Desde o início do tarifaço, ficou claro que cada empresa teria sua crise, mas o setor de madeira e móveis teria mais problemas em comum. Agora, se percebe que o moveleiro enfrenta mais isso porque poucas indústrias têm suas matérias-primas.

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— Após mais de um mês da entrada em vigor da tarifa de 50% aos produtos brasileiros pelos Estados Unidos, observamos que as empresas permanecem buscando alternativas para contornar a situação e manter sempre que possível seu quadro de funcionários. Acordos coletivos de trabalho, incluindo redução de jornada e férias, têm sido praticados, mas eles têm um tempo determinado de validade — explicou o empresário Luiz Carlos Pimentel, presidente do Sindicato das Indústrias da Construção Civil e do Mobiliário de São Bento do Sul (Sindusmóbil).

Ele também alerta que a falta de expectativa de uma negociação entre os dois países gera muita incerteza futura para o setor exportador. Por isso, as empresas estão tendo que tomar medidas mais duras, como suspensão de produção e demissões. O Sindusmóbil acompanhou a situação da Artefama.

— Sem previsão de geração de caixa futuro, as indústrias exportadoras se veem obrigadas a tomar decisões difíceis, como redução do quadro de funcionários. É uma situação indesejada, porém necessária para manter a estabilidade financeira e até a sobrevivência — destaca Pimentel.

Também afetados com o tarifaço de 50%, empresas catarinenses do setor de alimentos, entre as quais as de proteína animal, foram pragmáticas por terem possibilidades de vender em outros mercados. A gigante Aurora Coop, uma das maiores empresas de proteína animal do Brasil e pioneira na exportação de carne suína aos EUA, decidiu suspender em 100% as vendas para o país.

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A empresa exportava 1,2 mil toneladas por mês de barriga (80%), carré, copa e pernil, o que resultava em receita de 5 milhões de dólares mensais. Segundo a cooperativa, essa produção está sendo direcionada para outros mercados, mas sem a remuneração que obtinha nos EUA. Os embarques foram suspensos em julho ao mercado americano.

Já o setor de pescados de SC, que tinha nos EUA um mercado importante, o que melhor pagava, está com dificuldades, observa o presidente do Sindicato dos Armadores e das Indústrias de Pesca de Itajaí e Região (Sindipi), Agnaldo Hilton dos Santos.

— Temos algumas empresas que estão enfrentando dificuldades. Esse tarifaço pegou o setor de surpresa. Mas a questão do desemprego não vai acontecer agora. Deve ocorrer possivelmente em novembro ou dezembro porque o setor tem um ‘delay’ pelo fato de algumas embarcações pescarem no Nordeste agora, principalmente do atum — diz o líder empresarial.

Segundo ele, uma parte das empresas está negociando preços menores para seguir exportando. Além disso, o sindicato está colaborando na busca de novos mercados, tentando abrir mercado na Europa.
A presidente da Câmara de Alimentos e Bebidas da Fiesc, Micheli Poli Silva, observa que alguns setores têm alertado mais sobre dificuldades em função do tarifaço. Segundo ela, fabricantes de suco de maçã do Oeste de SC, que vendiam somente aos EUA no exterior, estão com muitas dificuldades. O suco de laranja foi isento, mas o de maçã não.

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E sobre o setor de pescados, a empresária observa que o impacto está sendo grande porque 52% das exportações de pescado do país tinham como destino os EUA. A conquista de novos mercados esbarra na questão sanitária porque cada país faz um licenciamento próprio, demorado.

Cenário mais otimista já prevê perda bilionária no PIB

O tarifaço nos Estados Unidos vai impor perdas bilionárias à economia do estado e afetará de forma diferente regiões e municípios. O impacto será maior na região Serrana e em municípios fortes nos setores de madeira, móveis e outros itens voltados aos EUA. Estudo da Federação das Indústrias do Estado (Fiesc) estimou que num cenário mais otimista, com recuo de 30% das exportações ao mercado americano, SC perderá R$ 1,2 bilhão no PIB e quase 20 mil empregos. Num cenário pior, de continuidade do tarifaço, o PIB pode recuar R$ 4,9 bilhões e haverá fechamento de 45 mil empregos.

O mais preocupante nesse cenário é o impacto diferente em cidades e regiões, observa o economista-chefe da Fiesc, Pablo Bittencourt, que liderou o estudo. Na análise técnica de cidades, por exemplo, foi feito um ranking com base na exposição da economia ao mercado dos EUA e comparado com o Índice de Desenvolvimento da Firjan. O “Ranking do Impacto Potencial do Tarifaço nos Municípios Catarinenses” tem à frente Salete (1º), Capão Alto (2º), Itá (3º), Benedito Novo (4º) e Caçador (5º).

O estudo apontou que Salete, com elevada concentração na atividade de madeira, é o município de SC com maior potencial de impacto na economia em função do tarifaço. Ele sedia a matriz de uma grande indústria de portas de madeira. Mas como o município tem alto índice de desenvolvimento, pode ter mais condições de enfrentar uma crise. Em segundo lugar está Capão Alto, com alta atividade de reflorestamento, e em terceiro, Itá, que se destaca na exportação de gelatina aos EUA.

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— Tanto as regiões, quanto os municípios que serão mais afetados são aqueles que têm economia menos diversificada — explica Bittencourt.

De acordo com o economista, considerando o cenário mais difícil, de continuidade do tarifaço, a Fiesc, outras entidades e o governo estão estudando algumas alternativas para ativar alguns setores econômicos. Entre as medidas analisadas estão a busca de novos mercados, apoio financeiro e eventuais estímulos fiscais, entre outras.

Empresas exportadoras impactadas pelo tarifaço já podem apresentar solicitação de crédito especial junto aos bancos BNDES, BRDE e a outros que financiam investimentos. O diretor de Desenvolvimento Produtivo, Inovação e Comércio Exterior do BNDES, José Luis Gordon, informou na quarta-feira (17), em palestra na Fiesc, que o programa Brasil Soberano, do governo federal, começaria a liberação de recursos até sexta-feira. Mas as empresas já poderiam se inscrever nas instituições para acessar o programa. E o governo do estado de Santa Catarina informou que está finalizando a linha de Pronampe Exportação para ajudar o setor.

De acordo com o diretor do BNDES, o Programa Brasil Soberano tem um montante de R$ 40 bilhões para atender empresas afetadas pelas taxações dos Estados Unidos. Considerando outras linhas de crédito, os recursos podem chegar a R$ 60 bilhões.

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— O programa vai incluir empresas impactadas pelas tarifas de 50%, 25% ou 10%. Aquelas que estão no tarifaço de 50% e que tiveram pelo menos 5% do seu faturamento impactado terão acesso às linhas mais incentivadas, ou seja, com juros menores — destacou Gordon.
As demais terão acesso a linhas diferenciadas que o BNDES está propondo para ajudar. As linhas mais incentivadas têm taxas de juros entre 6% e 10% ao ano e podem ser usadas tanto para capital de giro, quanto para outros investimentos.

Uma linha de crédito com juro mais acessível foi a promessa do governo de SC para empresas afetadas pelo tarifaço. Em reunião na Fiesc, o governador Jorginho Mello anunciou que seriam disponibilizados R$ 265 milhões. A linha terá prazo de 36 meses, com um ano de carência e 24 meses para pagar.

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