por ano.

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Taranzano revelou no evento que o sonho dele sempre foi adquirir a Embraco porque é a empresa referência mundial em tecnologia do setor. Nessa entrevista exclusiva ao portal NSC Total, ele fala sobre investimentos, pesquisas, globalização e sustentabilidade.

O que representa para a Nidec Global Appliance a nova linha de produção inaugurada em Joinville?

Essa nova linha de produção de Joinville faz parte de um plano de expansão da capacidade mundial de produção da Nidec Global Appliance. Estamos investindo em quase todos os países onde temos unidade. Para a unidade de Joinville, essa linha representa um importante investimento para ampliação da produção. Ela faz um compressor que não é novo, mas com alto volume de vendas, que corresponde por 80% dos compressores residenciais no mercado brasileiro.

A empresa, por meio da Embraco, chegou aos 50 anos em 9 de março com uma destacada trajetória internacional. Quais são os planos para os próximos anos?

Nós temos hoje, mundialmente, um faturamento anual de US$ 2,2 bilhões e o plano é chegar a US$ 5 bilhões em 2025, o que significa mais do que o dobro do atual. Para alcançar esse resultado, 50% do crescimento será orgânico. Esperamos conquistar novos mercados, mais volume. E os outros 50% deverão ser obtidos com aquisições de empresas de setores similares aos quais operamos. Essa expansão envolve todo o grupo Nidec Global Appliance e Santa Catarina é uma unidade muito importante, por isso vai participar mais. Tivemos a linha nova agora, mas vamos investir mais aqui.

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Como a empresa investe em pesquisa e desenvolvimento?

Globalmente, nós investimos todos os anos US$ 120 milhões em linhas novas, tecnologia e automação. Também investimos de 3% a 4% do faturamento em pesquisa e inovação. Investimos bastante dinheiro porque o nosso negócio é intensivo em capital e em tecnologia.

A Nidec, com a Embraco, tem uma parceria de pesquisas com a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) desde 1982, que é considerada a mais longeva do mundo entre uma indústria e uma universidade. O que ela representa para a empresa e essa parceria vai continuar?

Ela representa uma das partes mais importantes da Embraco porque conta com muitos engenheiros que trabalham para nós. Vamos manter e incrementar no futuro. Essa parceria foi um dos valores adjuntos pelos quais nós compramos a Embraco.

A pandemia colocou em dúvida o futuro do atual modelo de globalização da produção, principalmente pela falta de componentes. Como a Nidec está procedendo diante dessa realidade?

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A pandemia gerou problemas e oportunidades. Um efeito da pandemia para a economia foi um mercado maior, mas com uma grande falta de componentes. Além de preços muito altos, muitas vezes não se encontra componentes. Hoje, enfrentamos falta de contêineres para transportar material. Como estamos fazendo? Adotamos um projeto estratégico denominado “double country source” que envolve pelo menos dois países, considerando nossos clientes e fornecedores. 

No caso de nossos clientes, procuramos produzir modelos estratégicos em pelo menos em dois países, como Ásia e Europa, América do Norte e América Latina. Isso permite mitigar riscos para nossos clientes. Um exemplo é o nosso investimento para ampliar a produção de compressores inverter na Áustria, para ter mais de um uma fonte de fornecimento nossa ao mercado europeu. O mesmo estamos fazendo para os nossos fornecedores. Quando são materiais estratégicos, incluímos dois fornecedores de países diferentes, de modo a mitigar os problemas.

Por que as empresas fabricantes de refrigeradores do Brasil ainda não estão usando o modelo de compressor mais avançado, o inverter, que consome menos energia?

Os compressores são divididos em duas famílias, os de velocidade fixa e os de velocidade variável (conhecido também como inverter). Os mais avançados são de velocidade variável, que geram uma grande economia de energia. Para isso, é preciso mudança na legislação dos países. Os mais avançados já definiram uma maior economia de energia, como é o caso da Europa. Por isso os compressores que vendemos lá são quase todos de última geração, de velocidade variável. O Brasil não chegou ainda lá, mas vai avançar.

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O país está discutindo uma nova legislação para isso, nós participamos dessas discussões. Em 2022, devem ser definidas classes de menor consumo de energia e isso vai exigir compressores variáveis. Mas é uma transição que vai demorar três a quatro anos. O compressor EM atende à legislação atual e às exigências para os próximos anos. A legislação é para o refrigerador, e aí o fabricante vai buscar um compressor que consome menos.

Entre as tecnologias que sempre exigiram atenção da empresa estão às voltadas ao uso de gases refrigerantes e preservação do meio ambiente de modo geral. Como está isso atualmente?

Nesse aspecto ambiental temos três argumentos. Um é o fluido refrigerante que o refrigerador usa. Na maior parte do mundo passou-se a usar refrigerante natural. Temos ainda uma parte de refrigerante não natural no mercado americano, mas que está passando para o natural. E a Embraco foi pioneira a fabricar o compressor com refrigerante R600a, com o qual estamos avançando no mercado norte-americano.

O segundo aspecto ambiental é o consumo energético. Como eu falei antes, o mundo está passando do compressor de velocidade fixa para o de velocidade variável (ou inverter) porque esse último consome 40% menos energia do que o de velocidade fixa. Hoje, cerca de 50% dos compressores, para refrigeradores residenciais, que fabricamos são inverter, mas com uma penetração nos países bastante diferente; 100% na Europa, 100% na China e 20% aqui. Acredito que em cinco ou seis anos, 80% a 90% dos refrigeradores serão compressores de velocidade variável.

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E o terceiro aspecto é ser carbono zero (carbon free) na fábrica. Nisso somos bastante evoluídos porque respeitamos o meio ambiente, controlamos emissões, buscamos uma situação de carbon free total incluindo nossos fornecedores e nossos clientes. A Nidec lançou essa meta para 2040 e estamos bastante seguros de que nós, como divisão Global Appliance, seremos os primeiros a fazer porque estamos mais avançados do que a nossa empresa-mãe, graças à cultura da Embraco.

A Nidec participa de movimentos internacionais de empresas voltados à preservação ambiental?

A empresa é signatária do Pacto Global das Nações Unidas e faz o relatório de sustentabilidade baseado nesse pacto. Nós estamos revisando a estratégia de sustentabilidade da empresa porque somos signatários desse movimento e também porque a descarbonização é uma das estratégias de sustentabilidade.

Razões da compra da Embraco pela japonesa Nidec

O mundo vive a tendência do ESG, onde se cobra mais diversidade de profissionais, preservação do meio ambiente e gestão de qualidade. Como a empresa está se inserindo nisso?

Antes de tudo, esse aspecto é muito importante para nós. Temos a união de mentalidade de duas empresas e a da Embraco era muito mais voltada a isso. Um exemplo é a participação feminina. Da atual diretoria, quatro dos 10 principais cargos são ocupados por mulheres e, considerando a equipe global de empregados, 35% são mulheres. 

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Como a gente está refazendo a estratégia de sustentabilidade, estamos criando um comitê de diversidade no Brasil onde temos 5 mil funcionários. Sendo uma empresa multinacional e multicultural, temos naturalmente um público diverso.

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